29 de abr de 2010

Art nouveau da vida


Estranho. Incomum. Tudo mudou e eu estou aqui, seguindo a maré. Sem medo de cair do barco ou de ser levada para algum lugar distante, desconhecido. Aprendi a navegar, finalmente.

Local de trabalho, família, amigos, relação. Não sei. Tudo é o mesmo de sempre, mas me parece diferente. Um mês no emprego novo, quase dois de separação, alguns amigos se afastaram (naturalmente), outros muito especiais surgiram, entrei em contato com outros de antigos carnavais. 

Mudança de rotina, de vida. Novas cores. Não sei até que ponto (des)gosto disso. Sempre tive muita dificuldade em enfrentar coisas novas, virar a página. Acontece que, dessa vez, a questão não é a novidade (até porque o processo, que já foi vivido, trouxe coisas boas e ruins) e sim como estou lidando com ela. Aliás... isso é surpreendente: eu estou lidando com ela! Milagre. Ou amadurecimento? 

Até o simples fato de estar abrindo um pouco minha vida aqui já me faz uma pessoa diferente. Não tenho mais pavor de julgamentos. Muito pelo contrário, os prefiro ao invés do venenoso silêncio de alguns. 

Ainda sou discretíssima, mas não mais por vergonha de me expor. Ontem, na sala de espera do hospital, discuti com um rapaz desconhecido por achar que ele estava errado. (ele chegou depois com a namorada e só porque conseguiu pegar a primeira senha - na nossa frente - queria que ela fosse logo atendida). Me surpreendi quando levantei da cadeira onde eu pacientemente (mentira! já balançava os pés de raiva) aguardava minha vez e fui até o rapaz, olhei bem nos olhos dele e comecei a discussão. Falei, mesmo sentindo meu sangue ferver, minhas mãos geladas e o coração palpitando de raiva, nervoso, sei lá o que. Só ouvia a voz de fundo do papai: "Filha, te acalma. Já resolvi tudo na diplomacia". Logo eu que preferia voltar pra casa com o desaforo a abrir a boca. 

Nunca mais tive tempo (ou inspiração) para escrever minhas crônicas. Agora escrevo todos os dias uma pauta diferente, pro trabalho. Quando tenho tempo, escrevo e-mails e comento em blogs. Ultimamente é o máximo que tenho feito em termos de escrita. Sinto falta de como era minha vida há algum tempo? Em partes. A rotina era mais leve, porém menos divertida. Menos cansativa, porém menos gratificante também. 

Quero algumas coisas de volta ("e sonhos não envelhecem..."). Com relação a outras, foi bom tê-las tido, somente. Não encaixariam mais. No mais, é bom saber que as coisas mudam e eu já consigo lidar com isso - sem noiar.
Ciclos que abrem e fecham, constantemente, em nossas vidas. Idéias que surgem, planos, metas alcançadas. Amor, trabalho, família, amigos, investimento, saúde, prazer, diversão. Muita coisa pra administrar, todas em constante movimento - como vários cataventos girando nas mãos de uma criança. Cada um com uma velocidade, tamanho e cor diferente. Exatamente como a vida.

12 comentários:

Sammyra Santana disse...

Flavinha, que bom amadurecer, né?
Eu tô precisando tomar um chazinho de amadurecimento tb, rs!
E adorei q vc discutiu com o tal rapaz, é das minhas! hahahahaha eu não consigo ver uma coisa errada e ficar calada não! Falo mesmo!
e eu amei a imagem desse post, dá vontade de morar nesse lugarzinho cheio de cataventos, rs!
beijo

Lis. disse...

Eu acho muito legal que você esteja se encontrando Flávia, pois te considero discernida demais para não ter o melhor do melhor que a vida pode lhe oferecer.

Imagino que deve ser apenas uma questão de tempo e passado esse tempo de localização e pressão diante das mudanças você estará muito bem. E depois é bom lembrar-te que as pessoas tem medo de tudo o que se expande.

Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem.

Bertolt Brecht.

Flávia Escarlate disse...

Sammyra, eu não era assim (barraqueira *rs), mas a vida me ensinou a lutar pelo que acho certo. O cara ainda argumentou: "estou aqui desde segunda feira!" (detalhe, estávamos na 4a!). Eu senti meu rosto fumaçar nessa hora e perguntei: "Vc por um acaso dormiu aqui?" e ele: "Não..."
Enfim, estresses à parte, eu também queria morar num lugar assim, cheio de cataventos! Eles me representam paz, harmonia, em meio a tantas cores vivas e em movimento. beijinhos! :)

Flávia Escarlate disse...

Lis, obrigada pelo "discernida". Bom saber que me pintam dessa forma. É o mais busco, equilíbrio físico e mental. É verdade, as pessoas tem medo do novo e complemento: "crescer dói". Adorei a frase de Bertolt Brecht! Violentas são as margens que o comprimem. Porém, por sempre ter sido assim, ninguém questiona. Obrigada pelos comentários que sempre acrescentam algo positivo. Beijos

Lis. disse...

Eu acho que a mulher hoje Flávia mais do que nunca deve deixar a passividade de antigamente de lado, e ser mais atuante nem que seja preciso ser barraqueira, porém se o for, que seja com a classe e a postura de uma grande dama, permanecendo altiva em cima do invejado alto salto.

Dom Rafa disse...

Que bom que você está, de certa forma, satisfeita com e se adaptando às mudanças na sua vida. Que elas venham pra o bem! =) Beijos!

Eliana disse...

"Meu catavento tem dentro o que há do lado de fora do teu girassol..."
Quando lhe disse a primeira vez que crescer doía, você chorou no meu colo, lembra!? Eu, sim. Você tinha um monte de espinhas no rosto, um guarda-roupa cheio de roupa rosa e morava num castelo". Chegou a sua vez de abandonar a época da inocência. O melhor disso é que é bom do mesmo jeito. Cada fase da vida nos revela dificuldades e prazeres que são só delas. E você, pouco a pouco, vai descobrindo isso.
E vivendo. E amadurecendo. E vivendo...

Sara disse...

Adorei texto, as coisas modificaram muito e seu tempo fica cada vez mais curto, mas o melhor de tudo deixe vivo bem no fundo do peito OS SONHOS...saiba que fazes parte da alegria de outras pessoas, inclusive minha, conserve as belas cores que enxergamos camufladas nesse escarlate todo...brevemente novas palavras...beijinhos

Claudiana disse...

"A vida vem em ondas como o mar, num indo e vindo infinito...tudo muda o tempo todo no mundo" E como é bom navegar!
Beijinhos letrados, flavitcha!

Lu Vieira disse...

Apesar de não ter mais tempo para escrever as crônicas aqui, você fez um belo texto neste espaço. É muito bom quando começamos a lidar com a nossa vida, deixando de lado a timidez ou a passividade. A vida fica mais dinâmica e conseguimos ganhar experiência. Ganhar amadurecimento, para mim, é o mesmo que ganhar equilíbrio emocional. Não há amadurecimento ou equilíbrio na vida se não pararmos para pensar em nossas ações e no que acontece ao nosso redor. Então, desejo a você sucesso a cada ciclo ou mudança na sua vida. Beijos!

Sammyra Santana disse...

huahauahuahauahuahauahuahauhau
eu fico quietinha, mas se vejo coisa errada, falo mesmo!
em fila de banco então... adoro ficar catando os idosos e mandando tudo lá pra frente! é direito deles, né? e tem uns, tadinhos, que não querem ir pq tem medo do povo achar ruim. aí eu pego pela mão e levo e digo: quem vier brigar com os senhores manda vir brigar comigo, oras! kkkkkkkkkkkkkkkkk
eu sou zuadenta mesmo! :P
Beijo

Lis. disse...

Olá Flávia...

Venho em resposta ao seu comentário apenas dizer-lhe que também quero em paralelo as mesmas coisas simples que tens, que valoriza, e que as tenho.

A verdade é que nunca foi problema ser simples, e sim conviver com a maioria das pessoas que nos cercam. Você já deve ter visto que há muitos momentos em que fica difícil se fazer entender. É algo como quem fala português corretamente e o outro fala japonês. Aquele seu lance do hospital exemplifica bem isso...

Infelizmente qualquer pessoa que almeja suspender o seu nível de conhecimento, que passa a estudar além do que os outros pararam, termina por afastar-se da maioria das pessoas.

O fato se dá ao adquirirmos consciência mais larga, mais abrangente, e dessa forma passamos a enxergar com mais clareza a indole de cada um. E certo é que a solidão passa automaticamente a fazer parte integrante do cardápio.

Apenas por defender-se se faz necessário entrar nas complicações, não porque você as queira, mas porque a maioria das pessoas perderam durante o processo de crescimento aquela antiga beleza e simplicidade original da infância ao permitirem-se contaminar pelas mazelas do mundo.

Boa semana à ti Flávia.