13 de mar de 2011

Dona Neide e o sonho de ser jornalista




Essa aí é Neide Batista. Ela tem 50 e alguns anos e um grande sonho: ser jornalista. A conheci há quase 4, quando entrei na Faculdade de Jornalismo. Ela gravava, há 20, livros falados para deficientes visuais no Instituto Álvares de Azevedo (mais conhecido como "escola de cegos"). Foi da minha turma durante um ano, até as coisas apertarem financeiramente e ela precisar abandonar o curso. 

Dona de uma voz grave, dicção impecável e piadas um tanto ácidas, Dona Neide (como carinhosamente a apelidei) é uma figura diferente de tudo que já conheci. Sinceridade é sua marca registrada. É do tipo "ame ou odeie" e, justamente por isso, me conquistou. 

Sentar num bar com Neide Batista é como abrir um livro de 500 páginas, uma biografia que qualquer terráqueo adoraria ler. A história de vida dessa mulher já começa diferente, com a mãe que quase a mata (sem querer, óbvio), as cervejas que ela tomava escondida atrás da porta quando criança, e prossegue tão absurda quanto. 


Ela conta com entusiasmo como foi viajar para o sudeste do Brasil de carona e me recomenda: "Não faça isso hoje. Se eu já fui louca naquela época, hoje seria praticamente um suicídio". Também diz, orgulhosa, que trabalhou durante 10 anos numa empresa e, ao sair, pegou todo o dinheiro que lhe era de direito e gastou tudo num só mês, numa viagem que fez a São Paulo,. Frequentou os melhores lugares, bebeu os mais caros vinhos e andou pra cima e pra baixo de táxi. Não se importou nem um pouco em saber que, quando a grana acabasse, ela voltaria a Belém do Pará e à vida simples de antes. "Eu não vou levar nada para o caixão. O que a gente leva da vida é isso aqui, bons momentos.", me disse, numa mesa de bar.


Mas uma de minhas histórias favoritas é uma das menos loucas: o primeiro show que ela assistiu da Maria Bethânia, de quem é fã incondicional. Ela viajou ao Rio de Janeiro com Lauro (outra figura interessantíssima, melhor amigo dela há muitos anos, o qual conheceu num fã clube da Bethânia) e os dois, ao final do show, foram beber na praia de Copacabana. A felicidade e a adrenalina eram tamanhas que Neide tirou a roupa e saiu correndo completamente nua pela areia, gritando: "Eu já posso morrer! Assisti a um show da Maria Bethânia!"

Conversar com Dona Neide é risada garantida. Mas ela sabe a hora certa de parar a brincadeira. Amizade, caráter e fidelidade são assuntos muito sérios para ela, que se for amiga, atende um telefonema às 03:40h da manhã só pra te ouvir chorar, passa noites em claro no hospital contigo e divide o único bife do jantar com algum pobre coitado que bate à porta faminto, pedindo comida.

Ela ainda não teve condições de terminar a faculdade de jornalismo, mas foi chamada recentemente para gravar este vídeo, sem promessa de contratação ou coisa parecida, pela "webmissora" independente INTV. Realizou um sonho, o de reportar na televisão (seu meio de comunicação favorito). Mas ainda é pouco, diante do que ela deseja e merece.

Publico hoje, aqui no Escarlate, a reportagem que ela fez. É o mínimo que eu poderia fazer por ela, além de respeitá-la e desejar-lhe sempre o melhor que essa vida pode lhe proporcionar. 

8 de mar de 2011

A ciência explica por que somos divas



Para muita gente, 8 de março é apenas um dia em que mulheres recebem flores na saída de restaurantes e lojas. A data, porém, marca mais de um século de movimentos pela emancipação das mulheres. Hoje, Dia Internacional da Mulher, resolvi sair do clichê das frases feitas e me utilizar da ciência para entender por que merecemos ser homenageadas. Revelo aqui no Escarlate algumas das características (todas seria impossível, pois passaria pelo lado sobrenatural da coisa...rs) que nos fazem não melhores, mas diferentes dos homens: verdadeiras divas, seja de salto alto num palácio ou de avental na cozinha. 

Sempre houve dúvidas sobre se o cérebro feminino seria diferente do masculino. Uma das poucas informações disponíveis, até pouco tempo, era de que o cérebro do homem é, em média, maior e mais pesado que o das mulheres. Esse fato foi utilizado pelos homens durante muito tempo como argumento para afirmar que os homens seriam mais inteligentes, confirmando, assim, o mito da superioridade masculina. Felizmente, a moderna neurociência vem obtendo informações muito mais detalhadas e fidedignas sobre o funcionamento do cérebro feminino, mostrando, entre outras coisas, que, em alguns aspectos, ele é mais complexo que o cérebro masculino (quanto a isso, não tenho a menor dúvida...rs).

Nunca houve dúvidas, entretanto, que homens e mulheres são diferentes, não apenas fisicamente, mas, também em relação à maneira de pensar, sentir e se comportar. Essas diferenças costumavam ser atribuídas a questões meramente culturais e educacionais. O estudo do cérebro feminino, no entanto, vem demonstrando que essas diferenças estão, em boa parte, determinadas biológica e geneticamente por diferenças essenciais na estrutura cerebral de machos e fêmeas da espécie.

"Podemos conversar a respeito?" 

As diferenças aparecem de forma mais evidente no comportamento. Por exemplo, os homens tendem a falar menos e a ter maior dificuldade em expressar emoções em verbalmente. Porém, têm mais facilidade na orientação espacial e orientam-se melhor. As mulheres são mais falantes, são capazes de fazer várias coisas ao mesmo tempo, mas têm mais dificuldade em se localizar nas ruas de uma grande cidade.
As descobertas dos estudos científicos mais recentes revelam que os sexos são diferentes porque os cérebros são diferentes, ou seja, processam informação de forma distinta, o que resulta em diferentes percepções, prioridades e comportamentos. Isso explica por que os homens têm mais afinidade para a lógica e matemática enquanto as mulheres são mais aptas a lidar com as emoções. Isso não significa que a regra se aplique a todos, trata-se de uma tendência que pode ser modificada pela experiência, educação e treinamento que dependem de diversas circunstâncias ambientais, históricas e culturais. Ambos os cérebros possuem múltiplos potenciais que podem ser ativados e desenvolvidos em maior ou menor grau.

A maior parte das diferenças foram se estabelecendo ao longo da evolução, relacionadas aos papéis desempenhados pelo homem e pela mulher na natureza e na sociedade em função de suas diferenças físicas. Nos tempos primitivos, a principal atividade dos homens era a caça e a guerra, em função da força física. Já às mulheres era atribuída a função de cuidar da prole, das colheitas, das roupas e da alimentação. Inclusive, devido ao seu aparato biológico destinado à reprodução e amamentação. Essa especialização de tarefas levou ao desenvolvimento distinto em diferentes regiões do cérebro. A caça exigia um maior domínio do espaço e das distâncias, bem como da orientação em vastas áreas geográficas. A função feminina exigia a necessidade de perceber se as crianças estavam bem ou não, isto é, a capacidade de compreender, através da sensibilidade, o que o outro está sentindo e necessitando a cada momento.

Praticidade x Maior sensibilidade

Em resumo, enquanto a função masculina era dominar a natureza e afastar as ameaças físicas à sobrevivência da espécie, a função das mulheres era garantir o bem estar, saúde, alimentação e desenvolvimento dos membros do clan (não apenas crianças, mas também homens e idosos). Esse papel mais complexo reservado às mulheres fez com que o cérebro feminino tenha se especializado em funções multitarefa enquanto o dos homens se especializou em avaliar as circunstâncias e elaborar estratégias. 

Como as mulheres estavam expostas a um maior número de estímulos sensoriais, elas desenvolveram uma capacidade maior de percepção, inclusive de visão periférica, por esse motivo o cérebro feminino está equipado para receber uma grande quantidade de informação sensorial, a relacionar e conectar essa informação com mais facilidade, a dar prioridade às relações humanas e a comunicar. O cérebro masculino é mais compartimentado e tem menos ligações entre o hemisfério direito e o esquerdo, por isso os homens tem mais dificuldade em fazer duas coisas ao mesmo tempo, em compensação, tem mais facilidade em se concentrar em uma única tarefa. É por isso que elas conseguem falar fazendo um monte de outras coisas ao mesmo tempo, enquanto os homens quando estão concentrados em uma tarefa – usar o computador, por exemplo – não conseguem prestar atenção ao que elas estão dizendo.

Essas distintas competências sociais agiram ao nível do cérebro, determinado que algumas regiões se desenvolvessem em detrimento de outras. Por exemplo, a maior aptidão masculina para análise e sistematização é determinada pelo maior desenvolvimento de uma região do cérebro, o Lobo Parietal Inferior (LPI), localizado na região acima do nível das orelhas. Por isso, nos homens, o LPI do hemisfério esquerdo é maior do direito, enquanto que no cérebro feminino se passa o contrário. O hemisfério esquerdo está relacionado às habilidades matemáticas, com a percepção do tempo e do espaço e com a capacidade de rotação mental de figuras tridimensionais. Isso explica por que os homens têm maior facilidade em jogos de estratégia.

As áreas relacionadas à linguagem (conhecidas como áreas de Broca e Wernicke), localizadas nos lobos frontais e temporais, são mais desenvolvidas nas mulheres, fornecendo assim uma razão biológica para a maior habilidade das mulheres no campo da linguagem. As mulheres apresentam um volume 23% maior (na área de Broca) e 13% (na área de Wernicke) do que os homens. As mulheres são melhores quando se trata de memorizar listas de palavras e em indicar vocábulos que começam por uma letra específica.

"Eu sabia que você estava me traindo!"

As capacidades sensoriais femininas são mais desenvolvidas do que as masculinas, motivo pelo qual elas conseguem interpretar os pequenos sinais não verbais dos outros e tirar conclusões mais rapidamente sobre o seu estado de espírito. Isto justifica a proverbial insensibilidade dos homens e explica o famoso sexto sentido feminino. Em termos da estrutura cerebral, isso determinou um maior desenvolvimento de um centro cerebral chamado hipocampo, que as leva a expressar melhor as emoções e a ter mais facilidade em recordar acontecimentos marcantes em termos emocionais. Por isso elas sempre tem aquelas lembranças que tiram do fundo do baú.

As mulheres vêem melhor à noite e os homens de dia. A necessidade de dar atenção a tantas tarefas de modo simultâneo, que remonta ao tempo das cavernas, deu às mulheres uma visão periférica mais ampla do que a dos homens, que alcança quase 180 graus. Já, os homens, levam vantagem na visão à distância, que lhes era útil nas caçadas e que explica porque eles tem bem melhor pontaria do que as mulheres. Essa mesma visão periférica permite às mulheres espreitar os homens sem que eles percebam usando o famoso olhar de canto de olho. Os homens, que precisam olhar diretamente, são facilmente apanhados quando dirigem às mulheres com o seu não menos famoso olhar de raios-X.

Fatos curiosos:

O cérebro masculino é 10% maior do que o feminino. Na prática, isso não faz diferença, porque as mulheres registram uma maior atividade da matéria cinzenta, o que significa que o cérebro feminino processa informação de modo mais eficiente.

O hemisfério direito é maior nos homens, bem como a amídala (a área mais primitiva do cérebro) o que explica a maior agressividade do sexo masculino e porque os homens tem reações físicas mais rápidas.

As mulheres falam três vezes mais do que os homens. Cerca de 20 mil palavras por dia, contra as 13 mil masculinas. Elas também falam mais rapidamente e dedicam mais tempo a matraquear. A queixa comum das mulheres de que os homens não ouvem o que elas dizem tem fundamento: a testosterona reduz o tamanho da região do cérebro responsável pela audição.

Os homens pensam em sexo a cada 52 segundos e as mulheres apenas uma vez por dia, em média. A região do cérebro responsável pelos pensamentos sexuais é duas vezes maior nos homens do que nas mulheres.

Embora as mulheres reajam mais depressa à dor, que sentem com mais intensidade, elas tem maior resistência ao desconforto causado pela dor em longo prazo.

As mulheres conseguem armazenar informação aleatória e irrelevante por mais tempo, enquanto eles apenas memorizam informação se a organizarem de forma coerente ou se a sentirem como importante e útil.

A todas as mulheres e aos homens que amam suas mulheres (não é uma alusão à bi / poligamia, tá? Me refiro a mães, irmãs, amigas...rs), um FELIZ DIA DA MULHER! 

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