7 de mai de 2009

Poesia Matemática - Millôr Fernandes

Às folhas tantas do livro matemático um quociente apaixonou-se um dia, doidamente, por uma incógnita. Olhou-a com seu olhar inumerável e viu-a, do ápice à base. Uma figura ímpar; Olhos rombóides, boca trapezóide, corpo otogonal, seios esferóides. Fez da sua uma vida paralela a dela, até que se encontraram no infinito. "Quem és tu?" indagou ele, com ânsia radical. "Sou a soma dos quadrados dos catetos. Mas pode me chamar de Hipotenusa." E de falarem descobriram que eram - o que, em aritmética, corresponde a almas irmãs - primos-entre-si. E assim se amaram ao quadrado da velocidade da luz Numa sexta potenciação, traçando, ao sabor do momento e da paixão, retas, curvas, círculos e linhas sinoidais. Escandalizaram os ortodoxos das fórmulas euclideanas e os exegetas do universo finito. Romperam convenções newtonianas e pitagóricas. E, enfim, resolveram se casar, constituir um lar. Mais que um lar, uma perpendicular. Convidaram para padrinhos o Poliedro e a Bissetriz. E fizeram planos, equações e diagramas para o futuro, sonhando com uma felicidade integral e diferencial. E se casaram e tiveram uma secante e três cones muito engraçadinhos. E foram felizes até aquele dia em que tudo, afinal, vira monotonia. Foi então que surgiu o Máximo Divisor Comum, freqüentador de círculos concêntricos. Viciosos. Ofereceu-lhe, a ela, uma grandeza absoluta e reduziu-a a um denominador comum. Ele, quociente, percebeu que com ela não formava mais um todo, uma unidade. Era o triângulo, tanto chamado amoroso. Desse problema ela era a fração mais ordinária. Mas foi então que o Einstein descobriu a Relatividade e tudo que era expúrio passou a ser moralidade. Como, aliás, em qualquer sociedade.

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