22 de jan de 2012

A "boazinha" e a queda da visão cartesiana




Não sei a partir de que momento ganhei o estigma de 'boazinha' na empresa em que trabalho. E, muito menos, quando o aceitei sem grande discórdia. Afinal de contas, que mal haveria de ter ser uma pessoa boa?

Cresci aprendendo que desejar o bem alheio faz parte da fórmula da felicidade. E a responsável por todo esse processo de aprendizado (mamãe) usou comigo a técnica mais eficaz que os pais podem usar na educação dos filhos: agir como gostaria que eles agissem. E, assim sem muito esforço, fui deixando de achar ridículo ela chorar na frente da TV assistindo casos sensacionalistas e programas de auditório que presenteiam um pobre coitado em um milhão e nos faz achar que o mundo é um pouco melhor do que parece. Pior do que tudo isso: me peguei várias vezes chorando junto com ela. Nos olhamos e rimos juntas quando acontece.  

Mas, como dizia no começo, não sei a partir de que momento as pessoas do meu trabalho começaram a perceber essa característica em mim e me rotular como se isso fosse algo ruim. Um colega de trabalho (que, aliás, admiro muito) inventou de fazer comigo um "curso intensivo", que até hoje me pergunto como se chamaria... Curso de Maldade Aplicada ao Trabalho - módulo 1? Preciso confessar que com ele aprendi muitas coisas, inclusive um termo que adorei: "Assertividade" (na psicologia, "comportamento assertivo"), que é (de forma resumida) a capacidade de agir em interesse próprio, expressar seus sentimentos sem ferir a ninguém.

O que me trouxe até aqui, enfim, foi a pergunta: será mesmo que existe alguém "bonzinho" nos dias atuais? Vou mais além: "existe alguém 100% ruim?" Consultei alguns caras importantes do conhecimento científico e descobri alguns conceitos que gostaria de compartilhar com vocês:



Visão cartesiana


Dividir o todo em partes e estudá-las separadamente é o princípio da visão cartesiana, que foi uma das maiores contribuições científicas para a humanidade do brilhante matemático e fundador da filosofia moderna René Descartes. Foi o método de Descartes que tornou possível à NASA levar o homem à Lua. O problema é que ele também levou à fragmentação característica do nosso pensamento em geral e, sobretudo, nos fez acreditar que todos os aspectos dos fenômenos complexos podem ser compreendidos se reduzidos às suas partes constituintes. Graças a ele é que nosso sistema educacional é dividido em "séries" e em graus de dificuldade, mas isso não é de todo ruim. E por falar em todo...


Visão holística


Em termos filosóficos, a visão holística significa a interação da parte com o todo e se contrapõe ao pensamento reducionista cartesiano. A palavra Holismo – vem do grego holon – significa inteiro, integral, totalidade, realidade, que faz referência a um universo feito de conjuntos integrados que não pode ser reduzido à simples soma de suas parte. 


Significa dizer que Descartes não pode fazer mais do que esboçar as linhas gerais de sua teoria dos fenômenos naturais e quem completou foi Albert Einstein, que marcou o início da física moderna com a revolucionária Teoria da Relatividade. E olha que o cara da linguinha pra fora não foi um bom matemático, heim? Ele acertou ao aplicar a visão holística a suas pesquisas, com uma clareza de visão, percepção e raciocínio lógico que o deixavam sempre muitos passos à frente daqueles que eram cegados justamente pelo refino matemático.



Moral da história


A queda da visão cartesiana acabou influenciando a sociedade a não mais aceitar padrões anteriormente impostos pela literatura, indústria cinematográfica, teledramaturgia, etc. A ideia do vilão e do mocinho passa a ser criticada à medida que nos identificamos ora com um, ora com outro em nossas vidas cotidianas. Daí o porquê de não aceitarmos mais os casais "bonitinhos" que antes arrancavam suspiros das mulheres. 

Outro dia me peguei assistindo uma cena da novela "Fina Estampa". A vilã, Tereza Cristina, personagem fortemente caricato, demonstrou pela primeira vez na trama (sim, tenho assistido novela - crucifiquem-me...rs) algum sentimento bom e verdadeiro ao ver o sofrimento do criado (quem ela trata como escravo e só maltrata). Foi quando comecei a pensar em toda essa história de cartesianismo, holismo e liguei ao fato de eu ser taxada como 'boazinha'. E antes de me chatear com rótulos - que, inclusive, todos nós adoramos dar aos outros - me dou por satisfeita de não terem conhecido meu lado vilã...


18 de jan de 2012

Quando a palavra cala.


Quando tudo mais parece ter sido dito, quando os conflitos internos se dissipam bem antes de sentar para escrever, quando você se acha tão autossuficiente que exprimir em palavras algumas situações parece desnecessário, é o momento de admitir que existe um problema. E de que ele é bem maior do que seus questionamentos de outrora. Palavras não cessam. Elas pausam. E se você, em algum momento, se imaginar desprovida de ideias para escrever, é talvez quando elas mais precisem de um pequeno empurrão seu para fluir. E continuar fluindo.

Já faz bastante tempo que não posto nada aqui. Já vi alguns casos assim de abandono: Começam com a diminuição de frequência dos posts, depois a poeira reina e aí... pobrezinho! Mais um órfão na blogosfera. Não quero que o Escarlate passe por isso.  

Mas é que antes de entrar na TV, eu tinha tempo para desenvolver as ideias. Hoje elas surgem e até eu resolver um dia inteiro, elas somem. Isso depois de ter lido tantos sites, blogs, textos institucionais, escrever pro trabalho, etc. Tem dias que nem quero mais olhar pro computador quando chego em casa. Imagina pensar num assunto e desenvolvê-lo. No way!

Antes escrever não era minha obrigação, meu meio de trabalho. As letras eram meu hobby, minha fuga, minhas amantes. Hoje entendo esses caras que mantém casos extraconjugais durante anos, enganando uma de que é fiel e a outra de que vai deixar o casamento. O que falta em uma, a outra compensa. As cobranças, a rotina, o que está sempre ao alcance das mãos... Provavelmente se ele deixasse a mulher, a concubina perderia a graça no posto oficial. Que fique claro aos caros leitores que não estou saindo a favor da bigamia, ok? Mas, convenhamos, deve ser muito mais difícil cumprir os dois papéis e ser bom(a) nos dois, não é mesmo? 


Que os assuntos diários coexistam com meus desatinos. E que minhas teorias, histórias e tagarelices literárias encontrem o seu devido lugar em minha vida. Afinal, ainda sou a mesma. Mesmo quando a palavra cala. :)

*Um feliz Natal e Ano Novo atrasados a todos! E obrigada por não abandonarem o Escarlate, até mesmo quando ele abandona a si próprio*