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Esta ainda não é a versão final

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Minha intensidade sempre gritou  e teve uma época em que eu não tinha escolha  a não ser ouvir Vivia cada dia como se fosse o último Aspirava o ar das calçadas lotadas de gente vazia E de algum modo aquilo me preenchia Costumava sorver até a última gota de vida, de álcool, de suor e tudo que se liquefizesse Num desespero de sentir sempre mais Entre bares, pessoas, lugares E uma infinidade de sentimentos Eu me achava E me perdia Perdia a hora, a cabeça, a razão Perdia a noção Perdia a chance, a vergonha, a certeza Perdia a mão Quando decidi que não mais me permitiria A vida entrou nos trilhos Mas alguma coisa em mim descarrilhou Pra sobreviver, inventei uma outra versão de mim Uma que não dá defeito Só satisfação Não troca a noite pelo dia Não perde a hora, a cabeça, a razão  Não perde a noção Não perde a chance, a vergonha, a certeza Não perde a mão Mas o excesso de lucidez me levou pra onde eu não mais me encontro Vivo em algum lugar entre o que fui e o que gostaria de s...

Mãos para o alto, isso é uma memória!

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Hoje eu fui completamente tomada pelo que eu chamaria de "memória assaltante". Funciona mais ou menos assim: você está compenetrado em alguma atividade de trabalho ou, sei lá, fazendo qualquer outra coisa aleatória como ler um livro ou aguardar o semáforo abrir. Daí, simplesmente do nada, você é sugado para dentro de alguma realidade distante e recupera imagens, sons e até cheiros! Lembranças de tempos longínquos que já nem sabia que existiam. É como se alguém abrisse a tampa de alguma caixinha de sua memória, sabe? Comecei a ter esse tipo de experiência (pelo menos, a notar que tenho) há mais ou menos uns 2 anos, depois que iniciei meu processo de análise. Da primeira vez, recordei, do nada, que já havia pilotado uma moto. Ponto final na frase, que antes tinha uma vírgula por motivos de demonstrar que só essa informação pra mim já é demais. Só que não parou por aí: eu não usei capacete e - pior ainda - nunca tive habilitação. Salvo engano, fiz aquilo mais de uma vez. Sempre ...

A Escritora Genial

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Fui profundamente e irreversivelmente atravessada por uma leitura - não me resta, portanto, outra alternativa senão escrever sobre ela. É neste momento que você que me conhece começa a revirar os olhos. Sim, estou novamente falando da Elena Ferrante (🫣). Mais especificamente, da tetralogia napolitana iniciada com "A amiga genial". É que ela simplesmente dividiu meu mundo literário em antes e depois dela. 🤯🧠🖋📚💛 Li algumas resenhas no Skoob sobre a obra e me impressiona como alguns leitores conseguem reduzi-la a uma amizade tóxica entre duas amigas. Me parece injusto inclusive com elas. Tudo bem que o vínculo de Lila e Lenu é notadamente o eixo central da narrativa, mas vai muito além dele. Ferrante constrói, através da perspectiva da Lenu, um universo repleto de camadas emocionais, sociais, existenciais, políticas, filosóficas e psicanalíticas. Sinceramente: como ela consegue? Não é papo de fã. Posso constatar a genialidade da autora com mais segurança agora, tendo termi...

Diversão – A etimologia e no que eles a transformaram

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Hoje eu escutava um audiolivro (um de meus hiperfocos do momento) quando parei (simplesmente fiquei travada) numa informação: a etimologia da palavra “diversão” — do latim diversio , diversiones , que significa “mudança de direção” ou “afastamento”. Achei, no mínimo, inusitada essa associação entre a palavra e seu significado primeiro, digamos. Então quer dizer que divertir-se carrega o sentido oculto (sim, hoje definitivamente oculto — e até suspeito que a culpa disso seja o famigerado capeta lismo...) de virar para o outro lado ou desviar. Vou mais longe: então todas as vezes que eu ou você mudamos de ideia, de rota, de profissão, de emprego, enfim, fugimos de qualquer caminho supostamente reto ( ad infinitum ), estamos nos divertindo? Curioso. Incrível. Acredito que tal entendimento tenha me atravessado por reconhecer que, ao longo de 41 anos, mudei e continuo mudando muito de ideia, de direção, até de cidade, estado, de planos, etc.  Me incomodou um pouco, confesso, que a socie...

EscreVER

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Hoje eu caminhava por uma avenida lotada, ouvindo uma música suave nos fones. Chovia poeticamente. E isso me fez voar dali para qualquer outro lugar onde eu pudesse realmente sentir. Quando parei para atravessar a rua, a música me tocou de um jeito diferente e eu me arrepiei. Alguma coisa molhou minha perna direita e, por um segundo, pensei: é isso que é estar viva? Isso é... vida! Pessoas andando como zumbis. Robôs do sistema. Existindo sem sentir. Sentindo sem perceber. Enquanto algumas, como eu, sentem tudo. Por todo mundo. Por tudo. É como se o mundo pudesse nos rasgar por dentro. (E às vezes ele realmente rasga.) Acho que gente como nós acaba virando um tipo de catalisador de emoções, "tradutor de sentimentos" A sociedade costuma nos chamar de escritores O pior tipo de gente aquele que não consegue ver de forma simples como a maioria  Porque nada é "só o que é". Um rio nunca é só um rio Uma árvore nunca é só uma árvore. Nós vemos além. E talvez a nossa respo...

Causo de ônibus

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Eu estava no Dona Wanda das 6h15. Sim, esse é o nome da linha de ônibus. Aqui em Santa Catarina eles adoram dar nomes de gente pras coisas. Tem o Dona Adélia, a padaria Vó Bia, o comércio do Seu Nascimento, o Sacolão do Renato… vixe, a lista é grande — mas a história é outra. Seguia para o trabalho e, apesar de ainda estar mais dormindo que acordada, senti o habitual nojinho das barras do ônibus. Aproveitei que o motorista tinha parado para ajudar a embarcar uma cadeirante e resolvi dar uma limpada nas mãos antes de voltar a segurar naquele condomínio de bactérias. Puxei da mochila meu mini–refil de álcool líquido (mais fácil de repor que o gel) e virei para o lado do corredor, onde não havia ninguém perto o suficiente para se incomodar. Só não esperava que, à minha direita, uma senhora loira de uns 60 anos começasse a tossir. “Cof, cof, COF!”, ela insistia, teatral, enquanto todas as janelas estavam escancaradas por causa do calorão da alta temporada. Num primeiro momento, nem passou ...

A porta

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Foi em meio ao tédio de um dia totalmente ordinário, que minha mente - sempre furtiva e inquieta - me pregou uma peça. Pelo menos era isso que eu pensava. Primeiro tive uma visão bastante aleatória, quase como uma lembrança, dessas que nos tomam assim de repente. Era uma porta. Aberta. Com uma riqueza de detalhes tamanha que senti vontade de desenhá-la. Mas eu nunca havia sido do desenho. Era das letras. Escritora amadora, mas raiz, dessas que costumam carregar consigo caneta e bloquinho. Aliás, como eu era cuidadora de idosos, frequentemente me sobrava tempo para escrever, quando eles pegavam no sono. Naquela noite, entretanto, o meu foco era uma vontade incontrolável de contornar, preencher, colorir. Me senti novamente com 8 anos de idade, na época de comprar material escolar. Dona Orlandina, uma simpática senhorinha de 87 anos de quem eu cuidava, tinha acabado de se recolher. Fui até a porta de seu quarto, dando uma rápida espiada para ver se estava tudo bem e segui pelo comprido co...