26 de fev de 2011

Encontros e despedidas



Mande notícias do mundo de lá
Diz quem fica
Me dê um abraço, venha me apertar
Tô chegando
Coisa que gosto é poder partir
Sem ter planos
Melhor ainda é poder voltar
Quando quero
Todos os dias é um vai-e-vem
A vida se repete na estação
Tem gente que chega pra ficar
Tem gente que vai pra nunca mais
Tem gente que vem e quer voltar
Tem gente que vai e quer ficar
Tem gente que veio só olhar
Tem gente a sorrir e a chorar
E assim, chegar e partir
São só dois lados
Da mesma viagem
O trem que chega
É o mesmo trem da partida
A hora do encontro
É também de despedida
A plataforma dessa estação
É a vida desse meu lugar
É a vida desse meu lugar
É a vida!


Encontros, despedidas, saudade. Palavras muito lidas, escutadas, clichês. Já faz algum tempo que essa música passou a fazer todo o sentido do mundo pra mim. E hoje ela me veio mais forte, como uma punhalada no peito: uma pessoa muito querida está partindo, rumo a uma nova vida em outro estado. 

Na sempre tão cruel despedida, lágrimas e aquela sensação horrível de morte. Mesmo sabendo que é a vida! Bom, mas não foi a despedida em si que me fez chorar, foi o que isso representou pra mim: bravura, ousadia. A certeza de que Deus coloca pessoas na hora certa e no lugar certo em nossas vidas, e fazemos delas pontes para novos caminhos - rumo ao que chamamos de futuro (que, na verdade, é sempre o agora). 

Maria Rita tem razão, são só dois lados da mesma viagem. Enquanto vivo uma relação à distância, ela optou por abdicar de muita coisa para viver a dela fisicamente. Amanhã quem sabe ela volta e serei eu a partir.

Seja feliz, Fênix. Essa é sua natureza, o renascimento. Mande notícias do mundo de lá e não esqueça que aqui nessa cidade quente, úmida e cheia de mangueiras, existe alguém que jamais a esquecerá.

Beijos escarlates, hoje de muita saudade.

24 de fev de 2011

O apertador de botão



Há alguns anos, João foi contratado por uma fábrica para aparafusar caixas de madeira e despachá-las. No dia da entrevista de emprego, o dono da empresa lhe explicou sobre o serviço. Falou de todo o processo, o objetivo geral e a parte que lhe cabia. João não entendeu muito bem. Mas não importava. Bastava saber que, todos os dias, várias caixas diferentes lhe seriam entregues e ele teria que fechá-las com pregos para que viajassem com segurança. O salário não era muito bom, mas dava pra pagar as contas e sustentar a mulher e os filhos.


Desde que chegava, até a hora de ir embora (exceto na hora do almoço, claro), o recém-contratado sentava numa cadeira e ficava esperando o superior lhe trazer as caixas de madeira.  Grandes, pequenas, médias. Para cada modelo, um número de pregos e uma técnica diferente. Com uma semana, aprendeu tudo o que precisava. Os anos foram passando e João continuava na mesma etapa, a última, de um processo que ele nem fazia idéia de qual era. 

Um belo dia, o supervisor, responsável por despachar as caixas, estava cheio de outros afazeres, problemas pontuais e acabou se confundindo ao deixar, no meio das outras de madeira, uma caixa de ferro que servia de cofre para guardar seus pertences até o final do expediente. João estranhou a situação, mas nada disse. Na verdade, nem refletiu sobre, apenas executou a mesma operação que fazia há 10 anos. E João fechou a caixa com os parafusos mais grossos e o maior martelo da caixa de ferramentas. 

O chefe prosseguiu nos afazeres normalmente até que, no final do dia, na hora de pegar as coisas e partir, notou a falta do cofre improvisado. Como João era o único funcionário que ainda estava na empresa (a enorme caixa de ferro havia lhe atrasado o serviço), foi chamado até a sala da supervisão. 


"João, você viu meu cofre?" 

"Mas o senhor me deu ela hoje cedo para aparafusar..."

"Como é que é? E você aparafusou? Não sabe que ali guardo meus pertences?!"

Rispidamente, cheio de razão, o funcionário "padrãonizado" respondeu: "A obrigação de me trazer caixas para aparafusar é sua. Se o senhor me deu o cofre da empresa para aparafusar, foi exatamente o que fiz".


O que vocês acham que aconteceu com João? Foi demitido? 


Antes da resposta, um parêntese: assim como João, existem hoje milhares de "funcionários padrãonizados" espalhados no mercado de trabalho. Pessoas que são contratadas para apertar um botão (a mando de outras), que não se interessam em conhecer cada etapa do processo, saber a política da empresa, entender o porquê de todas aquelas operações. Basta apertar o mesmo botão dia após dia, aparafusar caixas de madeira e receber o salário do final do mês. 

Não. João não perdeu o emprego. Direitos trabalhistas, outra contratação... muito trabalho e ônus pra empresa. O chefe simplesmente comprou uma caixa nova. Ou melhor, um cofre de verdade. 


E João?


...

Bem, ele continua aparafusando caixas de madeira até hoje.

12 de fev de 2011

Natureza humana


Ser como ar, transparente, fugaz. Ninguém percebe, mas ele se faz presente, mesmo sem alarde. Pode se adaptar às mais adversas situações, formas. Se não quiser, sai silenciosamente - da mesma forma que chegou.

Ser como terra, constante, prática, materialista, conservadora. Dar importância às raízes. Rodar o mundo, mas no final da jornada, voltar pro mesmo pedaço de chão. Sentir o solo e, através dele, o mundo afora: seco, molhado, quente, frio.

Ser como fogo, fonte de luz e calor. Ter grande potencial ígneo e radiante. Ser capaz de descongelar icebergs e enxugar rios de lágrimas. Atrair com a sensualidade das chamas, espantar com a fúria do incêndio e proteger no conforto de uma lareira. 

E, por fim, ser como água, maleável, adaptável, limpa. Ser transparente, mas algumas vezes turva. Nem sempre ser consumível. Ser flexivel e volátil. Seguir a correnteza. Saber represar e desaguar, quando for preciso. Ser um pouco como iceberg: imponente, forte, implacável - mas, por trás da aparência, a realidade: apenas um grande pedaço de gelo... que derrete no calor.

Molhar, congelar, secar, evaporar, queimar, iuminar... voar. Ser cada elemento da natureza, um de cada vez ou todos ao mesmo tempo. O homem é tão perfeito que foi moldado pelos quatro elementos que constituem a Terra. Entendê-los e percebê-los em nós é entender que o corpo fala, faz e acontece e a mente tenta controlá-lo. Deixar-se controlar. Mas permitir-se descontrolar também. Afinal, a natureza humana é assim, perfeita em cada fenômeno.

11 de fev de 2011

Ah, a semiótica...


Me espalho em vários pedaços de mim
Vermelhos, pequenos, diluídos em outros tons da palheta...
Que eu vou pingando pelo chão.

O que eu sou pra você,
O que eu sou nesse blog,
O que eu sou pra mim mesma,

São partes, fragmentos.
Às vezes maximizo  alguns e espanto.
Noutras, resolvo não mostrar o que salta aos olhos.
É importante sempre relativizar, olhar dos mais diversos ângulos.

Nunca o que se vê é o que realmente é.

6 de fev de 2011

Metamorfose

E assim... de repente...

Nasce uma nova mulher.