14 de nov de 2011

Linha do Tempo



A vida e suas passagens. Mais um capítulo da minha está chegando ao fim. O virar outra página, a expectativa do novo, a nostalgia do que ficou guardado no bauzinho de memórias. Foram 4 anos, não 4 semanas, ou 4 meses. A lembrança de quando entrei na faculdade ainda está bem viva em mim. Aparelho nos dentes (que estou tirando este mês), espinhas no rosto, a insegurança de quem está apenas começando... e um ideal no olhar de menina.

Valeu a pena cada noite em que, após longo dia de trabalho, eu me obriguei a ir à aula, cada vez que precisei abdicar de finais de semana ou feriados para estudar, fazer trabalho, cada pequeno esforço (inclusive, financeiro) agora se materializa e me retribui.


Para quem não conhece minha história, pode parecer exagero um post sobre formatura. "Ora bolas, tanta gente se forma e não faz parecer que ganhou na loteria ou entrou pro Guiness!". Mas eu conto pra vocês um pouquinho, pra que entendam melhor. Posso? :)


Cresci numa família simples. Não pobre. Nem rica. Simples, apenas. Não posso dizer que não tive tudo que quis. Meu pai ausente, minha mãe trabalhava duro para me sustentar com alguma ajuda da minha avó e de minhas duas tias. Mas também não posso dizer que tudo era fácil. Estudei sempre em escola particular e tudo que tive (ótimas roupas, brinquedos, a melhor comida, etc.) era conseguido com muito sacrifício.


Um dia, após trabalhar como instrutora de português, matemática e inglês num Kumon (primeiro emprego, salário baixinho), consegui (através de minha prima mais velha) uma vaga em um banco consagrado da cidade. Fazia empréstimos consignados (ou seja, ferrava a vida das pessoas). Mas não era feliz. Não tinha um curso superior e nem visionava ter, apesar da vontade. Não tinha a mínima noção do que significava a palavra "planejamento". Na verdade, independente do dinheiro e do tempo, não me achava capaz. Havia tentado vestibular para jornalismo na Universidade Federal do Pará e não havia passado. Desisti.


Foi quando conheci um anjo que mudou tudo que veio depois dele, em minha vida. Meu primeiro namorado de verdade (dessas relações que duram anos e criam raízes, permanecendo boas lembranças mesmo depois que acabam - o que foi o caso). Ele me fez enxergar em mim o que nem eu era capaz de ver. 


"Veja como escreve bem! Você tem um mega potencial. Por que não tenta de novo?" E eu ia acreditando naquilo, aos poucos até percebendo que tinha razão. Foi quando, com incentivo dele, voltei a estudar. Larguei o banco que não me fazia feliz e me permiti tentar novamente. Naquele ano, o vestibular tinha aberto cotas para quem havia concluído o 2º grau em colégio público e isso me impediu de ser aprovada de maneira vergonhosa (com a mesma colocação / pontuação, eu teria passado no ano anterior, antes das cotas). 


Achamos que não dava para esperar mais um ano, já havia perdido muito tempo. Foi quando me matriculei em uma faculdade particular, esperando que conseguisse logo um estágio que pudesse bancar a mensalidade sem ajuda dele, de minha mãe, de ninguém. E foi exatamente o que aconteceu. Logo no segundo semestre, consegui um estágio. Pagava parcialmente meu curso, até agregar uma nova função dentro da mesma empresa e ganhar um aumento que passou a cobrir toda a parcela. Nem me importava que não sobrasse nada. Sentia prazer em pegar todo meu dinheiro no final do mês e investi-lo em mim.


Os dois anos de estágio estavam chegando ao fim, quando o coordenador do curso de jornalismo me procurou pela faculdade e - para minha surpresa - me ofereceu o emprego dos meus sonhos: trabalharia na minha área, produzindo um programa de TV ao vivo, diário, carro-chefe da emissora. O salário, o dobro do que ganhava no estágio.


Continuo na TV. No próximo dia 24, apresento o painel do meu TCC. Uma espécie de "defesa" para quem escolheu a tipologia 'produto' (uma revista que pretendo comercializar na próxima edição). E nem acredito que no final do mês pagarei a última mensalidade - suada - de um sonho. Sou, finalmente, jornalista. 


Primeiro casamento terminou pacificamente. Depois dele, outra relação que também terminou. E agora outra, que me conduz ao altar. Em janeiro ou fevereiro do próximo ano, assumo o compromisso de uma vida a dois. Casa, contas, quem sabe filhos e cerca branca, como nos comerciais de margarina.


The (happy) End!


To be continued...

3 de out de 2011

Adeus, twitter!



Um dia já tive minha foto como avatar no twitter. Um dia já twittei revoltas, alegrias e tristezas, mencionei pessoas e já fui mencionada... Algumas vezes perdi followers e nunca conseguia advinhar quem eram ou por que deixaram de me seguir.

Já li MUITA coisa inteligente (na verdade, acho que algumas pessoas estão se perdendo de tão criativas que são). Já li porcaria. E abstraí, pois internet é isso mesmo: muita informação junta, pra você decidir o que te interessa de fato.

E, depois de toda essa experiência de vida cibernética, eu aprendi uma lição: o twitter, como qualquer outra ferramenta midiática, é uma faca de dois gumes. Você pode (ou não) usá-la a seu favor. Jornalisticamente, publicitariamente ou como você souber fazer.

Acontece que exposição gratuita na internet pra mim é, além de desnecessário, um tiro pela culatra. Uma auto-propaganda negativa. Quem iria contratar uma pessoa que escreve errado, que demonstra instabilidade emocional ou xinga o próprio chefe (mesmo que ele nem sonhe que você tem twitter)?

Você pode esconder seu perfil durante muito tempo. Mas quem me garante que pra sempre? 

Se o argumento é "nunca meu twitter vai me influenciar em nada - nem negativa nem positivamente - minha resposta é: então a troco de que você se expõe? Ninguém vai ligar pra sua vida mesmo. Já se o argumento é: meu twitter pode, sim, mudar minha vida e de outras pessoas, aí te digo "mais cuidado com o que você publica". 

Simples assim: se publica merda e ninguém te dá a mínima: tá perdendo seu tempo. E se publica merda e alguém repara em você, pode estar perdendo um futuro emprego, uma futura amizade, um futuro romande ou - NO MÍNIMO - followers.

É por essas e outras que hoje eu decidi (e espero não voltar atrás): estou deletando meu twitter.

Adeus indiretas ridículas, adeus exposição gratuita, adeus tempo perdido de vício na frente do computador ou do celular, adeus seguir por educação. 

Adeus ferramenta incrível repleta de pessoas inteligentes e criativas que ainda não descobriram (estou generalizando, óbvio) o potencial dessa rede social.

Aos que ficam, desejo-lhes uma boa TL! :*

20 de ago de 2011

Talento

Se hoje eu tenho algum jeito com palavras, saibam que um dia já tive jeito com desenhos:




Acho que eu tinha uns 3 anos quando fiz esse aí. A "tia" pediu para desenharmos nosso papai em homenagem ao dia dele. Detalhe, a única lógica que consegui encontrar foi a cor. Devo ter pensado algo do tipo: "Papai é menino. Cor de menino é azul". Fica a recordação. Minha, dele e nossa.


E aí, gente? Será que deveria ter seguido outra carreira? *rs

13 de ago de 2011

Geração.net




Engraçado me pegar olhando o número de seguidores do meu blog (eles crescem devagar, mas com qualidade - ainda bem!), me empolgar com os novos 'followers' do twitter (esses sim, crescem vertiginosamente e isso me assusta e empolga ao mesmo tempo) e lembrar que há algum tempo eu esperava bastante pra conectar até ouvir aquele barulhinho esquisito e, quando finalmente conectava, eu corria pro mIRC.. pro ICQ.

Antigamente, bem antigamente, os poetas falavam das caixas de correio vazias, que representavam solidão. Hoje ninguém mais recebe cartas (bom, é óbvio que generalizei, né? Eu recebo cartas. Muito esporadicamente e por um caso bem específico, mas recebo) e nem mesmo e-mails são a forma mais comum de comunicação atualmente. 

Hoje se sente sozinho quem conecta no MSN e vê que todos estão offline. Quem não recebe um comentário no blog há séculos. Ou ainda, quem abre o Facebook (porque até o orkut que era febre já tá ultrapassado) e não tem ninguém que te curtiu, pra adicionar ou chamar pelo bate-papo. 

No twitter tudo é tão instantâneo que notícia divulgada de manhã é velha à noite. Sem falar na fugacidade: o que hoje é o boom do momento (#amywinehouse, #sandy, #gianechinni), amanhã é assunto morto. Ninguém mais twitta sobre a Amy... aquele fogo todo da versão ponto-de-quatro da Sandy também já está quaaase apagando. E a superficialidade? Como confiar num avatar pequeno, muitíssimas vezes falso (isso quando não é um ovo ou produto de photoshop), que passa o dia se comunicando com mensagens de no máximo 140 caracteres?

Nunca vamos saber se aquele cara que tem mil seguidores no blog, dez mil no twitter, recebe várias mentions e um bocado de comentários por dia, é uma pessoa realmente legal fora do mundo virtual. 

Começo a achar que muita gente se acha na internet porque lá fora não consegue popularidade. Salvo raras exceções, lógico, quem é que pode alimentar tantas redes virtuais diariamente e ainda manter uma vida social ativa (trabalho, cinema, amigos, família, namoro, faculdade)? Tá... eu sei que dá pra conciliar. Mas nesses casos você percebe quando o perfil não é tão atualizado ou a pessoa some por algumas horas da timeline... 

Bom, mas discussões à parte, que essa geração.net vá bem mais além de twittar que vai tomar banho e reflita sobre essas novas ferramentas, hoje reconhecidamente importantes pra sociedade. E se não fosse essa minha bolha vermelha aqui - eu e meu mundo virtual - eu não teria parido uma outra parte de mim, "meu eu online".



7 de ago de 2011

A doença.

Desde 7 de julho, dia de minha última postagem, estou com uma doença que - de tão avassaladora - me parece incurável. Sento aqui nesta mesa com os olhos voltados para o infinito, o ventilador jogando ar em meu corpo suando frio. Tento me animar, pensar em algo que me traga boas lembranças e, assim, me faça melhorar. Mas nada.

Não há medicamentos para tal enfermidade. E a única cura está dentro de mim. Preciso apenas encontrá-la. Os médicos dizem que ajuda se eu compartilhar meus medos com alguém, é o que estou fazendo agora.

Passei esse mais de um mês camuflando aqui neste blog o que sentia, com posts tão vazios quanto as receitas de bolo que substituíam as matérias censuradas pela ditadura militar. Meus gritos reprimidos de verdade engatavam em minha garganta, mas não passavam dela. Minha mente, principal alvo desta doença "maledita", tentava reverter a situação. Mas quanto mais o fazia, pior era. Melhor teria sido deixar fluir, como estou fazendo agora.

Procurei vários médicos, fiz vários exames. Pensei que tudo estava perdido, até encontrar - sozinha - uma solução: abrir o jogo, soltar o verbo sobre o que realmente me atormenta. Preciso contar o nome desse mal a vocês, até para preveni-los dele.

Estou sofrendo de...

Bloqueio criativo.
Pronto, falei.

12 de jul de 2011

A Bolha


Eu vivo, sim, na minha bolha. É nela que me fortaleço para poder - vez em quando - respirar o ar poluído lá de fora sem me sufocar. Nela consigo o silêncio que me permite escutar a mim mesma... ouvir minha respiração, sentir meus batimentos cardíacos, para então saber do que preciso naquele momento. Lá fora são muitos os ruídos que se confundem na intensa batalha entre o bem e o mal. O que é o certo e o errado? Qual caminho escolher? Em quem acreditar? Se são tantas as escolhas, tantas as visões de mim... por que não escolher o reflexo do meu espelho? Afinal, não dá para agradar a todos.

Sim, eu vivo numa bolhinha vermelha. Nela encontro paz, resignação, coragem, planos de vida, pensamentos positivos, alimento para a alma. Mas não diga que eu não saio dela nunca. Afinal, ainda não faço fotossíntese. Preciso colher alguns nutrientes fora. Mas sei a dosagem certa de cada fruto, carboidrato, massa...

Alguns são muito ácidos e se conviver mais de algumas horas com eles, adquiro uma gastrite. Outros são doces demais, posso ficar diabética. Tem comida que é oleosa chega irrita. E sempre tem aquelas que são gostosas, mas você sabe que não prestam. E há sempre aquele fruto que se espremer, sai veneno. Deles, quero distância.

E quem nunca comeu e não gostou? Hoje ouvi de um colega de trabalho algo engraçado. "Me apaixono muito fácil. Quando a comida fala é que é o problema!" Ri disso. Bom, mas o post não é sobre gastronomia. Falava da minha bolha. 

A verdade é que todo mundo tem a sua. Só que alguns se permitem passar muito tempo fora dela e acabam se perdendo de casa. Outros conseguem encontrar o equilíbrio entre o mundo lá fora e si mesmo. Parabéns a esses.

Eu sei que eu não consigo passar muito tempo fora da minha. E quem eu acho que merece, deixo visitá-la. Aqui dentro sou rainha. Não tem hostilidade, ameaças, maldade ou desconfianças. Apesar das dúvidas, cobranças  e culpas - que por serem minhas, todas, eu administro bem - me é um lugar confortável. Deito a cabeça no travesseiro à noite para dormir e pego logo no sono. Vivo em paz... Em minha bolha vermelha. :)

25 de jun de 2011


Passarinho
Tiê
Composição: Tiê


Como um brotinho de feijão foi que um dia eu nasci,
Despertei cai no chão e com as flores cresci.
E decidi que a vida logo me daria tudo
Se eu não deixasse que o medo me apagasse no escuro.

Quando mamãe olhou pra mim, ela foi e pensou
Que um nome de passarinho me encheria de amor
Mas passarinho se não bate a asa logo pia
Eu que tinha um nome diferente já quis ser Maria
Ah, e como é bom voar!

19 de jun de 2011

Conexões - Do THC ao FHC


Cognição. Ato de adquirir conhecimento, segundo o Dicionário Aurélio. Em outras palavras, aprender. De uma maneira simples e resumida, podemos dizer que cognição é a forma como percebemos, aprendemos, recordamos e pensamos sobre toda informação captada através dos cinco sentidos. Tudo que ouvimos, vemos e sentimos é registrado pelo cérebro e transformado em sinais elétricos que percorrem caminhos entre um neurônio e outro. Quanto mais os neurônios se interligam entre si, mais adquirimos capacidade de fazer novas ligações cerebrais. E quanto mais sinapses, mais inteligentes somos. 

Bom, tudo isso para dizer que eu achei o máximo esse texto de Rodrigo Rezende, publicado na última edição (junho) da revista Super Interessante. O cara foi lá na Idade Média e voltou pra chegar até o documentário do FHC sobre a descriminalização da maconha. Imaginem o número de sinapses e a capacidade cognitiva dele:

* CONEXÕES DO THC AO FHC

THC
Entre as mulheres da Idade Média, o THC (Tetrahidrocanabidiol, princípio ativo da maconha) era considerado um remédio milagroso: servia para tratar cólicas, aliviar as dores do parto e até desencalhar solteironas. Mas no século 18 começou a circular um boato que detonou a reputação da Cannabis: quem fuma maconha é...


ASSASSINO
"Assassino". Essa palavra se originou no nome da seita Hashishyya, formada por árabes que usavam haxixe (uma maconha com mais THC) e saíam matando cristãos. Parece difícil de acreditar? A associação entre maconha e homicídio era pura invenção que alguém criou e espalhou pela França para constranger as tropas de...


NAPOLEÃO
Logo que os soldados de Napoleão invadiram o Egito, em 1798, aproveitaram para provar aquela erva mágica de que falava o livro "As Mil e Uma Noites". Eles adoraram os efeitos do haxixe, e das trincheiras napoleônicas a droga foi direto para o mundinho dos intelectuais franceses. Onde ganhou um grande fã:


BAUDELAIRE
"O haxixe torna o indivíduo inútil para a humanidade, e a sociedade desnecessária para o indivíduo". O autor dessa frase, o poeta francês Charles Baudelaire, usava o narcótico para escrever sobre angústia, sexo e morte. Ele ajudou a popularizar o haxixe na elite intelectual da Universidade de Paris, de onde veio...

FHC
Ex-professor da Sorbonne e ex-presidente do Brasil, Fernando Henrique Cardoso adotou  nova bandeira: a descriminalização da maconha, que propõe no novo documentário "Quebrando o Tabu". Havendo a descriminalização, a maconha poderia voltar a ser usada como faziam as mocinhas medievais com fins medicinais.



*Revista Super Interessante, edição Junho de 2011

15 de jun de 2011

Fim dos tempos...?


Pra quem diz que as crianças de hoje só faltam nascer falando... Já não falta mais...

Engraçado é o comentário do pastor entrevistado "A Bíblia fala que nos últimos tempos veríamos coisas que jamais acreditaríamos". Nada contra, mas poderiam ter conversado com um especialista - um fonoaudiólogo, no mínimo - que tentasse explicar o assunto. Aí ninguém explica nada e o caso passa como um sinal do apocalipse? ¬¬

Mas comentários jornalísticos à parte, adorei a notícia. Isso é pras mamães corujas pararem de se gabar dos filhos de 4 anos que jogam no computador, dos de 3 que já sabem ler e escrever... Esse bebê aí não fica meia hora chorando, se esperneando pra conseguir o que ele quer. Ele pede.

Fim dos tempos, nada! Esse bebê é muito inteligente, isso sim! Devia ser brasileiro!

19 de mai de 2011

Ao Sr. Escarlate


És meu tom


A cor que molha meu pincel de tinta


Mas na palheta,


muitas outras possibilidades.

5 de mai de 2011

Parcialidade ou bom senso?


Hoje criamos um pequeno embate em nosso querido e aconchegante ambiente de trabalho. Mas foi tão saudável e pacífico quanto o próprio. Minha colega de produção (a quem devo bastante por ser a melhor companheira de produção que já tive) e eu discutíamos sobre levar ou não levar alguém do movimento gay no programa para fomentar a questão do casamento homoafetivo, com base na votação do Supremo Tribunal Federal - manchete nacional hoje.

Ela acredita que isso seria parcial de nossa parte, enquanto veículo de comunicação. O correto seria levar um não homossexual para discutir o assunto. Ok. Eu até concordo, a mídia deve ser imparcial. Mas não é. E não é somente porque não quer ser. O fato é que imparcialidade não existe. Em profissão alguma e principalmente na comunicação. 

Então, se é assim... suponhamos que estivesse sendo votada alguma decisão que favorecesse a igualdade racial. Algum sistema de cotas (apesar de que esse exemplo pode ser ainda mais polêmico... tá, esquece esse exemplo!), uma lei que proibisse um determinado tipo de comportamento, enfim. Significa dizer que a gente também não poderia dar voz a alguém do movimento negro?! Qual a diferença? Ela defendeu, não sei se para ser coerente, que agíssemos da mesma forma. 


E esse foi apenas o argumento número 1.

Argumento número 2: apesar de algumas características, nosso programa não é jornalístico. Quase nunca ouvimos os dois lados de um fato, afinal é uma mesa redonda na qual são debatidos três assuntos diferentes - portanto, uma pessoa só para cada um. São permitidos juízos de valor, como adjetivos, opiniões, etc. Portanto, não seria esse um argumento plausível para não defender um único lado de uma questão, já que de uma certa forma o fazemos diariamente.

E para finalizar gostaria de compartilhar um argumento que acabei não utilizando na hora (sempre pensamos só depois no que poderia te sido dito):

Na simples escolha de uma imagem, um audio ou de uma frase estamos dando luz a uma realidade específica, única e deixando de lado outras tantas. O nome disso é edição. Até o próprio ato de falar é uma parcialidade. Afinal, é um processo de escolha de palavras, certo? Então, o que fazer? Descredibilizar a imprensa? Não. Aos amigos de profissão, a lição que um querido professor me ensinou: "Se a escolha é inevitável - de uma realidade em prol de outra - seguir o que nosso coração nos diz que é certo. Por mais que você já saia da redação treinado para dizer exatamente o que o dono do veículo quer ouvir / ler (o que é muito comum em empresas privadas), faça-o da maneira menos pior e mais digna possível.Tipo, se precisar muito daquele emprego e nunca por vestir a camisa da empresa."

Somos uma TV Educativa, de conteúdo diferenciado. Por que não dar voz a um grupo de pessoas que já foram tão excluídas e agora lutam a favor de igualdade?

Ainda bem que, diferente da unanimidade no Supremo, ela foi voto vencido e vamos levar na próxima segunda-feira uma pessoa do movimento no programa.

30 de abr de 2011

Santa Semana Santa...



Era só uma brincadeira...

"Amor, vamos viajar na semana santa?", disse com uma vontade enorme de que fosse verdade e eu pudesse realmente te ver. Ainda que por um curto espaço de tempo.

Mas, incrível: virou realidade. No dia 21 de abril, às 16:30h, eu estava partindo num avião da TAM, com destino a Porto Alegre.Como foi pra gente decidir e programar tudo tão rápido, eu já nem me lembro. Agora tudo que tenho em minha memória é teu rosto, o olhar lindo que ganhei ao te avistar (de cartolinha e gravata!!!) enquanto aguardava minha mala chegar pela esteira (foram os dez minutos mais longos da minha vida), o perfume forte que senti no teu abraço (acabaste com metade do vidro, no mínimo), os dias incríveis que passei ao teu lado.

Essas lembranças, sim. Permanecem vivas dentro de mim. Todo o resto, antes daquela quinta-feira e após o dia 9 de janeiro (quando foste embora), foi apagado. Mesmo os momentos maravilhosos que passamos do nosso jeitinho de estar junto não se comparam ao prazer de te ter do mesmo lado que eu do país.

Nesses 3 dias e meio (a contar das 23:30h da quinta, 21/04, às 13:30h da segunda, 25/04) dei um passo importante no nosso relacionamento: conheci teus pais, descobri como é o lugar no qual vives, tua cidade, casa, quarto. Olhei nos olhos, finalmente, das tuas pessoas e compreendi por que te são tão importantes. Ouvi histórias de família, contei algumas. Soube um pouco mais sobre a metrópole que me lembra Belém e, ao mesmo tempo, quase não parece fazer parte do Brasil. E senti uma mistura paradoxal de estranheza  e familiaridade. Louco!

Logo na primeira noite, a certeza de que moraria ali. Mais do que isso: a assustadora comprovação de que era aquele o lugar - que até então só existia em meus sonhos - ao qual eu sempre pertenci. 

O impasse: Eu querendo ir para lá e você querendo vir para cá.

E agora?!


13 de mar de 2011

Dona Neide e o sonho de ser jornalista




Essa aí é Neide Batista. Ela tem 50 e alguns anos e um grande sonho: ser jornalista. A conheci há quase 4, quando entrei na Faculdade de Jornalismo. Ela gravava, há 20, livros falados para deficientes visuais no Instituto Álvares de Azevedo (mais conhecido como "escola de cegos"). Foi da minha turma durante um ano, até as coisas apertarem financeiramente e ela precisar abandonar o curso. 

Dona de uma voz grave, dicção impecável e piadas um tanto ácidas, Dona Neide (como carinhosamente a apelidei) é uma figura diferente de tudo que já conheci. Sinceridade é sua marca registrada. É do tipo "ame ou odeie" e, justamente por isso, me conquistou. 

Sentar num bar com Neide Batista é como abrir um livro de 500 páginas, uma biografia que qualquer terráqueo adoraria ler. A história de vida dessa mulher já começa diferente, com a mãe que quase a mata (sem querer, óbvio), as cervejas que ela tomava escondida atrás da porta quando criança, e prossegue tão absurda quanto. 


Ela conta com entusiasmo como foi viajar para o sudeste do Brasil de carona e me recomenda: "Não faça isso hoje. Se eu já fui louca naquela época, hoje seria praticamente um suicídio". Também diz, orgulhosa, que trabalhou durante 10 anos numa empresa e, ao sair, pegou todo o dinheiro que lhe era de direito e gastou tudo num só mês, numa viagem que fez a São Paulo,. Frequentou os melhores lugares, bebeu os mais caros vinhos e andou pra cima e pra baixo de táxi. Não se importou nem um pouco em saber que, quando a grana acabasse, ela voltaria a Belém do Pará e à vida simples de antes. "Eu não vou levar nada para o caixão. O que a gente leva da vida é isso aqui, bons momentos.", me disse, numa mesa de bar.


Mas uma de minhas histórias favoritas é uma das menos loucas: o primeiro show que ela assistiu da Maria Bethânia, de quem é fã incondicional. Ela viajou ao Rio de Janeiro com Lauro (outra figura interessantíssima, melhor amigo dela há muitos anos, o qual conheceu num fã clube da Bethânia) e os dois, ao final do show, foram beber na praia de Copacabana. A felicidade e a adrenalina eram tamanhas que Neide tirou a roupa e saiu correndo completamente nua pela areia, gritando: "Eu já posso morrer! Assisti a um show da Maria Bethânia!"

Conversar com Dona Neide é risada garantida. Mas ela sabe a hora certa de parar a brincadeira. Amizade, caráter e fidelidade são assuntos muito sérios para ela, que se for amiga, atende um telefonema às 03:40h da manhã só pra te ouvir chorar, passa noites em claro no hospital contigo e divide o único bife do jantar com algum pobre coitado que bate à porta faminto, pedindo comida.

Ela ainda não teve condições de terminar a faculdade de jornalismo, mas foi chamada recentemente para gravar este vídeo, sem promessa de contratação ou coisa parecida, pela "webmissora" independente INTV. Realizou um sonho, o de reportar na televisão (seu meio de comunicação favorito). Mas ainda é pouco, diante do que ela deseja e merece.

Publico hoje, aqui no Escarlate, a reportagem que ela fez. É o mínimo que eu poderia fazer por ela, além de respeitá-la e desejar-lhe sempre o melhor que essa vida pode lhe proporcionar. 

8 de mar de 2011

A ciência explica por que somos divas



Para muita gente, 8 de março é apenas um dia em que mulheres recebem flores na saída de restaurantes e lojas. A data, porém, marca mais de um século de movimentos pela emancipação das mulheres. Hoje, Dia Internacional da Mulher, resolvi sair do clichê das frases feitas e me utilizar da ciência para entender por que merecemos ser homenageadas. Revelo aqui no Escarlate algumas das características (todas seria impossível, pois passaria pelo lado sobrenatural da coisa...rs) que nos fazem não melhores, mas diferentes dos homens: verdadeiras divas, seja de salto alto num palácio ou de avental na cozinha. 

Sempre houve dúvidas sobre se o cérebro feminino seria diferente do masculino. Uma das poucas informações disponíveis, até pouco tempo, era de que o cérebro do homem é, em média, maior e mais pesado que o das mulheres. Esse fato foi utilizado pelos homens durante muito tempo como argumento para afirmar que os homens seriam mais inteligentes, confirmando, assim, o mito da superioridade masculina. Felizmente, a moderna neurociência vem obtendo informações muito mais detalhadas e fidedignas sobre o funcionamento do cérebro feminino, mostrando, entre outras coisas, que, em alguns aspectos, ele é mais complexo que o cérebro masculino (quanto a isso, não tenho a menor dúvida...rs).

Nunca houve dúvidas, entretanto, que homens e mulheres são diferentes, não apenas fisicamente, mas, também em relação à maneira de pensar, sentir e se comportar. Essas diferenças costumavam ser atribuídas a questões meramente culturais e educacionais. O estudo do cérebro feminino, no entanto, vem demonstrando que essas diferenças estão, em boa parte, determinadas biológica e geneticamente por diferenças essenciais na estrutura cerebral de machos e fêmeas da espécie.

"Podemos conversar a respeito?" 

As diferenças aparecem de forma mais evidente no comportamento. Por exemplo, os homens tendem a falar menos e a ter maior dificuldade em expressar emoções em verbalmente. Porém, têm mais facilidade na orientação espacial e orientam-se melhor. As mulheres são mais falantes, são capazes de fazer várias coisas ao mesmo tempo, mas têm mais dificuldade em se localizar nas ruas de uma grande cidade.
As descobertas dos estudos científicos mais recentes revelam que os sexos são diferentes porque os cérebros são diferentes, ou seja, processam informação de forma distinta, o que resulta em diferentes percepções, prioridades e comportamentos. Isso explica por que os homens têm mais afinidade para a lógica e matemática enquanto as mulheres são mais aptas a lidar com as emoções. Isso não significa que a regra se aplique a todos, trata-se de uma tendência que pode ser modificada pela experiência, educação e treinamento que dependem de diversas circunstâncias ambientais, históricas e culturais. Ambos os cérebros possuem múltiplos potenciais que podem ser ativados e desenvolvidos em maior ou menor grau.

A maior parte das diferenças foram se estabelecendo ao longo da evolução, relacionadas aos papéis desempenhados pelo homem e pela mulher na natureza e na sociedade em função de suas diferenças físicas. Nos tempos primitivos, a principal atividade dos homens era a caça e a guerra, em função da força física. Já às mulheres era atribuída a função de cuidar da prole, das colheitas, das roupas e da alimentação. Inclusive, devido ao seu aparato biológico destinado à reprodução e amamentação. Essa especialização de tarefas levou ao desenvolvimento distinto em diferentes regiões do cérebro. A caça exigia um maior domínio do espaço e das distâncias, bem como da orientação em vastas áreas geográficas. A função feminina exigia a necessidade de perceber se as crianças estavam bem ou não, isto é, a capacidade de compreender, através da sensibilidade, o que o outro está sentindo e necessitando a cada momento.

Praticidade x Maior sensibilidade

Em resumo, enquanto a função masculina era dominar a natureza e afastar as ameaças físicas à sobrevivência da espécie, a função das mulheres era garantir o bem estar, saúde, alimentação e desenvolvimento dos membros do clan (não apenas crianças, mas também homens e idosos). Esse papel mais complexo reservado às mulheres fez com que o cérebro feminino tenha se especializado em funções multitarefa enquanto o dos homens se especializou em avaliar as circunstâncias e elaborar estratégias. 

Como as mulheres estavam expostas a um maior número de estímulos sensoriais, elas desenvolveram uma capacidade maior de percepção, inclusive de visão periférica, por esse motivo o cérebro feminino está equipado para receber uma grande quantidade de informação sensorial, a relacionar e conectar essa informação com mais facilidade, a dar prioridade às relações humanas e a comunicar. O cérebro masculino é mais compartimentado e tem menos ligações entre o hemisfério direito e o esquerdo, por isso os homens tem mais dificuldade em fazer duas coisas ao mesmo tempo, em compensação, tem mais facilidade em se concentrar em uma única tarefa. É por isso que elas conseguem falar fazendo um monte de outras coisas ao mesmo tempo, enquanto os homens quando estão concentrados em uma tarefa – usar o computador, por exemplo – não conseguem prestar atenção ao que elas estão dizendo.

Essas distintas competências sociais agiram ao nível do cérebro, determinado que algumas regiões se desenvolvessem em detrimento de outras. Por exemplo, a maior aptidão masculina para análise e sistematização é determinada pelo maior desenvolvimento de uma região do cérebro, o Lobo Parietal Inferior (LPI), localizado na região acima do nível das orelhas. Por isso, nos homens, o LPI do hemisfério esquerdo é maior do direito, enquanto que no cérebro feminino se passa o contrário. O hemisfério esquerdo está relacionado às habilidades matemáticas, com a percepção do tempo e do espaço e com a capacidade de rotação mental de figuras tridimensionais. Isso explica por que os homens têm maior facilidade em jogos de estratégia.

As áreas relacionadas à linguagem (conhecidas como áreas de Broca e Wernicke), localizadas nos lobos frontais e temporais, são mais desenvolvidas nas mulheres, fornecendo assim uma razão biológica para a maior habilidade das mulheres no campo da linguagem. As mulheres apresentam um volume 23% maior (na área de Broca) e 13% (na área de Wernicke) do que os homens. As mulheres são melhores quando se trata de memorizar listas de palavras e em indicar vocábulos que começam por uma letra específica.

"Eu sabia que você estava me traindo!"

As capacidades sensoriais femininas são mais desenvolvidas do que as masculinas, motivo pelo qual elas conseguem interpretar os pequenos sinais não verbais dos outros e tirar conclusões mais rapidamente sobre o seu estado de espírito. Isto justifica a proverbial insensibilidade dos homens e explica o famoso sexto sentido feminino. Em termos da estrutura cerebral, isso determinou um maior desenvolvimento de um centro cerebral chamado hipocampo, que as leva a expressar melhor as emoções e a ter mais facilidade em recordar acontecimentos marcantes em termos emocionais. Por isso elas sempre tem aquelas lembranças que tiram do fundo do baú.

As mulheres vêem melhor à noite e os homens de dia. A necessidade de dar atenção a tantas tarefas de modo simultâneo, que remonta ao tempo das cavernas, deu às mulheres uma visão periférica mais ampla do que a dos homens, que alcança quase 180 graus. Já, os homens, levam vantagem na visão à distância, que lhes era útil nas caçadas e que explica porque eles tem bem melhor pontaria do que as mulheres. Essa mesma visão periférica permite às mulheres espreitar os homens sem que eles percebam usando o famoso olhar de canto de olho. Os homens, que precisam olhar diretamente, são facilmente apanhados quando dirigem às mulheres com o seu não menos famoso olhar de raios-X.

Fatos curiosos:

O cérebro masculino é 10% maior do que o feminino. Na prática, isso não faz diferença, porque as mulheres registram uma maior atividade da matéria cinzenta, o que significa que o cérebro feminino processa informação de modo mais eficiente.

O hemisfério direito é maior nos homens, bem como a amídala (a área mais primitiva do cérebro) o que explica a maior agressividade do sexo masculino e porque os homens tem reações físicas mais rápidas.

As mulheres falam três vezes mais do que os homens. Cerca de 20 mil palavras por dia, contra as 13 mil masculinas. Elas também falam mais rapidamente e dedicam mais tempo a matraquear. A queixa comum das mulheres de que os homens não ouvem o que elas dizem tem fundamento: a testosterona reduz o tamanho da região do cérebro responsável pela audição.

Os homens pensam em sexo a cada 52 segundos e as mulheres apenas uma vez por dia, em média. A região do cérebro responsável pelos pensamentos sexuais é duas vezes maior nos homens do que nas mulheres.

Embora as mulheres reajam mais depressa à dor, que sentem com mais intensidade, elas tem maior resistência ao desconforto causado pela dor em longo prazo.

As mulheres conseguem armazenar informação aleatória e irrelevante por mais tempo, enquanto eles apenas memorizam informação se a organizarem de forma coerente ou se a sentirem como importante e útil.

A todas as mulheres e aos homens que amam suas mulheres (não é uma alusão à bi / poligamia, tá? Me refiro a mães, irmãs, amigas...rs), um FELIZ DIA DA MULHER! 

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26 de fev de 2011

Encontros e despedidas



Mande notícias do mundo de lá
Diz quem fica
Me dê um abraço, venha me apertar
Tô chegando
Coisa que gosto é poder partir
Sem ter planos
Melhor ainda é poder voltar
Quando quero
Todos os dias é um vai-e-vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
E assim, chegar e partir
São só dois lados
Da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro
É também de despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar
É a vida!


Encontros, despedidas, saudade. Palavras muito lidas, escutadas, clichês. Já faz algum tempo que essa música passou a fazer todo o sentido do mundo pra mim. E hoje ela me veio mais forte, como uma punhalada no peito: uma pessoa muito querida está partindo, rumo a uma nova vida em outro estado. 

Na sempre tão cruel despedida, lágrimas e aquela sensação horrível de morte. Mesmo sabendo que é a vida! Bom, mas não foi a despedida em si que me fez chorar, foi o que isso representou pra mim: bravura, ousadia. A certeza de que Deus coloca pessoas na hora certa e no lugar certo em nossas vidas, e fazemos delas pontes para novos caminhos - rumo ao que chamamos de futuro (que, na verdade, é sempre o agora). 

Maria Rita tem razão, são só dois lados da mesma viagem. Enquanto vivo uma relação à distância, ela optou por abdicar de muita coisa para viver a dela fisicamente. Amanhã quem sabe ela volta e serei eu a partir.

Seja feliz, Fênix. Essa é sua natureza, o renascimento. Mande notícias do mundo de lá e não esqueça que aqui nessa cidade quente, úmida e cheia de mangueiras, existe alguém que jamais a esquecerá.

Beijos escarlates, hoje de muita saudade.

24 de fev de 2011

O apertador de botão



Há alguns anos, João foi contratado por uma fábrica para aparafusar caixas de madeira e despachá-las. No dia da entrevista de emprego, o dono da empresa lhe explicou sobre o serviço. Falou de todo o processo, o objetivo geral e a parte que lhe cabia. João não entendeu muito bem. Mas não importava. Bastava saber que, todos os dias, várias caixas diferentes lhe seriam entregues e ele teria que fechá-las com pregos para que viajassem com segurança. O salário não era muito bom, mas dava pra pagar as contas e sustentar a mulher e os filhos.


Desde que chegava, até a hora de ir embora (exceto na hora do almoço, claro), o recém-contratado sentava numa cadeira e ficava esperando o superior lhe trazer as caixas de madeira.  Grandes, pequenas, médias. Para cada modelo, um número de pregos e uma técnica diferente. Com uma semana, aprendeu tudo o que precisava. Os anos foram passando e João continuava na mesma etapa, a última, de um processo que ele nem fazia idéia de qual era. 

Um belo dia, o supervisor, responsável por despachar as caixas, estava cheio de outros afazeres, problemas pontuais e acabou se confundindo ao deixar, no meio das outras de madeira, uma caixa de ferro que servia de cofre para guardar seus pertences até o final do expediente. João estranhou a situação, mas nada disse. Na verdade, nem refletiu sobre, apenas executou a mesma operação que fazia há 10 anos. E João fechou a caixa com os parafusos mais grossos e o maior martelo da caixa de ferramentas. 

O chefe prosseguiu nos afazeres normalmente até que, no final do dia, na hora de pegar as coisas e partir, notou a falta do cofre improvisado. Como João era o único funcionário que ainda estava na empresa (a enorme caixa de ferro havia lhe atrasado o serviço), foi chamado até a sala da supervisão. 


"João, você viu meu cofre?" 

"Mas o senhor me deu ela hoje cedo para aparafusar..."

"Como é que é? E você aparafusou? Não sabe que ali guardo meus pertences?!"

Rispidamente, cheio de razão, o funcionário "padrãonizado" respondeu: "A obrigação de me trazer caixas para aparafusar é sua. Se o senhor me deu o cofre da empresa para aparafusar, foi exatamente o que fiz".


O que vocês acham que aconteceu com João? Foi demitido? 


Antes da resposta, um parêntese: assim como João, existem hoje milhares de "funcionários padrãonizados" espalhados no mercado de trabalho. Pessoas que são contratadas para apertar um botão (a mando de outras), que não se interessam em conhecer cada etapa do processo, saber a política da empresa, entender o porquê de todas aquelas operações. Basta apertar o mesmo botão dia após dia, aparafusar caixas de madeira e receber o salário do final do mês. 

Não. João não perdeu o emprego. Direitos trabalhistas, outra contratação... muito trabalho e ônus pra empresa. O chefe simplesmente comprou uma caixa nova. Ou melhor, um cofre de verdade. 


E João?


...

Bem, ele continua aparafusando caixas de madeira até hoje.

12 de fev de 2011

Natureza humana


Ser como ar, transparente, fugaz. Ninguém percebe, mas ele se faz presente, mesmo sem alarde. Pode se adaptar às mais adversas situações, formas. Se não quiser, sai silenciosamente - da mesma forma que chegou.

Ser como terra, constante, prática, materialista, conservadora. Dar importância às raízes. Rodar o mundo, mas no final da jornada, voltar pro mesmo pedaço de chão. Sentir o solo e, através dele, o mundo afora: seco, molhado, quente, frio.

Ser como fogo, fonte de luz e calor. Ter grande potencial ígneo e radiante. Ser capaz de descongelar icebergs e enxugar rios de lágrimas. Atrair com a sensualidade das chamas, espantar com a fúria do incêndio e proteger no conforto de uma lareira. 

E, por fim, ser como água, maleável, adaptável, limpa. Ser transparente, mas algumas vezes turva. Nem sempre ser consumível. Ser flexivel e volátil. Seguir a correnteza. Saber represar e desaguar, quando for preciso. Ser um pouco como iceberg: imponente, forte, implacável - mas, por trás da aparência, a realidade: apenas um grande pedaço de gelo... que derrete no calor.

Molhar, congelar, secar, evaporar, queimar, iuminar... voar. Ser cada elemento da natureza, um de cada vez ou todos ao mesmo tempo. O homem é tão perfeito que foi moldado pelos quatro elementos que constituem a Terra. Entendê-los e percebê-los em nós é entender que o corpo fala, faz e acontece e a mente tenta controlá-lo. Deixar-se controlar. Mas permitir-se descontrolar também. Afinal, a natureza humana é assim, perfeita em cada fenômeno.

11 de fev de 2011

Ah, a semiótica...


Me espalho em vários pedaços de mim
Vermelhos, pequenos, diluídos em outros tons da palheta...
Que eu vou pingando pelo chão.

O que eu sou pra você,
O que eu sou nesse blog,
O que eu sou pra mim mesma,

São partes, fragmentos.
Às vezes maximizo  alguns e espanto.
Noutras, resolvo não mostrar o que salta aos olhos.
É importante sempre relativizar, olhar dos mais diversos ângulos.

Nunca o que se vê é o que realmente é.

6 de fev de 2011

Metamorfose

E assim... de repente...

Nasce uma nova mulher.