4 de dez de 2009

Medo da Eternidade




















Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade.


Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.

Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:

- Como não acaba? - Parei um instante na rua, perplexa.

- Não acaba nunca, e pronto.

- Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois, só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta.

- Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.

- E agora que é que eu faço? - Perguntei para não errar no ritual que certamente deveira haver.

- Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.

- Perder a eternidade? Nunca.

O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-nos para a escola.

- Acabou-se o docinho. E agora?

- Agora mastigue para sempre.

Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de medo, como se tem diante da idéia de eternidade ou de infinito.

Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso, eu mastigava obedientemente, sem parar.

Até que não suportei mais, e, atrevessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair no chão de areia.

- Olha só o que me aconteceu! - Disse eu em fingidos espanto e tristeza. - Agora não posso mastigar mais! A bala acabou!

- Já lhe disse - repetiu minha irmã - que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.

Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara dizendo que o chicle caíra na boca por acaso.

Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.

.::Clarice Lispector::.

8 comentários:

Escarlate disse...

Esse conto é especial pra mim, pois descreve de forma inocente e cotidiana o pavor que também tenho de tudo que é eterno.

Sara disse...

Simplesmente lindo. Clarice consegue escrever de maneira simples e objetiva, transformando a leitura em magia, gosto muito!!!!
O que dizer sobre o eterno, o para sempre???
Nada, pois no segundo seguinte tudo mudou...e como diz a canção: "o para SEMPRE, SEMPRE acaba...."
beijinhos e bom fim de semana...

Dom Rafa disse...

Sabe que eu nunca pensei nisso? O chiclete nunca acaba. E também nunca me ocorreu chupar até acabar-lhe o doce e nem grudar na cama pro dia seguinte. Nem deixar cair no chão por acidente. Acho que nunca dei ao chiclete o valor que ele merecia, coitado...

L.S. Alves disse...

Eu já estava pronto pra me ajoelhar e dizer que tu eras um grande escritora quando cheguei ao fim do texto e dei de cara com o nome da Clarice. Obrigado por compartilhar. Esse texto é ótimo mesmo.
Um abraço moça.

Escarlate disse...

Dom Rafa: A Clarice tinha esse dom de pegar o que é simples, o que passa despercebido e transformar em algo extarordinário. Depois que li esse conto, o chiclete não foi mais o mesmo pra mim. :)

Escarlate disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Escarlate disse...

L.S. Alves: Essa foi a idéia de colocar o nome da Clarice por último...rs
Brincadeira. Na verdade, por dois motivos. É bom não ter a expectativa de se estar lendo aldo do "fulano de tal". Evita possíveis frustrações ou pensamentos tendenciosos. Também porque, alguns conseguem reconhecer o autor favorito logo nas primeiras linhas e - para esses - não perderia a graça da descoberta. Quem bom que gostou do texto. É um dos meus favoritos!:)

Gabi disse...

Flávia querida, quem nunca fingiu perder uma chiclete por medo da eternidade que atire a 1ª pedra. A verdade é que tudo o que parece eterno assusta... Doce Clarice, como me identifico com o que escreve, quantas chicletes já fingi perder talvez não por medo da eternidade, mas por medo de perder o eterno. Simplesmente fantástica, ela. AQUELE BEIJÃO ESPECIALÍSSIMO DE TODOSOSDIAS.