22 de dez de 2010

Só enquanto eu respirar, vou me lembrar de você


O Anjo Mais Velho
O Teatro Mágico
Composição: Fernando Anitelli

"O dia mente a cor da noite
E o diamante a cor dos olhos
Os olhos mentem dia e noite a dor da gente"

Enquanto houver você do outro lado
Aqui do outro eu consigo me orientar
A cena repete, a cena se inverte
Enchendo a minh'alma d'aquilo que outrora eu deixei de acreditar

Tua palavra, tua história
Tua verdade fazendo escola
E tua ausência fazendo silêncio em todo lugar

Metade de mim
Agora é assim
De um lado a poesia, o verbo, a saudade
Do outro a luta, a força e a coragem pra chegar no fim
E o fim é belo incerto... depende de como você vê
O novo, o credo, a fé que você deposita em você e só

Só enquanto eu respirar
Vou me lembrar de você


Sei que tenho andado afastada... é que a felicidade tomou conta de mim. Os dias, as horas, a vida, tudo parece finalmente no lugar. Coisas nas quais havia deixado de acreditar retornam com velocidade total a mim. "Enchendo a minh'alma d'aquilo que outrora eu deixei de acreditar"

A vida é como O Teatro Mágico: te surpreende a todo instante. A possibilidade de refazer-se, reconstruir-se, reformular-se e fazer de si uma nova casa me mostra é a verdadeira razão de viver. 

Estou vivendo momentos incríveis e o mais louco: conhecendo alguém que já conhecia. Descobrindo manias, revelando costumes, compartilhando experiências, lembranças, tocando feridas, ficando em silêncio, sentindo prazer em apenas saber que aquela pessoa existe. 

Após meses de contagem regressiva, o dia tão esperado chegou. Agora não é mais uma voz, uma imagem do outro lado do computador, uma cartinha no celular anunciando novo SMS. Agora é cheiro, gosto, olhar, gesto... Se isso tudo for um sonho, não quero acordar nunca mais!

9 de dez de 2010

Para quando o arco-íris encontrar o pote de ouro


Ainda faltam 4 dias
Hoje, faltam 4 dias
Eu sei que faltam 4 dias
Mas amanhã faltarão 3
E amanhã, então, eu vou cantar o quê ?
Que ainda faltam 3 dias
Esses que faltam, 3 dias
São os que faltam, 3 dias
amanhã só faltarão 2
Dessa manhã, então, eu vou cantar depois
Agora falta só 1 dia
Falta mais 1 dia
Que bom que só falta mais 1 dia
E amanhã vai virar hoje
Amanhã eu te verei quando ficar de noite
Eu nunca pensei
Enquanto te esperava
Eu sempre te esperei
Mas você não chegava
Amanhã você será a noite
Amanhã eu serei o Sol
Amanhã você verá de noite
Amanhã o que eu verei no Sol ?
Amanhã você dirá de noite
Amanhã o que eu direi pro Sol ?
Amanhã você terá a noite
porque amanhã eu te darei o Sol

(Nando Reis)

4 de dez de 2010

Propaganda: liberdade de expressão ou persuasão publicitária?



Hoje é o dia da propaganda. O jornal O Liberal publicou uma matéria super tendenciosa a respeito do assunto, criticando ONGs entidades governamentais por apoiarem a restrição de anúncios publicitários como forma de persuasão negativa. Álcool, cigarro, alimentos de alto valor calórico, etc. Este blog nunca teve caráter político, partidário, nem mesmo jornalístico (mesmo que escrito por uma aprendiz da profissão). Mas hoje, após ler essa matéria na internet, senti vontade de me manifestar acerca do assunto.

Até concordo que alguns venham com o discurso do direito de expressão. Publicitários, donos das agências de publicidade, o próprio comércio desses produtos... mas um veículo de comunicação? Se posicionar dessa forma? *indignada*

E o pior de tudo: além de ter ficado na cara que a opinião toda se resume em CA$H, o próprio texto se contradiz:

1º trecho: "Atualmente existem 11 projetos no Congresso Nacional que dispõem sobre proibições e restrições à propaganda de determinados produtos. Mas será que os males da sociedade como obesidade, alcoolismo e tabagismo podem ser atribuídos à chamada persuasão publicitária?"

2º trecho: "A opinião é compartilhada por Guto Chady, presidente da ABAP-PA (Associação Brasileira de Agências de Publicidade - Pará). Ele acredita que a restrição na propaganda de alimentos pode ser um 'desastre'. 'A propaganda é persuasiva e a falta dela declina qualquer venda', diz."

Por fim, a apelação

Para ele, os efeitos dessa restrição poderão ser sentidos em vários setores da cadeia produtiva, como restaurantes e produtores, mas o principal prejudicado deve ser o consumidor. "O maior prejuízo é para a sociedade como um todo, que tem na propaganda séria e saudável um alicerce fundamental de informação e elucidamento", explica.


... e o velho discurso


As leis de proibição da propaganda vão de encontro a um dos direitos básicos previstos na Constituição: a liberdade de expressão, que consiste na livre comunicação de ideias e opiniões. "Como base da democracia e da livre iniciativa, a sua proibição ou mesmo contigenciamento têm que ter bases claras de lógica e critério para não cair na inconstitucionalidade", argumenta Chady.

Muito fácil apelar pra esse argumento da liberdade de expressão numa discussão como essa. Quero ver na hora de veicular uma notícia que vá de encontro com os interesses dos anunciantes ou dos donos dos meios de comunicação (que geralmente estão envolvidos na política). Hipocrisia.

Gostaria de deixar claro que citei o jornal O Liberal por conta da matéria publicada hoje, 4 de dezembro, dia da propaganda. Mas tudo que expus vale para os outros jornais locais, que também publicam matérias tendenciosas contando com a idiotização do  leitor / espectador. Mas para a alegria da classe acadêmica, os novos pesquisadores da área não acreditam mais nesse público marionetes de teorias como a da indústria cultural ou da agulha hipodérmica. "Compre batom" e o cara levanta do sofá e vai comprar o chocolate. Olhando por esse lado... Talvez meu post nem faça mais tanto sentido... :)

18 de nov de 2010

O meu bloco do eu sozinho


"... pareço forte, mas no fundo sou fraca
fera, porém sou bela
às vezes chata, mas no meu íntimo 
há sentimentos diversos
Pareço metida, porém se olhares em meu semblante,
com seu coração,
verás apenas humildade.
Calma sempre.
Posso até parecer solitária...
É que realmente tenho poucos amigos."
(Clarice Lispector)

Li esse texto no (Re)canto da Fênix e me identifiquei. Nem me espanto mais. É Clarice. O curioso é a coincidência. Poucos minutos antes de abrir o blog, vinha pensando em minha realidade social. Passo o dia na TV, onde tenho excelente rede de relacionamento (profissional). Falo com todo mundo, todos gostam de mim. Mas sou na minha. Estou sempre acompanhada, mas não faço parte de nenhum grupo (partidário, de amigos, das mamães, dos que se reúnem fora do ambiente de trabalho). É como sou no restante da minha vida: sempre rodeada de pessoas e, ao mesmo tempo, sempre só. 

Sempre que falo com a Elga, ela sempre está com o grupinho dela. Eles fazem tudo juntos. Vão ao cinema, ao bar, à sorveteria, ao hospital, a casa uns dos outros, etc. A Fênix também vive acompanhada em suas ligações misteriosas, amigos fora da faculdade, na faculdade (uma das amigas dela também é minha amiga, mas vive mais com ela do que comigo), etc. Aliás, isso é algo que me acontece com frequência: conheço você. Nos tornamos amigos. Aí te apresento para um(a) amigo(a) e, de repente, vocês são mais amigos entre si do que meus amigos. 

Meu próprio pai tem mais amigos do que eu! Amigos de muitos anos atrás que ele sempre visita e amigos mais recentes (alguns que deixou de lado, outros com os quais está conseguindo manter o vínculo). Meu pai só fica sozinho quando ele quer. Na verdade... eu também. Isso é fato. Se quisesse, faria parte de num grupo. Andaria em bando. Mas me isolo. Sou do tipo que anda mais próximo do cônjuge (quando tenho um) do que de qualquer outra pessoa. É como se eu casasse sempre que namoro. Não preciso ligar pra Talita (minha melhor amiga, uma das poucas que me restaram), por exemplo, e contar meu dia. Faço isso com quem estou namorando. É meu jeito e não tem jeito.

Não tenho paciência pras pessoas. Ou, as pessoas não tem paciência pra mim. São muitas as minhas restrições. Se não quero beber, não quero que insista. Não gosto daquele amigo que   te faz sentir um imbecil por não estar bebendo com a galera e fica insistindo. Se quero sair, saio. Se não quero, não insista. Quanto mais me convidar para algo que não quero fazer, menos vou querer fazê-lo. Odeio gente que liga às onze da noite, quando já estou de pijamas, e convida pra balada.

Já estive numa fase em que levantava na mesma hora, trocava de roupa e ia. Não pensava duas vezes. Mas minhas condições físicas não me permitem mais. Trabalho de dia e faculdade à noite. Às vezes trabalho no final de semana. Não consigo "ferir" meu próprio corpo. Pra mim é bastante água, comida saudável e 8 horas de sono. Sou branca, pele flácida. Se não cuidar, cedo envelheço. E quero ser uma coroa conservada. Depois, amigo nenhum vai me pagar uma plástica. Ainda vão comentar: "Nossa, como a Flávia está caída!".

Às vezes assisto séries como Sex and The City e acho um barato aquele grupinho de amigas sempre juntas, se fazendo companhia em tudo. Aliás, mesmo exaltando ao máximo o consumismo, adoro essa série (que tenho completa - ou melhor, quase, falta um DVD ¬¬). As protagonistas passam a maior parte do tempo se encontrando para comer, mas  é muito boa. Trocadilhos e pequenos detalhes inteligentes, piadas cotidianas (as melhores), conflitos vividos por todas nós. Enfim, apesar de querer - algumas vezes - ser Carrie Bradshaw com suas inseparáveis escudeiras Samantha, Miranda e Charlotte, não creio que conseguiria (devido as minhas restrições).

O interessante é que atraio bastante gente. Conheço muita gente e muitos se aproximam. Aí, depois de mostrar a isca no anzol, eu puxo e corto a linha. Apresento minhas barreiras intransponíveis e ultrapassa só quem eu permito ou quem se arrisca demais. E quem se arriscaria demais? Alguém que estivesse interessado em mim. Eis o porquê de ter em meus relacionamentos grandes amizades.

Não sei, definitivamente viver em bando. Tenho, como revelou Clarice no texto, poucos amigos. Contados no dedo. Apesar de viver acompanhada (pois ando rodeada de pessoas), vivo só. Porque ninguém cruza minha divisa. A não ser que eu permita.

12 de nov de 2010

Paciência


Paciência

Composição: Lenine e Dudu Falcão

Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
A vida não para...
Enquanto o tempo
Acelera e pede pressa
Eu me recuso faço hora
Vou na valsa
A vida é tão rara...
Enquanto todo mundo
Espera a cura do mal
E a loucura finge
Que isso tudo é normal
Eu finjo ter paciência...
O mundo vai girando
Cada vez mais veloz
A gente espera do mundo
E o mundo espera de nós
Um pouco mais de paciência...
Será que é tempo
Que lhe falta para perceber?
Será que temos esse tempo
Para perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara...
Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
Eu sei, a vida não para
A vida não para não...
Será que é tempo
Que lhe falta para perceber?
Será que temos esse tempo
Para perder?
E quem quer saber?
A vida é tão rara
Tão rara...
Mesmo quando tudo pede
Um pouco mais de calma
Até quando o corpo pede
Um pouco mais de alma
Eu sei, a vida é tão rara
A vida é tão rara...
A vida é tão rara...

5 de nov de 2010

Lição: seguir o movimento


Frango cliente: Odeio comer aqui.

Frango funcionário: Eu odeio trabalhar aqui.

Frango cliente: Então por que estamos aqui?

Frango funcionário: Medo do desconhecido.

[É com isso que se depara quem tem medo de mudanças: mesmice]

1 de nov de 2010

Palavras.


É delas que vivemos. O que te disse ontem, o que vão te dizer amanhã. O que pretendo te contar. O que me dirás a respeito do que pensas. 

"O que eu sempre te falei?!" 

"Eu te disse. Você não quis me escutar!"

"Você me feriu."

"Eu te amo."

Palavras...

Ontem meu primo e eu estávamos conversando e ele me disse: "tenho que mudar para me encaixar." Eu: "Como assim? Como te vês e como achas que deves ser?" Ele disse que precisa ser sociável pra sobreviver e pra ser sociável, precisa ser falso algumas vezes. Disse-lhe que tem razão, precisa. 

De fato, a regra de sobrevivência n° 1 é essa: ser sociável. Cultivar amizades, montar uma boa rede de relacionamentos. Daí as oportunidades brotam e tudo fica mais fácil. E sim, primo, pra ser sociável é preciso ser falso algumas vezes. Dizer "tenha um bom dia" quando quer mandar alguém às favas, desejar feliz aniversário só porque todo mundo ao redor está fazendo o mesmo, sorrir em reuniões de trabalho ou em momentos específicos, enfim.

Às vezes nem é falsidade. É convenção, comodismo. Quase como ligar um botão e deixar no automático. Um amigo me disse, numa situação de euforia: "eu te adoro!". Ficar calado seria horrível, então, por que não dizer "eu também"?

E assim vamos desperdiçando as palavras. Aos poucos, elas vão virando moeda de troca, por pequenos favores sutis. Quase um escambo social. Diz que me curte e entra pra minha tribo. Diz que vai com a minha cara e eu te contrato pra minha empresa. Diz que me ama e eu coloco meu sobrenome no teu filho. Vence quem oferecer as melhores palavras.

Palavras são armas poderosíssimas. Tanto que algumas combinações delas podem levar à cadeia: "preto" e "gay", por exemplo, jamais podem estar na mesma frase que "feio". Por que dizer "branco feio" pode e dizer "preto feio" é preconceito? Não importa o porquê, é e pronto. Mas olha o lado bom: é permitido eufemizar. "Preto" pode virar "negro", "gay" pode ser substiuído por "homoafetivo".

Travamos guerras e nos casamos por causa delas. Ganhamos dinheiro com ajuda delas. Sabe disso muito bem o advogado, o jornalista, o vendedor ambulante.

Elas são heroínas e também bandidas. Podem ser um passaporte para o inferno e também um bilhete premiado de loteria. Tudo depende de como são usadas.

Algumas coisas ditas parecem bem maiores do que na verdade são. Outras são tão bem articuladas que podem transformar ofensas em elogios. 

Algumas palavras são simplesmente vazias. E mesmo assim, contruímos castelos em cima delas. Como separar joio do trigo? Entre o que eu ouço e o que eu leio, eu fico com o que ainda não fomos capazes de verbalizar...


30 de out de 2010

Ser e tocar.


Não sei se a vida é curta ou longa para nós, mas sei que nada do que vivemos tem sentido se não tocarmos o coração das pessoas.

Muitas vezes basta ser: colo que acolhe, braço que envolve, palavra que conforta, silencio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que acaricia, desejo que sacia, amor que promove.
 
E isso não é coisa de outro mundo, é o que dá sentido à vida. É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa demais, mas que seja intensa, verdadeira, pura enquanto durar. Feliz aquele que transfere o que sabe e aprende o que ensina. 
(Cora Coralina)

"... passava o resto do dia representando com obediência o papel de ser."

"Não me prendo a nada que me defina. Sou companhia, mas posso ser solidão. Tranquilidade e inconstância. Pedra e coração. Sou abraços, sorrisos, ânimo, bom humor, sarcasmo, preguiça e sono! Música alta e silêncio. Serei o que você quiser, mas só quando eu quiser. Não me limito, não sou cruel comigo! Serei sempre apego pelo que vale a pena e desapego pelo que não quer valer…" 
“Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato... Ou toca, ou não toca."
(Clarice Lispector)

21 de out de 2010

Who should we blame?

Super Homem: Não tão rápido, criminoso!

Assaltante: Espera! É mais complexo do que você pode imaginar. Estou assaltando para alimentar minha família!

Super Homem: Por que não consegue alimentar sua família?

Assaltante: Os idiotas da fábrica não nos pagam o suficiente.

[...] Na fábrica.

Dono da fábrica: Espera! Nós queremos pagar mais, mas os idiotas do governo nos desincentivam  muito!

[...] 

Representante do governo: Espera! Nós queremos apresentar um sistema econômico melhor, mas os economistas não entendem muito bem o caos...

[...]

Economista: Espera! Adoraria entender o caos, mas o mundo é cheio de variáveis ocultas!

Super homem, desolado: Então... em quem eu bato?

Economista: Realidade é complexa. Se você quer qualquer coisa parecida com uma resposta, você precisa aprender física, matemática, filosofia, história...
...

20 de out de 2010

Couvert artístico: Você concorda?

Estou produzindo na TV Cultura o próximo programa Controvérsia, que traz como tema o Couvert Artístico. Pesquisando artigos de base legal, notícias, opiniões de blogueiros, etc., encontrei esta situação a seguir (Blog do Barzinho) e resolvi postar. Achei interessante levantar essa polêmica questão. 


Afinal de contas, quem concorda com a cobrança do couvert artístico? Deixo claro, antes de qualquer coisa, que não me posicionarei acerca do assunto. Primeiro porque a lei já o faz por mim: a obrigatoriedade dessa taxa é inconstitucional. Segundo porque, mesmo que quem acabe levando a vantagem seja o dono do estabelecimento, a maior parte dos músicos defende a prática. Então... tratando-se de Brasil, acaba tudo em pizza mesmo! Mas a historinha vale a pena conferir. 

Um amigo de um amigo meu propôs ao dono da casa:

- Que tal se, ao invés de o senhor me pagar por couvert, não acertássemos um fixo?

- Mas o couvert acaba dando mais grana que um fixo! Vai ser melhor pra você! A casa bomba!

- É mesmo? Então o porque o senhor não acerta um fixo comigo e fica com o couvert para a casa?

- Ah, mas aí pra mim não compensa... vai que a casa não enche...


Será que o cara é esperto?

18 de out de 2010

Proseando


Prosear é um jeito de falar. Fala sem objetivo definido, como o vôo dos urubus - indo ao sabor do vento. Palavras fluindo. Um jeito taoísta de ser. Para prosa não existe 'ordem do dia', não há conclusões, não há decisões. 

A prosa não quer chegar a nenhum lugar. A prosa encontra sua felicidade em prosear. Como andar de barco a vela em que o bom não é chegar mas o 'estar indo'. 'A coisa não está nem na partida nem na chegada, mas na travessia', Guimarães Rosa. Prosear é brincar com as palavras. 

Escrevi uma crônica com o título Tênis x Frescobol, sobre dois tipos de fala. Fala do tipo Tênis tem um objetivo preciso: reduzir o outro ao silêncio por meio de uma cortada. Ter razão. Ganhar o argumento. Convencer. Sempre termina mal. Um ganha, fica feliz e se sentindo superior. O outro perde, fica com raiva e se sentindo inferior. Frescobol é diferente. A felicidade do jogo está em estar acontecendo, em não parar, vai, vem, vai, vem, vai, vem, como numa transa indiana, sem orgasmo, feita de um prazer permanente que não acaba. 

O orgasmo na transa, como a cortada no tênis, são o fim do brinquedo. Saber prosear, jogar conversa fora, é o segredo das relações amorosas. Nietzsche dizia que quando se vai casar a única pergunta importante a se fazer é 'terei prazer em conversar com essa pessoa quando eu for velho?' Nessa sala estaremos proseando. Falar sobre o que der na telha. Pensamentos avulsos. Dicas. Informações sobre as coisas novas na minha casa. Apareça sempre para prosear!

17 de out de 2010

É o Que Me Interessa
Lenine

Daqui desse momento
Do meu olhar pra fora
O mundo é só miragem
A sombra do futuro
A sobra do passado
Assombram a paisagem.

Quem vai virar o jogo
E transformar a perda
Em nossa recompensa
Quando eu olhar pro lado
Eu quero estar cercado
Só de quem me interessa.

Às vezes é um instante
A tarde faz silêncio
O vento sopra a meu favor
Às vezes eu pressinto e é como uma saudade
De um tempo que ainda não passou
Me traz o seu sossego
Atrasa o meu relógio
Acalma a minha pressa
Me dá sua palavra
Sussurra em meu ouvido
Só o que me interessa.

A lógica do vento
O caos do pensamento
A paz na solidão
A órbita do tempo
A pausa do retrato
A voz da intuição
A curva do universo
A fórmula do acaso
O alcance da promessa
O salto do desejo
O agora e o infinito
Só o que me interessa.

11 de out de 2010

Troca justa


"Bem... Eu precisava de um coração, já que te dei o meu...

Então achei válido roubar o teu." (L.M)

9 de out de 2010

Acorda



Há exatamente 365 dias, eu também postava às vésperas da maior manifestação religiosa da América Latina (e maior cristã do mundo): http://flaviaescarlate.blogspot.com/2009/10/cirio-outra-vez-pe.html.

De lá para cá muita coisa mudou (em diversos aspectos: pessoal, profissional, acadêmico). Pessoas que jamais imaginei que fossem embora simplesmente foram. Outras se apresentaram no palco da minha vida. Emprego novo, novas perspectivas, alguns velhos sonhos readaptados às novas condições. Agora falta um pouco mais de um ano pra eu me formar e fechar mais um ciclo.

Continuo chorando pela vozinha quando conto suas peripécias, escuto uma música bonita ou simplesmente lembro do amor que me dedicava, de um jeito que era só dela. Outubro a torna mais forte em mim, principalmente ao escutar "Círio outra vez" do Pe. Fábio. A devoção e fé que ela tinha é meu legado. A linda imagem de Nossa Senhora de Nazaré que ganhei num sorteio teria trazido um brilho a mais aqueles olhinhos. *lágrimas*

Em quase todo canto do mundo, o ano novo é um momento de renovação no qual fazemos novos votos (ou os de sempre), lembramos de tudo que fizemos durante o ano, nos auto analisamos e prometemos fazer tudo melhor no ano seguinte, abandonando os velhos erros, desatando alguns nós e começando do zero. Aqui também fazemos isso durante o Círio. Estou fazendo isso agora.

Para algumas pessoas eu nunca mudarei. São aquelas que rotulam, que julgam mais do que analisam e pensam tão linearmente que são incapazes de detectar as oscilações da vida. A vida não é linear como essas pessoas o são. A vida nos apresenta facetas diferentes a cada amanhecer. Eu tenho o dom de percebê-las e senti-las. 

Sou como a chama de uma vela. Se a casa está trancada, ninguém entra, ela está calma. Mas se alguém abre a porta ou a janela e passa por perto, ela balança... sem jamais apagar (minha energia também é renovável). Minha sina, meu carma ou meu presente de Deus. Eu me permito conhecer novas cores, novas realidades e - ainda assim - estar presa ao passado de alguma forma. Porque sei o que realmente me importou e ainda me importa nessa vida. 

Mas... sempre tem o outro lado da moeda e aliado a qualquer dom... Novas realidades me fascinam e me atraem. "Portas são feitas para serem abertas", pensaria Alice. Infelizmente, uma vez aberta uma porta, fica difícil enxergar a realidade anterior da mesma forma. Tal qual Sócrates no "Mito da caverna" (só para constar: sei que o mito é de Platão, mas me refiro ao protagonista da história e não ao autor). Meu desafio é descobrir se devo continuar abrindo as portinhas e correndo pelo país das maravilhas atrás de um coelho que está sempre atrasado (é a tendência de quem não se conforma em fazer uma coisa só e tenta várias ao mesmo tempo) ou  se o certo é resistir a elas e passar o resto da vida dentro de uma só realidade.

Quem sabe entrar nas portas, sem me deixar seduzir pelas novas paisagens...

Reflexões à parte, hoje sou mais livre que a um ano atrás. Estou liberta de mim mesma, de alguns medos, preconceitos. Enquanto no post do dia 09/10/2009 estava prestes a fazer 25, neste estou prestes a fazer 26 (é, não tenho vergonha de dizer minha idade. Ainda...rs) e é incrível como um ano pra mim faz tanta diferença! É como se meu reloginho interno não seguisse o tempo cronológico e 1 mês representasse 1 ano, 1 ano representasse 2 e por aí vai.

Dentre algumas músicas católicas, eu escolhi uma para postar aqui hoje. Porque uma das lições deste ano foi exatamente essa: "quanto maior tua graça, maior tua responsabilidade". Sou uma pessoa muito afortunada, mas o excesso de bençãos, de amor que sempre tive me faz ainda mais humana e passível de erros. "E que minha loucura seja perdoada. Porque metade de mim é amor e a outra metade também." (Oswaldo Montenegro)

Ao coração 
(Pe. Fábio de Melo)

Deus me entregou bem mais do que mereço


Talvez seja por isso que eu me cobre um pouco mais





Não que eu não seja capaz
Mas, às vezes, é difícil

Nem sempre eu sei fazer, o bem que eu desejo
E, às vezes, eu me vejo
Me enganando sempre mais
Não que eu não queira acertar
Mas nem sempre é possível

Já me condeno tanto
Pelos erros que na vida eu cometi
Pelas vezes que eu não soube decidir
E assim, meu coração gritava, desespero de quem ama
Coração, tu que estás dentro em meu peito
Me condenas desse jeito
E eu não sei por qual motivo
Só te peço, por favor, eu sou humano
Não me condenes assim

Humano eu sou assim: virtudes e limites
Se agora me permites
Eu aprendo ser feliz
Sem prender-me ao que não fiz
Mas olhando o que é possível

A dor que, às vezes, vem
Me faz feliz também
Pois ela me recorda o valor que tem a cruz
Quando a noite esconde a luz
Deus acende as estrelas


Feliz Círio a todos (até aos não paraenses)! Que a corda acorde o coração de quem mais precisa neste momento. Viva Nossa Senhora de Nazaré! \o/

7 de out de 2010

Resposta inteligente


Tenho uma colega de trabalho que é uma exímia doceira. Ela faz bolos, brigadeiros, pudins e tudo o que há de mais gostoso pra vender e traz pra galera se endividar e engordar um pouco...rs

Aí ontem estava compenetrada em minha mesa, trabalhando, quando minha chefe perguntou a um funcionário super inteligente daqui que é diabético- enquanto provava as delícias da colega doceira: "Égua, Tim! Como é que tu consegues viver sem doce?!"

Ele nem titubeou e respondeu: "Eu não viveria com, mesmo!"

Eu não aguentei e comecei a rir. Virei pra ele e disse: "Excelente resposta, Tim!"

Ainda fico rindo sozinha, de vez em quando, ao lembrar dessa resposta. Acho que todo hipertenso (o que ele também é), diabético e obeso (etc e tal) deveria pensar assim na hora de ter que resistir às delícias celestiais que tentam seduzi-los...rs 

3 de out de 2010

Inquietude


Estou comprando...
Oração
Reza
Feitiço, que seja!

Que possa Me curar desse despropósito
Dessa inquietude sem nexo
Reação anômala de não Me saber
De mentir-Me
Mitos
Demitidos

Que me faça atravessar
Esse quotidiano insólito de sentido amorfo
Esse muro de perplexidade consciente
E ciente do Nada

De um Nada

Que dói


(Wanda Monteiro)

29 de set de 2010

Ambivalência



(…)
Por quê?
Não me plantas em teu solo
Fértil de desejo
Denso de possibilidades
Quem sabe
Ainda possa nascer
O Resto
De Mim

Wanda Monteiro, em "O Beijo da Chuva"

24 de set de 2010

Nós


Amanhã com a primavera
Voltarei a quem me espera,
sem pudor e sem receio.
As lembranças rosas vivas
florirão em nossas vidas
ao calor do nosso anseio.

Deixarei o sofrimento
longe do teu pensamento
e dos teus olhos risonhos.
Então na paz do deserto
do nosso sacrário aberto
brotarão os nossos sonhos.

Nossa vida será assim,
um paraíso sem fim,
com luar para nós dois.
Nascerão nossos desejos
entre carícias e beijos
na luz que virá depois.

Luz que nos empolga, fascina
com harmonia e carinho.
Doce luz que brevemente 
será sombra eternamente
por todo nosso caminho.

Trocaremos diretrizes,
seremos os dois felizes,
sentiremos as fragrâncias.
Viveremos lado a lado,
e resgatando o passado
sepultaremos distâncias.

(Sarah Rodrigues, Poemas para minha aldeia)