18 de nov de 2010

O meu bloco do eu sozinho


"... pareço forte, mas no fundo sou fraca
fera, porém sou bela
às vezes chata, mas no meu íntimo 
há sentimentos diversos
Pareço metida, porém se olhares em meu semblante,
com seu coração,
verás apenas humildade.
Calma sempre.
Posso até parecer solitária...
É que realmente tenho poucos amigos."
(Clarice Lispector)

Li esse texto no (Re)canto da Fênix e me identifiquei. Nem me espanto mais. É Clarice. O curioso é a coincidência. Poucos minutos antes de abrir o blog, vinha pensando em minha realidade social. Passo o dia na TV, onde tenho excelente rede de relacionamento (profissional). Falo com todo mundo, todos gostam de mim. Mas sou na minha. Estou sempre acompanhada, mas não faço parte de nenhum grupo (partidário, de amigos, das mamães, dos que se reúnem fora do ambiente de trabalho). É como sou no restante da minha vida: sempre rodeada de pessoas e, ao mesmo tempo, sempre só. 

Sempre que falo com a Elga, ela sempre está com o grupinho dela. Eles fazem tudo juntos. Vão ao cinema, ao bar, à sorveteria, ao hospital, a casa uns dos outros, etc. A Fênix também vive acompanhada em suas ligações misteriosas, amigos fora da faculdade, na faculdade (uma das amigas dela também é minha amiga, mas vive mais com ela do que comigo), etc. Aliás, isso é algo que me acontece com frequência: conheço você. Nos tornamos amigos. Aí te apresento para um(a) amigo(a) e, de repente, vocês são mais amigos entre si do que meus amigos. 

Meu próprio pai tem mais amigos do que eu! Amigos de muitos anos atrás que ele sempre visita e amigos mais recentes (alguns que deixou de lado, outros com os quais está conseguindo manter o vínculo). Meu pai só fica sozinho quando ele quer. Na verdade... eu também. Isso é fato. Se quisesse, faria parte de num grupo. Andaria em bando. Mas me isolo. Sou do tipo que anda mais próximo do cônjuge (quando tenho um) do que de qualquer outra pessoa. É como se eu casasse sempre que namoro. Não preciso ligar pra Talita (minha melhor amiga, uma das poucas que me restaram), por exemplo, e contar meu dia. Faço isso com quem estou namorando. É meu jeito e não tem jeito.

Não tenho paciência pras pessoas. Ou, as pessoas não tem paciência pra mim. São muitas as minhas restrições. Se não quero beber, não quero que insista. Não gosto daquele amigo que   te faz sentir um imbecil por não estar bebendo com a galera e fica insistindo. Se quero sair, saio. Se não quero, não insista. Quanto mais me convidar para algo que não quero fazer, menos vou querer fazê-lo. Odeio gente que liga às onze da noite, quando já estou de pijamas, e convida pra balada.

Já estive numa fase em que levantava na mesma hora, trocava de roupa e ia. Não pensava duas vezes. Mas minhas condições físicas não me permitem mais. Trabalho de dia e faculdade à noite. Às vezes trabalho no final de semana. Não consigo "ferir" meu próprio corpo. Pra mim é bastante água, comida saudável e 8 horas de sono. Sou branca, pele flácida. Se não cuidar, cedo envelheço. E quero ser uma coroa conservada. Depois, amigo nenhum vai me pagar uma plástica. Ainda vão comentar: "Nossa, como a Flávia está caída!".

Às vezes assisto séries como Sex and The City e acho um barato aquele grupinho de amigas sempre juntas, se fazendo companhia em tudo. Aliás, mesmo exaltando ao máximo o consumismo, adoro essa série (que tenho completa - ou melhor, quase, falta um DVD ¬¬). As protagonistas passam a maior parte do tempo se encontrando para comer, mas  é muito boa. Trocadilhos e pequenos detalhes inteligentes, piadas cotidianas (as melhores), conflitos vividos por todas nós. Enfim, apesar de querer - algumas vezes - ser Carrie Bradshaw com suas inseparáveis escudeiras Samantha, Miranda e Charlotte, não creio que conseguiria (devido as minhas restrições).

O interessante é que atraio bastante gente. Conheço muita gente e muitos se aproximam. Aí, depois de mostrar a isca no anzol, eu puxo e corto a linha. Apresento minhas barreiras intransponíveis e ultrapassa só quem eu permito ou quem se arrisca demais. E quem se arriscaria demais? Alguém que estivesse interessado em mim. Eis o porquê de ter em meus relacionamentos grandes amizades.

Não sei, definitivamente viver em bando. Tenho, como revelou Clarice no texto, poucos amigos. Contados no dedo. Apesar de viver acompanhada (pois ando rodeada de pessoas), vivo só. Porque ninguém cruza minha divisa. A não ser que eu permita.

12 de nov de 2010

Paciência


Paciência

Composição: Lenine e Dudu Falcão

Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
A vida não para...
Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara...
Enquanto todo mundo
Espera a cura do mal
E a loucura finge
Que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência...
O mundo vai girando
Cada vez mais veloz
A gente espera do mundo
E o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência...
Será que é tempo
Que lhe falta para perceber?
Será que temos esse tempo
Para perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara...
Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não para
A vida não para não...
Será que é tempo
Que lhe falta para perceber?
Será que temos esse tempo
Para perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara...
Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
Eu sei, a vida é tão rara
A vida é tão rara...
A vida é tão rara...

5 de nov de 2010

Lição: seguir o movimento


Frango cliente: Odeio comer aqui.

Frango funcionário: Eu odeio trabalhar aqui.

Frango cliente: Então por que estamos aqui?

Frango funcionário: Medo do desconhecido.

[É com isso que se depara quem tem medo de mudanças: mesmice]

1 de nov de 2010

Palavras.


É delas que vivemos. O que te disse ontem, o que vão te dizer amanhã. O que pretendo te contar. O que me dirás a respeito do que pensas. 

"O que eu sempre te falei?!" 

"Eu te disse. Você não quis me escutar!"

"Você me feriu."

"Eu te amo."

Palavras...

Ontem meu primo e eu estávamos conversando e ele me disse: "tenho que mudar para me encaixar." Eu: "Como assim? Como te vês e como achas que deves ser?" Ele disse que precisa ser sociável pra sobreviver e pra ser sociável, precisa ser falso algumas vezes. Disse-lhe que tem razão, precisa. 

De fato, a regra de sobrevivência n° 1 é essa: ser sociável. Cultivar amizades, montar uma boa rede de relacionamentos. Daí as oportunidades brotam e tudo fica mais fácil. E sim, primo, pra ser sociável é preciso ser falso algumas vezes. Dizer "tenha um bom dia" quando quer mandar alguém às favas, desejar feliz aniversário só porque todo mundo ao redor está fazendo o mesmo, sorrir em reuniões de trabalho ou em momentos específicos, enfim.

Às vezes nem é falsidade. É convenção, comodismo. Quase como ligar um botão e deixar no automático. Um amigo me disse, numa situação de euforia: "eu te adoro!". Ficar calado seria horrível, então, por que não dizer "eu também"?

E assim vamos desperdiçando as palavras. Aos poucos, elas vão virando moeda de troca, por pequenos favores sutis. Quase um escambo social. Diz que me curte e entra pra minha tribo. Diz que vai com a minha cara e eu te contrato pra minha empresa. Diz que me ama e eu coloco meu sobrenome no teu filho. Vence quem oferecer as melhores palavras.

Palavras são armas poderosíssimas. Tanto que algumas combinações delas podem levar à cadeia: "preto" e "gay", por exemplo, jamais podem estar na mesma frase que "feio". Por que dizer "branco feio" pode e dizer "preto feio" é preconceito? Não importa o porquê, é e pronto. Mas olha o lado bom: é permitido eufemizar. "Preto" pode virar "negro", "gay" pode ser substiuído por "homoafetivo".

Travamos guerras e nos casamos por causa delas. Ganhamos dinheiro com ajuda delas. Sabe disso muito bem o advogado, o jornalista, o vendedor ambulante.

Elas são heroínas e também bandidas. Podem ser um passaporte para o inferno e também um bilhete premiado de loteria. Tudo depende de como são usadas.

Algumas coisas ditas parecem bem maiores do que na verdade são. Outras são tão bem articuladas que podem transformar ofensas em elogios. 

Algumas palavras são simplesmente vazias. E mesmo assim, contruímos castelos em cima delas. Como separar joio do trigo? Entre o que eu ouço e o que eu leio, eu fico com o que ainda não fomos capazes de verbalizar...