1 de nov de 2010

Palavras.


É delas que vivemos. O que te disse ontem, o que vão te dizer amanhã. O que pretendo te contar. O que me dirás a respeito do que pensas. 

"O que eu sempre te falei?!" 

"Eu te disse. Você não quis me escutar!"

"Você me feriu."

"Eu te amo."

Palavras...

Ontem meu primo e eu estávamos conversando e ele me disse: "tenho que mudar para me encaixar." Eu: "Como assim? Como te vês e como achas que deves ser?" Ele disse que precisa ser sociável pra sobreviver e pra ser sociável, precisa ser falso algumas vezes. Disse-lhe que tem razão, precisa. 

De fato, a regra de sobrevivência n° 1 é essa: ser sociável. Cultivar amizades, montar uma boa rede de relacionamentos. Daí as oportunidades brotam e tudo fica mais fácil. E sim, primo, pra ser sociável é preciso ser falso algumas vezes. Dizer "tenha um bom dia" quando quer mandar alguém às favas, desejar feliz aniversário só porque todo mundo ao redor está fazendo o mesmo, sorrir em reuniões de trabalho ou em momentos específicos, enfim.

Às vezes nem é falsidade. É convenção, comodismo. Quase como ligar um botão e deixar no automático. Um amigo me disse, numa situação de euforia: "eu te adoro!". Ficar calado seria horrível, então, por que não dizer "eu também"?

E assim vamos desperdiçando as palavras. Aos poucos, elas vão virando moeda de troca, por pequenos favores sutis. Quase um escambo social. Diz que me curte e entra pra minha tribo. Diz que vai com a minha cara e eu te contrato pra minha empresa. Diz que me ama e eu coloco meu sobrenome no teu filho. Vence quem oferecer as melhores palavras.

Palavras são armas poderosíssimas. Tanto que algumas combinações delas podem levar à cadeia: "preto" e "gay", por exemplo, jamais podem estar na mesma frase que "feio". Por que dizer "branco feio" pode e dizer "preto feio" é preconceito? Não importa o porquê, é e pronto. Mas olha o lado bom: é permitido eufemizar. "Preto" pode virar "negro", "gay" pode ser substiuído por "homoafetivo".

Travamos guerras e nos casamos por causa delas. Ganhamos dinheiro com ajuda delas. Sabe disso muito bem o advogado, o jornalista, o vendedor ambulante.

Elas são heroínas e também bandidas. Podem ser um passaporte para o inferno e também um bilhete premiado de loteria. Tudo depende de como são usadas.

Algumas coisas ditas parecem bem maiores do que na verdade são. Outras são tão bem articuladas que podem transformar ofensas em elogios. 

Algumas palavras são simplesmente vazias. E mesmo assim, contruímos castelos em cima delas. Como separar joio do trigo? Entre o que eu ouço e o que eu leio, eu fico com o que ainda não fomos capazes de verbalizar...


8 comentários:

Anônimo disse...

Texto simplesmente fascinante!...Infelizmente, as palavras são usadas de maneira banal. As pessoas dizem algo e esperam o retorno (já fiz isso tb), falamos para sermos aceitos em gupos, empresas etc. As palavras estão sendo escarradas...que pena!
O sentir,talvez, seja a melhor maneira (verdadeira) de falar algo. Como vc disse: "(...)eu fico com o que ainda não fomos capazes de verbalizar..."
De maneira natural, em um toque sutil, em um olhar cheio de ternura e pq não dizer até no que o silêncio diz...
"Depois do silêncio, o que mais se aproxima de expressar o inexprimível é a música" (Aldous Huxley). Grande abraço Srtª Escarlate.

Anônimo disse...

Ah, só para complementar com uma frase de minha amada Clarice:
"Há um silêncio dentro de mim. E esse silêncio tem sido a fonte de minhas palavras." Clarice Lispector

Lu Vieira disse...

Parabéns pelo texto, Flávia! De fato, muitas vezes somos falsas. Uma das perguntas que mais ouço e virou uma frase automática é: "Tudo bem?" E eu respondo automaticamente: "Tudo bem." Menti várias, pois eu não estava nada bem, ou me sentia péssima, ou um lixo. No entanto, minto menos se alguém faz essa pergunta via e-mail ou MSN.

Flávia Escarlate disse...

Obrigada, Lu! O "tudo bem?" não é falso, é automático. É uma convenção. São consideraras educadas as pessoas que se encontram e se cumprimentam - beijo no rosto, tapinha na costas, abraço e o célebre "tudo bem?" (ou uma de suas variações). Também já respondi muito "estou bem" não estando. São consideradas chatas as pessoas que respondem tais perguntas irrespondíveis com qualquer história, mesmo que esta seja alegre. Triste então! Interessante o que vc falou sobre a internet. Essa possibilidade de nos desmascarar que ela tem é incrível. Uma máquina e um mecanismo inventado pra guerra... incrível, não?
Obrigada pela presença aqui! Beijos escarlates!

Flávia Escarlate disse...

Anônimo, obrigada pela constante presença no Escarlate. Da próxima vez, convido-o a comparecer aqui sem quaisquer receios ou máscaras. Beijos!

Anônimo disse...

Receio?..pode ser.
Máscaras?...imagina!
Pode deixar que, em uma próxima oportunidade, estarei "dando as caras". Agradeço o convite, Srtª Escarlate!
PS: Faço o mesmo convite a você...

Gabrielle Avelar disse...

Nem sei o que dizer de tanto que esse texto se encaixa em mim. Nas minhas razões, nas minhas convicções.
Muitas vezes calo minhas palavras pelo simples fato de que as convenções sociais me obrigam por diversas razões. E assim a vida segue.
Muitas vezes sinto-me mal. Outras tantas sequer me dou conta do que se passa.
E outras ainda, eu derramo o que quero. Assim, como se as palavras fossem água que lavam tudo de ruim - ou de bom - que há em mim.
Beijo, minha querida... Aos poucos, acho que volto à vida das palavras que habitam em mim.

Eliana disse...

Eu também. Sou contra o desperdício de palavras. Cravo o verbo na alma!