22 de dez de 2009

Paraense é pai d'égua!



Não há nada mais paraense que ir pra Praça da República no domingo, se abrigar da chuva no coreto e ainda ouvir alguém dizer: "Égua, arriou!".

15 de dez de 2009

۝ Mundos ۝



 Cada um de nós tem um mundo diferente. É como um código genético ou uma impressão digital: Insubstituível. Apesar de compartilharmos sensações e vivências, temos nosso próprio conjunto de células e sinapses. Ninguém jamais saberá como é estar em nossa própria pele. A união de tudo, de todas as percepções, se dá para cada ser de forma única. É daí que vem o prazer em fazer novos amigos. Conhecer alguém é como fazer ou receber uma visita. Alguns tiram o sapato antes de entrar, outros simplesmente vão invadindo. Alguns parecem médicos. Outros, demoram uma vida inteira. Em alguns casos a conversa tá boa, a companhia agradável, mas por um motivo qualquer, é hora de ir embora.

A paixão traz consigo lógica semelhante: Primeiro rola profundo interesse em conhecer aquele ponto turístico, cultura, clima. Você arruma as malas e se manda pra lá. Depois vem a fase da descoberta. Tudo é tão gostoso que nos faz querer viver ali por tempo indeterminado. Até que - num dia qualquer - enquanto você caminha distraída, uma propaganda turística passa do seu lado pela rua e lhe chama a atenção. E lá vai você de novo comprar passagens, fazer as malas, encaixotar as cartas e as fotografias antigas e seguir viagem. 


Será que vem daí a expressão "partir para outra"?

A vida é isso que escreveu Lulu Santos, "um indo e vindo infinito". Mundos diferentes em órbita. Órbitas paralelas que nunca se cruzam, órbitas coincidentes (mãe e filho ou casais que ficam juntos até que a morte os separe), órbitas concorrentes ou perpendiculares (unidas num determinado ponto, para mais tarde seguirem caminhos opostos). Órbitas. Mundos. Galáxias. Quem sabe até uma outra realidade sideral, como discute a física quântica e os loucos da ufologia?

O fato é que ninguém conhecerá por inteiro o mundo de outro, por mais vidente ou paranormal que essa pessoa possa ser. No seu, você - e somente você - conhece suas dores, ânsias e medos mais profundos. Por isso não é válido aconselhar (dar opiniões apenas quando for consultado), não julgar (mas observar bastante) e sim tirar proveito do aprendizado alheio, contentando-se com o que de bom as pessoas têm para lhe oferecer. Quando lhe ofertarem o pior, basta aceitar e fazer dele uma bula de contra-indicações para seguir.

Preserve seu mundo, ele será sua casa para sempre. Conheça-o bem, já que mais ninguém terá capacidade para tal. Respeite seu ecossistema pra que o clima não aqueça além do devido, as geleiras não desmanchem, a matéria orgânica não morra e os sentimentos não guerreiem por ínfimos motivos. 


Visite outros lugares, mas nunca, nunca, se perca em nenhum deles.  

10 de dez de 2009

PROGRAMAÇÃO PARA O FIM DE SEMANA






Política: uma experiência enriquecedora.


adoro a Mafalda!

9 de dez de 2009

"Viver a Vida" do jeito que o 'plim-plim' quer

Mesmo não sendo noveleira (na verdade televisão é algo profundamente entediante pra mim), a nova de Manoel Carlos, "Viver a Vida", tem me chamado atenção. A protagonista Luciana, (interpretada pela atriz Alinne Moraes) mimada e em pleno deslanchar de sua carreira de modelo, sofre um drástico acidente de carro que lhe deixa tetraplégica.

A lição de esperança, força de vontade e superação é - de fato - uma boa faceta do tema central da trama. Mas, não sei... há alguma coisa de não-convincente aí. Primeiro que dentro do Projac pobre leva vida de rico. Perdoem-me os defensores do "plim-plim", mas o padrão de pobreza que eu conheço é outro. Segundo que, de alguma forma, sempre é passada essa idéia de resignação que não engulo. Os vilões quase sempre são ricos e os mocinhos pobres e felizes que fazem festa o tempo todo, vivem rindo, se divertindo. "Pobre é que é feliz". Será que é mesmo assim ou... é o que o sistema acha conveniente que pensemos?

Deve ser porque Deus quis...

 
"Diz que deu
Diz que dá
Diz que Deus dará
Não vou duvidar, oh nega
E se Deus não dá
Como é que vai ficar, oh nega
Deus dará, Deus dará"





Outra: acho ótimo que a sociedade encare a situação mais de perto, que os deficientes se identifiquem com o cotidiano da Luciana (como, se ela é rica?), dificuldades, decepções, superações, etc. Mas o autor deveria - não sei se ainda vai - colocar em tese a (falta de) infraestrutura urbana para essas pessoas. Só no Rio de Janeiro - cenário da trama - entre os mais de 5,8 milhões de moradores do município, pelo menos 14% sofrem de alguma limitação física ou mental (Censo 2000, IBGE). E mesmo com a estatística elevada, não há um número suficiente de transportes públicos adaptados. Em contrapartida, há ruas e avenidas esburacadas, desniveladas, calçamentos irregulares e o pior: sem sinalização - o que se torna problema até para o restante da população.

E como tudo nessa vida tem um lado positivo...

  • Algo que tem sido repetido, nos capítulos que acompanhei, ajuda no combate ao preconceito: "Foi com ela, mas poderia ter sido comigo".
  • Palmas também à velha receita de lágrimas do Manoel Carlos de colocar depoimentos reais de pessoas que passaram por processos de superação.
E acompanhemos o desenrolar de mais essa novela  com a primeira Helena negra da teledramaturgia Manoeliana.


4 de dez de 2009

Medo da Eternidade




















Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade.


Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.

Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:

- Como não acaba? - Parei um instante na rua, perplexa.

- Não acaba nunca, e pronto.

- Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta.

- Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.

- E agora que é que eu faço? - Perguntei para não errar no ritual que certamente deveira haver.

- Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.

- Perder a eternidade? Nunca.

O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.

- Acabou-se o docinho. E agora?

- Agora mastigue para sempre.

Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da idéia de eternidade ou de infinito.

Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.

Até que não suportei mais, e, atrevessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.

- Olha só o que me aconteceu! - Disse eu em fingidos espanto e tristeza. - Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!

- Já lhe disse - repetiu minha irmã - que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.

Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra na boca por acaso.

Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.

.::Clarice Lispector::.