26 de jan de 2010

Crenças



Desde cedo cremos em muitas coisas. A crença (seja ela ideológica, partidária, com ou sem sentido) é fruto da inteligência humana, que nos diferencia dos outros animais. Como já dizia Descartes: "Penso, logo existo". Tudo bem, ele exagerou no conceito de existência (ou vegetais não seriam seres vivos?), mas de fato, com toda soberba que me é devida, somos um existir especial, alimentado não apenas orgânica, mas também intelectualmente.


A criança crê nos pais e cada vez mais na televisão. Em contrapartida, está deixando de acreditar em Bicho-Papão, Coelhinho da Páscoa e Papai Noel. Adultos crêem em Deus. Bom, alguns. Outros crêem em forças superiores, na natureza. Certas pessoas crêem no poder, na fama, no dinheiro e na política. Há quem acredite em tudo isso ao mesmo tempo.


Homens costumam crer em time de futebol. Mulheres na cirurgia plástica, idosos na vida após a morte. Românticos, em almas gêmeas. Céticos seguem o lema de Sócrates: "Só sei que nada sei". A ufologia, em ET's. Egocêntricos, em si próprios. Fanáticos, por crerem demais, acabam se limitando em uma crença só.


Cristãos, mulçumanos e judeus acreditam na Sagrada Jerusalém. Enquanto usufruímos da carne e do leite bovino, na Índia a vaca é idolatrada. Judeus só se casam com judeus. Testemunhas de Jeová não fazem transfusão sanguínea. Católicos fazem o sinal da cruz. Maçons compartilham segredos e um toque de mão especial. Satanistas acreditam em Deus, mas seguem o diabo. Homens-bomba matam e morrem pela salvação eterna.


A ciência crê na religião. A religião crê na ciência, mas acha que estamos indo rápido demais com ela. Anarquistas não crêem no Estado. Evangélicos não crêem em santos. Políticos aceitam qualquer crença, contanto que renda votos. Empresários costumam crer na propaganda. A propaganda, por sua vez, crê na imagem. A imagem crê na interpretação. A interpretação crê na inteligência e no conhecimento prévio, que crêem em todas as boas fontes de informação, que crêem na infraestrutura básica, que crê no governo, no qual ninguém mais crê - desde que ele começou a crer no capitalismo.


Eu creio no amor não-clichê. Na multiplicidade cultural. Na opinião própria, mas principalmente numa esporádica mudança dela. Creio em instinto materno, em sonhos como mensageiros importantes. Não gostaria, mas acredito em fantasmas, macumba, em perversidade e no apocalípse (não necessariamente o bíblico). Creio na santa trindade, na supremacia do bem sobre o mal, no otimismo e na amizade. Acredito na medicina, em academia, na psicologia, na revolução e na caretice.


Somos em essência pele, carne, osso e... crenças. Crença é a tentativa desefreada da nossa mente de nos manter sãos. Arrisco-me a dizer que vivemos em função dela. Estudamos na crença de arranjar um bom emprego. Trabalhamos na crença de uma vida melhor. Amamos na crença de encontrar o parceiro ideal. Vivemos uma busca infinita pela felicidade a qual só nos é possível porque cremos. Talvez algumas crenças sejam falsas (e algumas, de fato, o são). Mas, sem dúvida, elas colaboram na preservação da espécie humana e mantêm o equilíbrio. Elas alimentam, protegem e guiam em meio ao emaranhado de idéias que é o cérebro humano.

6 comentários:

Sara disse...

Olá Escarlate, adorei o recadinho, és uma querida...quanto ao texto: simplesmente autêntico.
De fato tem aí muita informação. O difícil foi concluir que sou uma egocêntrica, rsrsrs, ou vivo da crença de que sou, sei lá...Mas como sempre adoro ler a sua maneira de ver as coisas...
beijos

Claudiana disse...

Como linguista eu creio da tua capacidade interpretativa e de produção textual, que sempre nos presenteia com tuas ideias necessárias e bem colocadas. Creio na tua amizade e carinho como um ser especial que precisa continuar manifestando suas crenças publicamente, pra que todos tenham a oportunidade de ler coisas interessantes.
Beijos e queijos.
P.S: esse é meu texto favorito! Ele é impecável.

Lis. disse...

Olá Flávia...

Eu te vejo literalmente perfeita, perfeita em suas colocações e na forma de verbalizá-las. A única lastima que tenho é entender que vivemos num país de tão pouca expansão da intelectualidade e consequentemente interesse pela leitura.

Passei à gostar do que escreves apenas pelo seu modo próprio de lidar com palavras, percebendo que sobretudo és um ser altamente pensante.

A grande diferença de acreditar ou crer está no que há de proveitoso dentro da mente de cada induviduo. A composição da intelectualidade representa papel importante quanto ao poder de discernimento.

E lembrei -tocando neste complexo assunto- de um video bastante sensível porém real e verdadeiro, do que é na verdade a espécie humana. Não sei se teve oportunidade de vê-lo, mas se não viu valerá a pena...

http://www.youtube.com/watch?v=m89rYW0epTs

Cumprimentos à ti, Flávia.

Dom Rafa disse...

Ah... O que dizer? Adoro pensar em crenças, adorei o texto e adorei suas crenças! =)

:. Peron .: disse...

"Crença é a tentativa desefreada da nossa mente de nos manter sãos"

Quando vemos alguém que não cuida de si, que não vai a lugar algum, que não lê, que não toma seus remédios, que não tem expectativa de vida, logo dizemos que essa pessoa não crê em nada, nem em si. É de fato a crença que nos motiva. A crença em que estudando, se especializando temos a possibilidade de termos o melhor emprego do mundo para termos a melhor vida. Quando tratamos alguém bem, e só fazemos o bem, acreditamos que vamos pro céu. Tudo gira em torno do que acreditamos, e quando algo acontece e nos decepciona nos tornamos descrentes, então, tudo que tinha-mos muda, ou pra pior, ou pra melhor. Como quem perde tudo inclusive a familia, dá a volta por cima, e volta melhor do que era. O que motivou? Uma nova crença. E assim vamos nos movendo.

beijos.

Lu Vieira disse...

Excelente texto! Para mim, a crença anda de mãos dadas com a esperança. Eu creio que você é uma boa escritora e vai se dar bem com a escrita seja no emprego ou em qualquer situação da sua vida como agora que é escrever no blog. Beijos!