31 de jul de 2012

De repente, classe C



Sou ex-pobre. Todos querem me vender geladeira agora. O trem ainda quebra todo dia, o bairro alaga. Mas na TV até trocaram um jornalista para me agrada.

Eu me considerava um rapaz razoavelmente feliz até descobrir que não sou mais pobre e que agora faço parte da classe C. om a informação, percebi aos poucos que eu e minha nova classe somos as celebridades do momento. Todo mundo fala de nós e, claro, quer nos atingir de alguma forma. 

Há empresas, publicações, planos de marketing e institutos de pesquisa exclusivamente dedicados a investigar as minhas preferências: se gosto de azul ou vermelho, batata ou tomate e se meus filmes favoritos são do Van Damme ou do Steven Seagal. (Aliás, filmes dublados, por favor! Afinal, eu, como todos os membros da classe C, aparentemente tenho sérias dificuldades para ler com rapidez essas malditas legendas.) 

A televisão também estudou minha nova classe e, por isso, mudou seus planos: além do aumento dos programas que relatam crimes bizarros (supostamente gosto disso), as telenovelas agora têm empregadas domésticas como protagonistas, cabeleireiras como musas e até mesmo personagens ricos que moram em bairros mais ou menos como o meu. A diferença é que nesses bairros, os da novela, não há ônibus que demoram duas horas para passar nem buracos na rua. 

Um telejornal famoso até trocou seu antigo apresentador, um homem fino e especialista em vinhos, por um âncora, digamos, mais povão, do tipo que fala alto e gosta de samba. Um sujeito mais parecido comigo, talvez. Deve estar lá para chamar a minha atenção com mais facilidade.

As empresas viram a luz em cima da minha cabeça e decidiram que minha classe é seu novo alvo de consumo. Antes, quando eu era pobre, de certo modo não existia para elas. Quer dizer, talvez existisse, mas não tinha nome nem capital razoável.

De modo que agora elas querem me vender carros, geladeiras de inox, engenhocas eletrônicas, planos de saúde e TV por assinatura. Tudo em parcelas a perder de vista e com redução do IPI. E as universidades privadas, então, pipocam por São Paulo. Os cursos custam R$ 200 reais ao mês, e isso se eu não quiser pagar menos, estudando à distância. 

Assim como toda pasta de dente é a mais recomendada entre os dentistas, essas universidades estão sempre entre as mais indicadas pelo Ministério da Educação, como elas mesmas alardeiam. Se é verdade ou não, quem pode saber? 

E se eu não acreditar na educação privada, posso tentar uma universidade pública, evidentemente. Foi o que fiz: passei numa federal, fiz a matrícula e agora estou em greve porque o campus cai aos pedaços. Não tenho nem sala de aula. 

Não que eu não esteja feliz com meu novo status de consumidor, não deve ser isso. (Agora mesmo escrevo em um notebook, minha TV tem cem canais de esporte e minha mãe prepara a comida num fogão novo; se isso não for felicidade, do que se trata, então?) 

O problema é que me esforço, juro, mas o ceticismo ainda é minha perdição: levo 2h30 para chegar ao trabalho porque o trem quebra todos os dias, meu plano de saúde não cobre minha doença no intestino e morro de medo das enchentes do bairro. 

Ou seja, ao mesmo tempo em que todos querem me atingir por meu razoável poder de consumo, passo por perrengues do século passado. Eu e mais de 30 milhões de pessoas -não somos pobres, mas classe C. 

Deixa eu terminar por aqui o texto, porque daqui a pouco vão me chamar de chato ou, pior, de comunista. Logo eu, que só li Marx na versão resumida em quadrinhos. Fazer o quê, se eu gosto é de autoajuda? 

Os artigos publicados com assinatura não traduzem a opinião do jornal. Sua publicação obedece ao propósito de estimular o debate dos problemas brasileiros e mundiais e de refletir as diversas tendências do pensamento contemporâneo. debates@uol.com.br
 
Folha de São Paulo - Opinião


LEANDRO MACHADO, 23, é estudante de letras na Universidade Federal de São Paulo, mora em Ferraz de Vasconcelos (SP) e escreve no blog Mural, da Folha

27 de jul de 2012

Romance e cinema... no momento certo.

Solteira sim. Sozinha... certamente.

E quem foi que disse que solteirice é se colocar numa vitrine? Já passei dessa fase de buscar desesperadamente um tapa-buraco, sair beijando todas as bocas do mundo e, no final da noite, voltar pra casa porre, sozinha e frustrada porque nenhuma daquelas pessoas era a que você tanto buscava.

É, produção. Estou solteira. E, pela primeira vez na vida, não por escolha própria. :)

Hoje acho que o mais sensato a fazer é olhar pra dentro. A dor muitas vezes funciona como uma descarga elétrica, que te machuca, mas te acorda pra vida. E é como se, de repente, você saísse do automático e todas as sensações lhe fossem novas. Os cheiros, os gostos, as paisagens e até as pessoas que até então eram meras coadjuvantes.

Aprendi com o término do meu primeiro casamento que não adianta sair por aí buscando em terceiros o que você tinha com aquela pessoa. Aliás, é preciso aceitar que NINGUÉM será como ela. Poderá ser menos intenso, mais intenso, melhor ou pior. Igual, nunca mais.

E como os 12 passos do AA, eu vou vivendo um dia de cada vez. Me livrei de 90% das lembranças físicas, cortei contato, excluí das redes sociais e qualquer canal de informação, como a Rádio Cipó (sempre muito eficiente). Afinal, o que os olhos não vêem, os amigos e o facebook nos contam. É preciso evitar.

Uma coisa é fato: a vida sempre faz questão de deixar claro: "só vai acontecer quando você menos esperar". Então, não vou esperar. Não vou esperar que passe o sentimento, que vá embora a dor e muito menos acreditar em possibilidades fantasiosas - que só acontecem em filmes e em romances rodrigueanos.

Eu preciso me reconstruir, limpar minha casa para, um dia, receber o novo. Vou cuidar bem dela e deixá-la bem organizadinha. Até porque, para ocupar o espaço vazio que ficou, só um sentimento tão especial quanto o que antes ali habitava.

"Quando quiser entrar e encontrar o trinco trancado
Saiba que meu coração é um barraco de zinco, todo cuidado"
(Luiza Possi)