5 de mai de 2011

Parcialidade ou bom senso?


Hoje criamos um pequeno embate em nosso querido e aconchegante ambiente de trabalho. Mas foi tão saudável e pacífico quanto o próprio. Minha colega de produção (a quem devo bastante por ser a melhor companheira de produção que já tive) e eu discutíamos sobre levar ou não levar alguém do movimento gay no programa para fomentar a questão do casamento homoafetivo, com base na votação do Supremo Tribunal Federal - manchete nacional hoje.

Ela acredita que isso seria parcial de nossa parte, enquanto veículo de comunicação. O correto seria levar um não homossexual para discutir o assunto. Ok. Eu até concordo, a mídia deve ser imparcial. Mas não é. E não é somente porque não quer ser. O fato é que imparcialidade não existe. Em profissão alguma e principalmente na comunicação. 

Então, se é assim... suponhamos que estivesse sendo votada alguma decisão que favorecesse a igualdade racial. Algum sistema de cotas (apesar de que esse exemplo pode ser ainda mais polêmico... tá, esquece esse exemplo!), uma lei que proibisse um determinado tipo de comportamento, enfim. Significa dizer que a gente também não poderia dar voz a alguém do movimento negro?! Qual a diferença? Ela defendeu, não sei se para ser coerente, que agíssemos da mesma forma. 


E esse foi apenas o argumento número 1.

Argumento número 2: apesar de algumas características, nosso programa não é jornalístico. Quase nunca ouvimos os dois lados de um fato, afinal é uma mesa redonda na qual são debatidos três assuntos diferentes - portanto, uma pessoa só para cada um. São permitidos juízos de valor, como adjetivos, opiniões, etc. Portanto, não seria esse um argumento plausível para não defender um único lado de uma questão, já que de uma certa forma o fazemos diariamente.

E para finalizar gostaria de compartilhar um argumento que acabei não utilizando na hora (sempre pensamos só depois no que poderia te sido dito):

Na simples escolha de uma imagem, um audio ou de uma frase estamos dando luz a uma realidade específica, única e deixando de lado outras tantas. O nome disso é edição. Até o próprio ato de falar é uma parcialidade. Afinal, é um processo de escolha de palavras, certo? Então, o que fazer? Descredibilizar a imprensa? Não. Aos amigos de profissão, a lição que um querido professor me ensinou: "Se a escolha é inevitável - de uma realidade em prol de outra - seguir o que nosso coração nos diz que é certo. Por mais que você já saia da redação treinado para dizer exatamente o que o dono do veículo quer ouvir / ler (o que é muito comum em empresas privadas), faça-o da maneira menos pior e mais digna possível.Tipo, se precisar muito daquele emprego e nunca por vestir a camisa da empresa."

Somos uma TV Educativa, de conteúdo diferenciado. Por que não dar voz a um grupo de pessoas que já foram tão excluídas e agora lutam a favor de igualdade?

Ainda bem que, diferente da unanimidade no Supremo, ela foi voto vencido e vamos levar na próxima segunda-feira uma pessoa do movimento no programa.

2 comentários:

:. Peron .: disse...

Por que não dar a voz aos dois lados?

Flávia Escarlate disse...

Cara Peron, o certo é dar voz aos dois lados. Isso é JORNALISMO. Porém, não se trata de uma matéria - como disse em meu texto - na qual é possível entrevistar duas, três, quatro pessoas sobre um mesmo assunto. O programa que produzimos tem o seguinte formato: 3 pautas diferentes e UM ENTREVISTADO para cada uma delas. Escolhemos sempre uma pessoa para discutir um, assunto e é permitido fazer juízo de valor. Entende? Não é JORNALÍTICO, apesar de algumas características. :)
Mas o certo para o jornalismo é, sim, dar voz aos diversos lados de uma questão.