18 de out de 2010

Proseando


Prosear é um jeito de falar. Fala sem objetivo definido, como o vôo dos urubus - indo ao sabor do vento. Palavras fluindo. Um jeito taoísta de ser. Para prosa não existe 'ordem do dia', não há conclusões, não há decisões. 

A prosa não quer chegar a nenhum lugar. A prosa encontra sua felicidade em prosear. Como andar de barco a vela em que o bom não é chegar mas o 'estar indo'. 'A coisa não está nem na partida nem na chegada, mas na travessia', Guimarães Rosa. Prosear é brincar com as palavras. 

Escrevi uma crônica com o título Tênis x Frescobol, sobre dois tipos de fala. Fala do tipo Tênis tem um objetivo preciso: reduzir o outro ao silêncio por meio de uma cortada. Ter razão. Ganhar o argumento. Convencer. Sempre termina mal. Um ganha, fica feliz e se sentindo superior. O outro perde, fica com raiva e se sentindo inferior. Frescobol é diferente. A felicidade do jogo está em estar acontecendo, em não parar, vai, vem, vai, vem, vai, vem, como numa transa indiana, sem orgasmo, feita de um prazer permanente que não acaba. 

O orgasmo na transa, como a cortada no tênis, são o fim do brinquedo. Saber prosear, jogar conversa fora, é o segredo das relações amorosas. Nietzsche dizia que quando se vai casar a única pergunta importante a se fazer é 'terei prazer em conversar com essa pessoa quando eu for velho?' Nessa sala estaremos proseando. Falar sobre o que der na telha. Pensamentos avulsos. Dicas. Informações sobre as coisas novas na minha casa. Apareça sempre para prosear!

3 comentários:

Lis. disse...

Costumo dizer que existe entre as pessoas uma palavrinha pequenina que atrapalha todo crescimento humano que se chama: PrÉ.

E o "PrÉ" infelizmente sempre vem antes do conceito, porque sempre dá trabalho chegar no conceito.

Tanto dá trabalho, que estou faz meio século perto da minha mãe, e ainda não consegui ter um conceito apurado dela na minha mão. rsr

Eu não sou o dono da razão, porque aprendi no dia-à-dia que antes da razão eu tenho que ter política.

Infelizmente as pessoas -de um modo geral- não são inteligentes o suficiênte para acreditarem que uma conversa pode ser dentro da prosa um caminho conclusivo.

Até o momento, a única pessoa que consegue me convencer de alguma coisa é a minha irmã. Ela é política demais...

Porque para me convencer, a pessoa tem que ir além de onde o meu pensamento foi... E olha
que ele vai longe
heinnn??

Mas, também, de nada vale coisa alguma se quem está proseando não tiver sensibilidade para conduzir a prosa. E mais uma vez é preciso ter inteligência, agilidade mental para perceber pequenos, ou grandes gestos.

Outrossim, somos todos limitados. Escravos criados da sociedade como um todo, e para amar é necessário ser livre... E quem é livre???

Sara disse...

Achei uma graça este texto Flá...verdadeiro, leve e descompromissado como um bom prosear. Temos mesmo que brincar com as palavras, como se o tempo nunca fosse passar, pois afinal isso do tempo é bem relativo, o que fica são os bons momentos vividos, que voltam sempre numa conversa a toa e boa...beijinhos.

Claudiana disse...

Gosto particularmente dos textos em prosa, na verdade tenho afeição por eles. Amante das crônicas, delas fiz minha referência de escrita e assim pretendo dar continuidade a meus textos, assim como a prosa, descompromissados.
E aí Flá? Quando é que vai rolar o nosso dedo de prosa? Beijos