24 de fev de 2011

O apertador de botão



Há alguns anos, João foi contratado por uma fábrica para aparafusar caixas de madeira e despachá-las. No dia da entrevista de emprego, o dono da empresa lhe explicou sobre o serviço. Falou de todo o processo, o objetivo geral e a parte que lhe cabia. João não entendeu muito bem. Mas não importava. Bastava saber que, todos os dias, várias caixas diferentes lhe seriam entregues e ele teria que fechá-las com pregos para que viajassem com segurança. O salário não era muito bom, mas dava pra pagar as contas e sustentar a mulher e os filhos.


Desde que chegava, até a hora de ir embora (exceto na hora do almoço, claro), o recém-contratado sentava numa cadeira e ficava esperando o superior lhe trazer as caixas de madeira.  Grandes, pequenas, médias. Para cada modelo, um número de pregos e uma técnica diferente. Com uma semana, aprendeu tudo o que precisava. Os anos foram passando e João continuava na mesma etapa, a última, de um processo que ele nem fazia idéia de qual era. 

Um belo dia, o supervisor, responsável por despachar as caixas, estava cheio de outros afazeres, problemas pontuais e acabou se confundindo ao deixar, no meio das outras de madeira, uma caixa de ferro que servia de cofre para guardar seus pertences até o final do expediente. João estranhou a situação, mas nada disse. Na verdade, nem refletiu sobre, apenas executou a mesma operação que fazia há 10 anos. E João fechou a caixa com os parafusos mais grossos e o maior martelo da caixa de ferramentas. 

O chefe prosseguiu nos afazeres normalmente até que, no final do dia, na hora de pegar as coisas e partir, notou a falta do cofre improvisado. Como João era o único funcionário que ainda estava na empresa (a enorme caixa de ferro havia lhe atrasado o serviço), foi chamado até a sala da supervisão. 


"João, você viu meu cofre?" 

"Mas o senhor me deu ela hoje cedo para aparafusar..."

"Como é que é? E você aparafusou? Não sabe que ali guardo meus pertences?!"

Rispidamente, cheio de razão, o funcionário "padrãonizado" respondeu: "A obrigação de me trazer caixas para aparafusar é sua. Se o senhor me deu o cofre da empresa para aparafusar, foi exatamente o que fiz".


O que vocês acham que aconteceu com João? Foi demitido? 


Antes da resposta, um parêntese: assim como João, existem hoje milhares de "funcionários padrãonizados" espalhados no mercado de trabalho. Pessoas que são contratadas para apertar um botão (a mando de outras), que não se interessam em conhecer cada etapa do processo, saber a política da empresa, entender o porquê de todas aquelas operações. Basta apertar o mesmo botão dia após dia, aparafusar caixas de madeira e receber o salário do final do mês. 

Não. João não perdeu o emprego. Direitos trabalhistas, outra contratação... muito trabalho e ônus pra empresa. O chefe simplesmente comprou uma caixa nova. Ou melhor, um cofre de verdade. 


E João?


...

Bem, ele continua aparafusando caixas de madeira até hoje.

3 comentários:

enola disse...

Conta meu velho pai que quando a Varig fazia manutenção dos aviões da USAF nos anos 50/60 a equipe de mecânicos era composta por 8 a 10 brasileiros, quando nos Estados Unidos a USAF (Unites States Air Force) precisava de 25 americanos pra efetuar o mesmo trabalho.
A piada dos mecânicos brasileiros era "um americano aperta um parafuso, outro só afrouxa, um passa cola, outro assopra pra secar..."

Lembrei dessa história quando li teu post. A verdade é que mesmo depois de tanto tempo há sempre um trabalhador seguidor da linha fordista com o discurso "Isso não é problema meu!" ou "A culpa não é minha, isso é função do fulano".

Triste... mas verdadeiro.

*beijo*

L.S. Alves disse...

Estamos sabendo cada vez mais sobre cada vez menos.

Dom Rafa disse...

No serviço público tem muito isso... Por mais que nos incentivem à "polivalência", o que acaba acontecendo é uma pessoa ficar responsável por uma área e acabar "esquecida" ali. Pelo menos é a impressão que eu tenho.

Beijos!