30 de ago. de 2026

Esta ainda não é a versão final


Minha intensidade sempre gritou 

e teve uma época em que eu não tinha escolha 

a não ser ouvir

Vivia cada dia como se fosse o último

Aspirava o ar das calçadas lotadas de gente vazia

E de algum modo aquilo me preenchia


Costumava sorver até a última gota

de vida, de álcool, de suor

e tudo que se liquefizesse

Num desespero de sentir sempre mais


Entre bares, pessoas, lugares

E uma infinidade de sentimentos

Eu me achava

E me perdia

Perdia a hora, a cabeça, a razão

Perdia a noção

Perdia a chance, a vergonha, a certeza

Perdia a mão


Quando decidi que não mais me permitiria

A vida entrou nos trilhos

Mas alguma coisa em mim descarrilhou

Pra sobreviver, inventei uma outra versão de mim

Uma que não dá defeito

Só satisfação

Não troca a noite pelo dia

Não perde a hora, a cabeça, a razão 

Não perde a noção

Não perde a chance, a vergonha, a certeza

Não perde a mão


Mas o excesso de lucidez me levou pra onde

eu não mais me encontro

Vivo em algum lugar

entre o que fui e o que gostaria de ser

E sinto que essa ainda não é a versão final 

Alice, ainda não achei a porta!

e o coelho ainda corre sem saber pra onde ir...


Existe uma beleza estranha no inacabado, no imperfeito

Talvez eu tenha passado tempo demais

tentando me tornar alguém que não desse trabalho

e tenha esquecido

como era ser alguém que... sentia!

Então procuro meu eu

Reabro portas

Recolho pedaços

Quero acordar o que adormeceu

Quero juntar as peças do meu quebra-cabeça

Não pra voltar à versão anterior

Mas para que esta nova cresça

"Sistema atualizado com sucesso"


Afinal, quem eu sou?

Quando não preciso mais escolher

Entre o excesso e o controle

Entre o que quero

E o que esperam de mim?


Onde eu fui parar?

3 de jul. de 2026

Mãos para o alto, isso é uma memória!


Hoje eu fui completamente tomada pelo que eu chamaria de "memória assaltante". Funciona mais ou menos assim: você está compenetrado em alguma atividade de trabalho ou, sei lá, fazendo qualquer outra coisa aleatória como ler um livro ou aguardar o semáforo abrir. Daí, simplesmente do nada, você é sugado para dentro de alguma realidade distante e recupera imagens, sons e até cheiros! Lembranças de tempos longínquos que já nem sabia que existiam. É como se alguém abrisse a tampa de alguma caixinha de sua memória, sabe?

Comecei a ter esse tipo de experiência (pelo menos, a notar que tenho) há mais ou menos uns 2 anos, depois que iniciei meu processo de análise. Da primeira vez, recordei, do nada, que já havia pilotado uma moto. Ponto final na frase, que antes tinha uma vírgula por motivos de demonstrar que só essa informação pra mim já é demais. Só que não parou por aí: eu não usei capacete e - pior ainda - nunca tive habilitação.

Salvo engano, fiz aquilo mais de uma vez. Sempre em período de férias, com uma ex aventureira e um grupo de amigas em comum que nos acompanhavam em quase todas as nossas loucuras. Mas não me julgue tão fácil. Se na capital (Belém) já é comum ver motociclistas sem capacete, imagina numa cidade do interior do Pará! 

Fico chocada quando penso em tudo que já tive coragem de fazer. Logo eu que hoje nem atravesso a rua fora da faixa de pedestres 😅. Parece que foi em outra encarnação...rs

Hoje, agora pouco na verdade, simplesmente me vi de novo descendo de um ônibus na frente da Praça do Relógio, em Belém, com uma roupa naquela época ainda bem patricinha (eu era bem novinha e meu guarda-roupa se dividia entre peças pretas e cor de rosa). Saltava do transporte público sentindo o característico cheiro de peixe, caminhava até o Banco Sudameris, meu primeiro emprego, trabalhava até o meio-dia, almoçava comidas típicas no centro da cidade (normalmente, maniçoba ou vatapá...), depois trabalhava até às 16h ou 17h (agora não me recordo) e voltava pra casa.

Não sei como essas memórias ficam guardadas por tanto tempo e, de repente, um belo dia, saltam que nem pipocas estourando na panela. Me questiono que função essa lembrança teria na minha vida de hoje, eu com 41 anos, morando do outro lado do país há quase 10, sem visitar minha terra há 6.

Quem sabe a resposta não esteja no "porquê" de elas voltarem, mas... talvez... no fato de que, em algum lugar, aquela menina de Belém e essa mulher que hoje comanda a própria vida, se sustenta e "dá seus corres" nunca deixaram de ser a mesma pessoa.

A gente tende a achar que o tempo é uma linha reta, né? Como uma estrada que a gente percorre e deixa o acostamento para trás. Mas, na verdade, a gente funciona mais como um arquivo em camadas. Essas "memórias assaltantes" são apenas o subconsciente nos lembrando que nada do que vivemos é descartável.

A Flavinha, que batia ponto no Sudameris com o cheiro de peixe e a visualização de sua terra natal in natura, não morreu; ela só se tornou o alicerce invisível de é/sou agora.

No fundo, acho que essas lembranças chegam justamente quando a gente precisa de um lembrete de resiliência. Elas surgem sem pedir licença, como quem entra na sala sem bater, para nos mostrar que já sobrevivemos a muitas versões de nós mesmas.

Quem sabe, na correria de tentar dar conta das metas e dos editais, de buscar incessantemente um lugar ao sol, eu precise aceitar que não sou apenas a Flávia de 41 anos, proletária, concurseira, leitora (e sei lá quantas outras coisas) em Santa Catarina. Sou também a menina que pilotou aquela moto sem medo, a estagiária do banco, a jornalista que trabalhou numa TV pública, a viajante. 

Elas estão todas aqui, guardadas na mesma caixinha, esperando o momento certo de saltar como pipoca para me lembrar que, não importa o quanto o tempo passe ou que a distância aumente, a minha história é um tecido único. E, de vez em quando, é um alívio enorme descobrir que, por trás da seriedade da rotina, a gente ainda consegue ser surpreendida por versões de nós mesmas que ainda existem e estão mais vivas do que nunca.


11 de mai. de 2026

A Escritora Genial

Fui profundamente e irreversivelmente atravessada por uma leitura - não me resta, portanto, outra alternativa senão escrever sobre ela. É neste momento que você que me conhece começa a revirar os olhos. Sim, estou novamente falando da Elena Ferrante (🫣). Mais especificamente, da tetralogia napolitana iniciada com "A amiga genial". É que ela simplesmente dividiu meu mundo literário em antes e depois dela. 🤯🧠🖋📚💛

Li algumas resenhas no Skoob sobre a obra e me impressiona como alguns leitores conseguem reduzi-la a uma amizade tóxica entre duas amigas. Me parece injusto inclusive com elas. Tudo bem que o vínculo de Lila e Lenu é notadamente o eixo central da narrativa, mas vai muito além dele. Ferrante constrói, através da perspectiva da Lenu, um universo repleto de camadas emocionais, sociais, existenciais, políticas, filosóficas e psicanalíticas. Sinceramente: como ela consegue?

Não é papo de fã. Posso constatar a genialidade da autora com mais segurança agora, tendo terminado o terceiro volume e iniciando hoje o quarto e último (como vou sobreviver quando acabar?! 😫). Ler essa tetralogia é como habitar a mente de uma das protagonistas, desde a tenra infância até a vida adulta, acompanhando os acontecimentos mais marcantes e os mais cotidianos por uma perspectiva totalmente imersiva. Assistimos no camarote do córtex pré-frontal da Lenu as angústias, os prazeres, os sonhos, os devaneios, as frustrações e todas aquelas pequenas inquietações que normalmente permanecem ocultas dentro da gente.

O que mais me fascina é a forma como Ferrante transforma eventos aparentemente banais em algo profundamente humano. Adoro os micro pensamentos da Lenu, as inferências que ela faz sobre os outros personagens e, principalmente, a maneira como ela nos permite compreender sentimentos e intenções sem precisar explicá-las.

Mas, pra mim, a característica mais incrível (a que considero razão de minha maior identificação com a obra) é a 'habilidade reflexiva' da Lenu: um universo inteiro permeia a subjetividade dela (a nossa, mas são poucos os que se dão conta disso). Quantas vezes nos pegamos pensando em dizer mil coisas e, no fim, fazemos apenas um gesto qualquer, respondemos algo simples ou deixamos tudo preso dentro da cabeça? Quantas vezes sentimos tanto a ponto de não conseguir racionalizar a respeito mas narramos internamente os mínimos fatos, como se dialogassem duas (ou mais) de nós?

Me reconheço demais nisso. Sempre vivi mais dentro dos meus próprios pensamentos do que no mundo concreto e, na hora de me comunicar, sinto que exponho apenas fragmentos do que realmente existe aqui dentro. Antes dessa leitura, eu me perguntava se isso era algo só meu. A forma como o mundo me toca com tamanha intensidade que quase tudo dói, 'coça', incomoda, fere, encanta, assusta.

Também amo que a Elena não explica emoções. Isso, para mim, costuma empobrecer qualquer leitura. Ela revela o sentimento através da experiência, e cabe ao leitor senti-lo ou não. Talvez seja por isso que essa obra desperte fascínio absoluto em algumas pessoas e total indiferença em outras. E, para explicar isso melhor, volto à Clarice:

“Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato… Ou toca, ou não toca.”


P.S.: Não me zoem pela imagem que compõe este post. Sonho não se discute. 🫣

25 de mar. de 2026

Diversão – A etimologia e no que eles a transformaram

Hoje eu escutava um audiolivro (um de meus hiperfocos do momento) quando parei (simplesmente fiquei travada) numa informação: a etimologia da palavra “diversão” — do latim diversio, diversiones, que significa “mudança de direção” ou “afastamento”.

Achei, no mínimo, inusitada essa associação entre a palavra e seu significado primeiro, digamos. Então quer dizer que divertir-se carrega o sentido oculto (sim, hoje definitivamente oculto — e até suspeito que a culpa disso seja o famigerado capetalismo...) de virar para o outro lado ou desviar.

Vou mais longe: então todas as vezes que eu ou você mudamos de ideia, de rota, de profissão, de emprego, enfim, fugimos de qualquer caminho supostamente reto (ad infinitum), estamos nos divertindo? Curioso. Incrível. Acredito que tal entendimento tenha me atravessado por reconhecer que, ao longo de 41 anos, mudei e continuo mudando muito de ideia, de direção, até de cidade, estado, de planos, etc. 

Me incomodou um pouco, confesso, que a sociedade atual associe a palavra diversão a algo que remeta a experiências prazerosas (sim), de entretenimento (sim), de desconcentração e previsibilidade (aí está o ponto). Se digo a alguém “hoje vou me divertir”, o que essa pessoa entende:

(A) Vou sair, vou jogar, vou beber, vou cantar, vou ao videokê, vou ao shopping, vou a uma festa;

(B) Vou mudar de direção.

Não preciso responder o enunciado da questão, que se faz um tanto óbvia. Mas preciso entender em que momento passamos a considerar diversão como algo dispendioso, mais ao encontro de aproveitamento daquilo que já se possui (no caso, tempo e dinheiro) do que do sentido de alteração de rota, de ideia, de vida? 

Por que afastar a palavra de sua real tradução? “Ah, mas também damos importância à diversão enquanto entretenimento...” Ah, claro. “Estou trabalhando numa multinacional” certamente tem o mesmo peso que “estou indo à biblioteca” ou “aprendi a montar o cubo de Rubik”.

A verdade é que o capetalismo não quer a diversão como uma mudança de direção. Não é interessante para donos do capital que criemos asas e voemos. NÃO! Para eles, é melhor que continuemos considerando diversão como entretenimento.

Ir ao cinema, ver novela, ler um livro, jogar futebol, viajar, tudo isso requer o quê? Grana. Quem tem grana? Eles. Mas, querem nos enfiar goela abaixo que podemos ter todos esses prazeres (perceba que eu nem mencionei a palavra “comprar”...) se conquistarmos um pouco do dinheiro que eles detêm, através da nossa força de trabalho.

No fim, somos as calopsitas que, de asas cortadas, perambulam às vistas dos verdadeiros donos do mundo, ganhando ração, petiscos e algum carinho como forma de diversão. 

Enquanto não voltarmos ao hábito da reflexão e da mudança (aqui cabe bem o sentido de aprendizado), nunca alçaremos novos voos, jamais sairemos da gaiola. 

Ou seja, não saberemos nunca como:

DI ---> variação de DIS ---> ideia de separação, afastamento.

VERTERE ---> virar, girar, mudar de direção.

Pode ser verdadeiramente LI-BER-TA-DOR!!!

2 de dez. de 2025

EscreVER



Hoje eu caminhava por uma avenida lotada,

ouvindo uma música suave nos fones.

Chovia poeticamente.

E isso me fez voar dali para qualquer outro lugar

onde eu pudesse realmente sentir.


Quando parei para atravessar a rua,

a música me tocou de um jeito diferente

e eu me arrepiei.

Alguma coisa molhou minha perna direita

e, por um segundo, pensei:

é isso que é estar viva?

Isso é... vida!


Pessoas andando como zumbis.

Robôs do sistema.

Existindo sem sentir.

Sentindo sem perceber.

Enquanto algumas, como eu,

sentem tudo.

Por todo mundo.

Por tudo.


É como se o mundo pudesse nos rasgar por dentro.

(E às vezes ele realmente rasga.)


Acho que gente como nós

acaba virando um tipo de catalisador de emoções,

"tradutor de sentimentos"

A sociedade costuma nos chamar de escritores

O pior tipo de gente

aquele que não consegue ver de forma simples

como a maioria 

Porque nada é "só o que é".

Um rio nunca é só um rio

Uma árvore nunca é só uma árvore.

Nós vemos além.


E talvez a nossa responsabilidade

seja passar isso adiante

deixar que outros sintam como nós sentimos,

através das palavras, das percepções,

de coisas que traduzimos sem perceber.


Talvez alguém aí fora também sinta assim,

mas nunca soube colocar em palavras.

É bonito e triste ao mesmo tempo.

Uma bênção e uma maldição.

Um presente do universo

e, ao mesmo tempo,

uma chance de oferecê-lo ao mundo.


Hoje eu percebi isso.

E tudo o que posso fazer é continuar escrevendo.

Continuar sentindo.

E deixar minhas palavras voarem,

para onde quer que cheguem,

para quem quer que as encontre.

Enquanto eu viver



Este texto foi escrito hoje, 02/12/2025, originalmente num papel de carta, em inglês (não saberia dizer o porquê - talvez devido à sensação de universalidade de sentimentos e - agora percebo - à proposta do mesmo...).


1 de dez. de 2025

Causo de ônibus



Eu estava no Dona Wanda das 6h15. Sim, esse é o nome da linha de ônibus. Aqui em Santa Catarina eles adoram dar nomes de gente pras coisas. Tem o Dona Adélia, a padaria Vó Bia, o comércio do Seu Nascimento, o Sacolão do Renato… vixe, a lista é grande — mas a história é outra.

Seguia para o trabalho e, apesar de ainda estar mais dormindo que acordada, senti o habitual nojinho das barras do ônibus. Aproveitei que o motorista tinha parado para ajudar a embarcar uma cadeirante e resolvi dar uma limpada nas mãos antes de voltar a segurar naquele condomínio de bactérias.

Puxei da mochila meu mini–refil de álcool líquido (mais fácil de repor que o gel) e virei para o lado do corredor, onde não havia ninguém perto o suficiente para se incomodar. Só não esperava que, à minha direita, uma senhora loira de uns 60 anos começasse a tossir.

“Cof, cof, COF!”, ela insistia, teatral, enquanto todas as janelas estavam escancaradas por causa do calorão da alta temporada.

Num primeiro momento, nem passou pela minha cabeça que eu tinha algo a ver com aquilo.

— A senhora está bem? — perguntei.

— Coooof, Coooof, Coooof! — ainda mais dramática.

Comecei a ficar constrangida. Todo mundo já acompanhava a cena shakespeariana.

— O álcool!!! — ela berrou.

— Oi?

— Sou alérgica a álcool!!! E você passou bem na minha cara!!!

Pedi desculpas, expliquei que tinha virado para não incomodar, mas não adiantou. Saí de perto me sentindo péssima. Passei dias — talvez semanas — sem usar meu álcool líquido. Pensei em migrar para o gel, mas o preço sempre me desmotivava.

Até que, num belo dia, testemunhei algo que me fez duvidar da sanidade humana: o senhorzinho católico que passa metade do trajeto encaminhando figurinhas de “bom dia” no WhatsApp, em pé bem na frente da tal senhora “alérgica a álcool”, abaixou-se para pegar na mochila DELE, que estava no colo DELA, um refil de álcool líquido. E maior do que o meu, diga-se de passagem.

Só não esfreguei os olhos para confirmar a cena por motivos de preservação ocular contra bactérias e vírus. Mas foi difícil acreditar. Ri sozinha, incrédula e ligeiramente revoltada. E, para completar, o senhorzinho ainda agradeceu a gentileza dela de segurar a mochila com um aperto de mão — provavelmente ainda molhada de álcool.

Foi ali, em pé no transporte público, antes das sete da manhã, sem café, que entendi: algumas alergias são extremamente… seletivas.

27 de nov. de 2025

A porta




Foi em meio ao tédio de um dia totalmente ordinário, que minha mente - sempre furtiva e inquieta - me pregou uma peça. Pelo menos era isso que eu pensava. Primeiro tive uma visão bastante aleatória, quase como uma lembrança, dessas que nos tomam assim de repente. Era uma porta. Aberta. Com uma riqueza de detalhes tamanha que senti vontade de desenhá-la. Mas eu nunca havia sido do desenho. Era das letras. Escritora amadora, mas raiz, dessas que costumam carregar consigo caneta e bloquinho. Aliás, como eu era cuidadora de idosos, frequentemente me sobrava tempo para escrever, quando eles pegavam no sono.

Naquela noite, entretanto, o meu foco era uma vontade incontrolável de contornar, preencher, colorir. Me senti novamente com 8 anos de idade, na época de comprar material escolar. Dona Orlandina, uma simpática senhorinha de 87 anos de quem eu cuidava, tinha acabado de se recolher. Fui até a porta de seu quarto, dando uma rápida espiada para ver se estava tudo bem e segui pelo comprido corredor, passando de porta em porta: o quarto da filha (que havia se mudado após casar), o do filho (que hoje morava em outro país), o banheiro social e - por fim - o escritório do falecido Seu Damasceno. 

Entrei.

Tudo ali parecia intocado de propósito. A velha poltrona verde escura, já desbotada pelo tempo. A estante repleta de livros empoeirados, que Dona Orlandina não me deixava mexer nem para limpar (nunca questionei o motivo, não queria ser invasiva). A escrivaninha, com uma máquina de escrever antiga, uma pilha de folhas de papel A4 meio amareladas pelo tempo e um estojo de madeira... vermelho que destoava de tudo ali. Um ambiente noir, antigo, melancólico e um estojo com uma cor vibrante daquelas? Me chamou bastante a atenção e o peguei nas mãos. Dentro, haviam inúmeras canetinhas de ponta porosa. "Que delícia!", pensei e imediatamente depois estranhei o pensamento.

Enquanto isso, o desenho continuava em minha mente. Então puxei a cadeira da escrivaninha, me sentei, peguei uma folha e dei vasão ao meu desejo. Fiz a porta do jeito que a imaginava: muito bonita, toda trabalhada, brilhosa, como se tivessem acabado de polir. Com a madeira espessa, de superfície rugosa e vários tons de marrom - inclusive, um deles me fez lembrar de chocolate e meu estômago roncou. Tinha jantado sopa e, àquela altura, já estava com fome novamente. Porém, não conseguia parar de pintar. Em dado momento até julguei não ter mais controle sobre minhas próprias mãos. Havia algo de diferente diferente acontecendo. Era quase mediúnico.

Não sei por quanto tempo fiquei pintando, mas não conseguirei esquecer jamais do momento exato em que parei de desenhar. Pois naquele instante, tudo ficou ainda mais esquisito. Os últimos rabiscos pareceram uma espécie de espelhamento tridimensional, se é que posso chamar assim. Enquanto eu pintava na folha, uma cópia do meu desenho se formava bem na minha frente. Ela estava ali, diante de mim, poucos centímetros acima da escrivaninha, como um holograma: a porta.

Eu mal podia me mexer, tamanho meu espanto. Era uma imensidão azul escura, estrelada, parecida com um portal no meio do espaço sideral ou quem sabe outra dimensão. Me levantei devagar, com cuidado para não arrastar a cadeira e acordar a Dona Orlandina com o barulho. Subi com dificuldade em cima da escrivaninha, de forma a ficar exatamente em pé, na frente da misteriosa porta. Primeiro olhei bem de pertinho, como se quisesse sentir o material de que era feita - sem sucesso. Depois, fiz menção de que a tocaria, aproximando e afastando a mão algumas vezes. Como nada aconteceu, fui ainda mais longe, enfiei um braço. Nada. Tirei. “Bom, seja o que Deus quiser”, pensei. Foi então que tomei coragem, fechei os olhos e entrei num único e decidido salto.

Esperei o barulho da escrivaninha quebrando ao meio, os livros caindo da estante, Dona Orlandina acordando assustada, chamando meu nome: "Nazaré! Nazaré! O que houve?". Mas não teve nada disso. Só um ruído branco nos primeiros... segundos? Minutos? Também não saberia dizer. Onde estava agora o tempo parecia passar de maneira diferente. 

- Você não veio aqui para pintar. - uma voz feminina, grave, partia de algum lugar longe e perto ao mesmo tempo (juro que pra mim fazia sentido!). Como se viesse de dentro da minha própria cabeça. 

- Quem é você? - perguntei, curiosa, assustada.

- A pergunta que você quer me fazer não é essa. Você gostaria saber quem é VOCÊ, Nazaré.

- Hã? Como assim? - eu estava cada vez mais certa de que acordaria a qualquer instante, com baba no canto da boca, um livro caído no chão e o braço dormente.

- Quero dizer que você está aqui para se descobrir. Ou... descobrir o que poderia ter sido.

- Desculpe, mas eu realmente não estou entendendo. Onde estou?

- Essa é a porta do seu inconsciente, Nazaré. E aqui dentro, existem coisas que você conhece, outras que você desconfia e outras que você talvez você não estivesse pronta para ver ainda. Vou facilitar as coisas pra você.

Várias telas começaram a pipocar bem na minha frente, formando algo parecido com um enorme mural digital - imagens que me eram bem familiares: eu e meu marido, jovens; o dia do nosso casamento; o nascimento de cada um dos nossos filhos; a formatura deles; os casamentos deles; a chegada de nossos netos.

Outras imagens eu não conseguia reconhecer. Uma mulher parecida comigo, porém mais jovem. Era... eu. Eu autografando livros; eu dando entrevistas; eu segurando troféus dourados de prêmios que nunca existiram; prateleiras inteiras cheias de livros com meu nome estampado neles. Eu sorri, enquanto me imaginava vivenciando tudo aquilo. Mas em todas aquelas versões minhas, nenhum marido, nenhum filho, nenhum neto. 

Então meu peito apertou.

- Por que… só isso? - perguntei, quase num sussurro.

A voz não respondeu. E então outra telinha surgiu. Uma que eu não esperava.

Dona Orlandina, bem mais jovem. O marido ao lado. Ela lhe dá um selinho de boa noite, vai se deitar e ele fica. Então, ele começa a desenhar concentrado em um caderno. Uma porta enorme aparecia atrás dele, brilhando como se respirasse. E então, aos poucos, ele… atravessou.

- Meu Deus, ele não morreu. Ele... Atravessou.

A telinha desapareceu antes que eu pudesse perguntar qualquer coisa.

A porta, agora atrás de mim, começou a vibrar, pulsando como se alguma interferência energética ameaçasse apagá-la a qualquer momento. 

De repente senti medo de nunca mais ver minha família. Eu quis voltar para minha vida como era, com tudo o que eu amava. Então imaginei a sensação de ter tudo o que sempre sonhei profissionalmente. E refleti comigo: "bem, não se sente falta do que nunca se teve, certo?" Que angustiante!

Meu corpo inteiro tremeu. Tentei dar um passo pra atrás, mas o chão se comportou como água. A porta desfez-se em riscos de tinta viva que escorriam pelo ar. A luz da porta cresceu, ofuscante.

- Mas eu ainda não...

Mas a porta não esperou minha escolha. A luz engoliu meu braço primeiro. Depois meu ombro. Quando chegou ao meu rosto, senti como se estivesse sendo puxada para dentro de mim mesma.

Desejei com todas as minhas forças escrever. Quis deixar algo. Uma carta, um relato, um aviso. Mas tudo desapareceu na enorme luz branca.


>>> Fim do livro encontrado aberto no chão do escritório de Seu Damasceno, desaparecido há alguns anos. Nenhum sinal de Dona Orlandina. Nem de acompanhante. Nenhuma mochila, nenhum celular, nenhum documento. Apenas o antigo estojo vermelho aberto, algumas canetinhas espalhadas pelo chão e uma convidativa folha em branco ao lado...

22 de nov. de 2025

Alma caótica

 

A sala era pequena, porém bastante acolhedora. Tinha um sofá gigante, preto, com muitas almofadas coloridas. Havia também um puff triangular bege e um divã vermelho. Só esses móveis já ocupavam quase todo o ambiente. Pelo menos a parte transitável. Pois haviam livros, muitos livros em prateleiras. Marcela observou que nem todos eram sobre Psicanálise. A analista lia literatura nacional e internacional. Tinha cordel, ensaios contemporâneos, mitologia, até poemas. 

Durante uns cinco minutos Marcela permaneceu em silêncio, captando a energia do lugar. Certamente não voltaria caso sentisse algo ruim ali. Aliás, aprendera isso com seu marido, Carlos, que era muito espiritualizado. Ele não costumava nem receber pessoas em sua casa, pois sabe-se lá com que energia poderiam entrar, não é mesmo? De raiva, de inveja, de sexualidade em desequilíbrio. Era melhor evitar.

- Podemos começar? - Perguntou Marcela, já um pouco desconfortável com o silêncio.

- Acha que ainda não começamos? - provocou a analista.

- Ué, ainda não dissemos nada.

- Em uma sessão de análise, o silêncio também diz coisas. Às vezes até mais do que as palavras.

- Hum.

- Mas me diga, o que lhe traz aqui?

- Então... eu sou casada há 5 anos. Não temos filhos. Ainda. Ele diz que essa é uma decisão muito complexa, para isso temos que estar muito bem alinhados... é que... a gente briga muito, sabe? Por isso eu achei que talvez vir aqui pudesse ajudar.

- Então o seu casamento está em crise?

- Não. Não é isso... nós brigamos bastante, mas sempre foi assim, desde que nos conhecemos.

- O que espera do processo da análise, Marcela?

- Espero aprender formas de ser uma pessoa mais fácil.

- Você se considera uma pessoa difícil?

- Sim. O Carlos, meu marido, sempre me diz que eu sou muito difícil de lidar. Que muito provavelmente ninguém mais me aturaria como ele.

- E você concorda com ele?

- Ah... eu... às vezes acho que ele pode ter razão sim. Eu tô sempre insatisfeita. Nada pra mim está bom. Não me contento com as bençãos que recebo do universo. Tô sempre trazendo energia negativa pra dentro de casa, pra nossa relação.

- Você pode me dar um exemplo, pra eu entender melhor?

- É que é tanta coisa! Vou tentar. Bem, por exemplo, meu sonho sempre foi ser mãe. Eu sinto que nasci pra isso, entende? Mas ele, mesmo dizendo querer, não consegue tomar essa decisão. Ele sabe que eu já tô pra fazer 40 e daqui a pouco talvez nem consiga mais. Acontece que os dois tem que querer, não é mesmo? Eu não posso fazer um filho sozinha e nem obrigá-lo a querer ser pai. Então eu vou espero. Enquanto isso o tempo vai passando...

- Deixa eu ver se eu entendi, Marcela. Você disse que ele reclama de você viver insatisfeita e você acredita que ele pode ter razão, certo? Mas o exemplo que você me deu tem a ver com um sonho de vida. Não é sobre colocar ou não tapete na sala ou escolher novas cortinas pro quarto. Se você tiver a maternidade como um plano de vida, talvez deva conversar mais seriamente com ele e dar um tempo para que ele tome uma decisão. Do contrário, essa relação estará naturalmente fadada ao fracasso.

- Nem pensar! Ele já me chama de manipuladora! Vai dizer que estou colocando ele contra a parede, forçando ele a decidir, pedindo pra ele escolher entre isso e o nosso casamento!

- Entendi. Mas, no caso, ele pode ter filhos quando decidir. Pro homem é assim, né? Mas pra nós, existe o relógio biológico.

- Não. Não é bem assim, ele sempre apoiou meus sonhos. Olha só. Por exemplo, eu adorava jogar futebol. Quando ele me conheceu, inclusive, foi assim. Os times se revezavam pra usar a quadra lá do meu condomínio. O time dele quase sempre jogava depois do meu e ele ficava lá assistindo. Com o tempo, ele começou a torcer por mim. E quando meu time ganhava, ele me dava algum presente. Às vezes flores, às vezes chocolate.

- Você disse que adorava jogar. Você parou?

- Ah, eu dei uma parada sim. Sabe como é casamento, né? Ele trabalha o dia inteiro e eu cuido da casa. O único momento que temos é exatamente à noite, quando rolam as partidas de futebol. Então, acabo optando por ficar em casa com ele. Mas ele sempre me incentiva, compra camiseta do meu time do coração, joga comigo nos finais de semana, assiste todos os jogos do Mengão.

- Sei... mas, se você quiser ir, tudo bem por ele, né? Alguma vez você já foi depois que casou?

- Claro que já!

- E vocês nunca brigaram por conta disso?

- Ah, não foi por conta do futebol exatamente. É que ele combate bastante o machismo, sabe? Ele é bem diferente dos outros homens. Ele até milita a favor do feminismo nas redes sociais. Então, ele me fez entender que isso era como reproduzir um comportamento masculino que normalmente desagrada as esposas. Eu concordo com ele.

- É um esporte, Marcela. Acredito que o que incomode as esposas seja o cara deixar de cumprir com as obrigações dele como marido, como não honrar com algum compromisso, um jantar que tenham marcado, por exemplo, pra ir jogar futebol. Ou, muitas vezes, usar o futebol como desculpa para não ter uma conversa mais séria. Ou, na pior das hipóteses, mentir que é futebol quando, na realidade, é uma traição.

- É, pode até ser, mas já disse que ele não me proíbe de ir. Eu que entendi que num casamento deve haver concessão de ambas as partes.

- Exatamente. E no que ele cede?

- Ah, ele cede bastante. É justamente por isso que eu tô aqui, sabe? Sou casada com um cara diferenciado. De esquerda, como eu. Que defende o feminismo. Espiritualizado, que frequenta um templo religioso toda semana. Que tem a paciência de me faz entender a perspectiva dele e eu tô sempre insatisfeita. Ele acha até que eu posso ter algum diagnóstico. Aliás, você faz isso? Você conseguiria me di...

- Não. Sou uma psicanalista. Não trabalho com diagnóstico. 

- Ah...

- Mas eu ainda não entendi por que você diz que vive insatisfeita. Consegue me explicar?

- Vou tentar. Bom, eu sinto como se minha vida estivesse incompleta. Não sei se é essa questão de ainda não termos filho... e eu acabo jogando tudo pra cima dele, entende? Minhas frustrações. Tipo, eu sempre tive mais libido que ele, desde o começo. E depois que casamos ficou ainda mais gritante nossa diferença. Eu chego a me sentir mal de procurá-lo. Uma vez ele até me disse que viemos em corpos invertidos, era para eu ser o homem da relação.

- Me parece algo natural desejar ter relação com o seu parceiro. Não? Qual a frequência de vocês? E o quê para você seria ideal?

- Bom, se eu deixar, ele nunca me procura, praticamente. Diz que ele precisa que me admirar para sentir tesão. E eu não ajudo, né? Tô sempre problematizando tudo...!

- Mas e quanto a frequência? ...

- Vixe! Se eu não fizer nada, leva meses! Um, dois, três. Nunca contei, mas sei que demora. Às vezes eu dou uma forçada na barra, assim, não forço o ato em si! Mas eu compro uma lingerie nova, ou mostro algum filme mais picante pra ele e acaba rolando... 

- Entendi. E como você se sente nessa posição de sempre procurá-lo?

- Ah, mal. Acho que não sou uma mulher muito ... interessante. Talvez se eu mudar meu jeito, ele me veja com outros olhos. Comece a me admirar e me querer novamente, como quando nos conhecemos.

- ...

- É. Eu exagero demais nas coisas. Eu cobro demais, eu sinto demais. Acho que sinto falta de quando tinha mais amigas também. A vida adulta, você sabe acaba afastando os amigos. Cada um segue sua vida, trabalho, casamento, filhos. As minhas amigas todas já são mães e eu acabei ficando de fora. Sempre festinha de aniversário de uma das crianças, programações infantis...

- Entendo. Mas será que se você as chamasse para tomar um café, ou ir ao cinema, não arranjariam um tempinho?

- De repente sim. Mas elas só tem a noite livre, normalmente, devido ao trabalho. À noite elas estão com os filhos, com os maridos.

- E no final de semana? Um jantar na casa de vocês?

- Pois é, esse é um ponto delicado. Lembra que o Carlos não gosta muito de gente na nossa casa, por conta da energia? Pois é. Ele não tem nada contra nenhuma delas nem dos maridos, mas ele diz que não tem muito assunto com eles. Acha minhas amigas fúteis e os maridos delas uns machistas.

- Sei...

- Pelo menos eu tenho meus pais e quase todo final de semana vamos almoçar ou na casa deles ou na casa dos pais do Carlos. Isso é o que ainda me anima. Carlos diz que eu deveria ser grata a Deus porque nem toda família se dá bem assim como a nossa. E ele tá certo.

- E quando vocês estão com as famílias… como ele se comporta?

- Normal. Educado. Quer dizer… às vezes ele fica mais calado, mas é porque ele disse que sente muita energia misturada. Não é bom pra sensibilidade dele.

(Silêncio curto)

- Mas ele vai. Ele faz o esforço dele.

- E você? Como se sente nesses encontros?

- Ah… eu gosto. É quando eu vejo gente, né?

(Desvia o olhar)

- Mas eu confesso que às vezes fico meio tensa. Com medo de falar alguma bobagem e ele ficar… irritado. 

- Que tipo de bobagem? 

- É que, quando chegamos em casa, às vezes ele comenta: “Você viu como você interrompeu várias vezes a sua mãe? Ainda bem que estávamos em família” ou “Você precisa aprender a conversar sem comentar nossas questões pessoais. Não falo aquele tipo de coisa nem pra minha família”. E eu fico pensando… se até com minha família eu faço feio, imagina com os outros!

- Você costuma abrir a intimidade de vocês pra sua família?

- Ah, eu sempre contei tudo pra minha mãe. Mas as coisas que compartilho são tipo: dívidas quando a gente faz alguma. Ou quando a gente briga e eu digo que não pudemos vir pois não estávamos num clima muito bom. Pra família dele, Deus me livre falar! Pra eles, estamos sempre bem e nunca brigamos. A imagem do Carlos pra família dele é intocável. Uma vez, logo que nos conhecemos, ele adoeceu e eu fui comentar com a mãe dele por telefone. O teto quase caiu sobre mim! 

- Me parece que você está sempre "pisando em ovos".

Marcela sorri constrangida.

- É para o meu bem. Ele sempre me ajudou a perceber padrões negativos meus. Que quer me ajudar a evoluir... e acredito que se ele tem tanto conhecimento, quero mesmo que aponte onde eu erro, do contrário como eu vou mudar?

- E quem aponta as falhas dele?

Marcela solta uma risada curta, quase defensiva.

- Ele não tem muitas. Pelo menos não comigo. Quer dizer… ele é mais fechado, né? Mais introspectivo. Mas é do jeito dele. E eu... sou essa bagunça ambulante.

- Você fala de si mesma como se fosse um problema a ser corrigido.

- Às vezes eu acho que sou mesmo. Parece que tudo parte de mim. O futebol, o sexo, as amizades, a maternidade, o meu humor, o meu jeito.

(Silêncio mais longo, a voz quase falha)

- Ele sempre diz que eu tenho uma "alma caótica". Que projeto nele todas as minhas frustrações e medos.

- E do que você teria medo?

Marcela engole seco.

- A ideia de... perder ele. De virar aquela mulher que todo mundo olha com pena porque “não segurou o marido”. Porque “era difícil demais”. Porque… porque era eu.

- E você já pensou na possibilidade de não ser sobre “segurar o marido”, mas sobre segurar a si mesma?

Marcela aperta as mãos no colo. O desconforto aumenta. 

- Você disse que ele quase não comete erros com você, certo? Mas... e quando ele erra, ele pede desculpas a você?

Ela não responde. A analista percebe a tensão e aguarda em silêncio. Não para acolher, mas para permitir que a sensação floresça.

- Eu não me recordo muito bem de quando ele falha comigo. Acho que porque eu tenho essa mania de sempre correr atrás dele primeiro. Detesto ficar brigada. E se eu deixar, ele fica dias sem falar comigo.

- E ele sendo tão... evoluído, não sabe que o diálogo é a melhor forma de resolver as coisas?

- Na verdade, ele diz que é justamente para deixar a poeira baixar. Que é melhor que esses casais aí que se inflamam e só faltam partir pra violência física. Ele também é bastante sensível e quando se magoa, leva um tempo até voltar ao normal.

- Interessante.

- Esses dias eu até me admirei que tive coragem de dizer: "Já reparou que sou sempre eu que venho pedir desculpas?" pra ver se ele percebia que não é possível eu sempre estar errada e ele certo em tudo.

- E ele?

- Acho que ele não entendeu, porque me respondeu: "Por que será, não é mesmo?!" Ele realmente acredita que o erro está em mim. Devo ter mesmo essa alma caótica...

- Marcela… numa relação, tudo é 50% pra cada. Até mesmo se um dos dois tiver mais razão em alguma briga. A responsabilidade de resolver é dos dois. Além do mais, se alguém que te ama, sente medo de te perder também, não acha? Você não acha que ele tem muito poder sobre você?

Marcela olha rápido, surpresa e defensiva, mas não diz nada. O silêncio agora é um espaço que ameaça ruir algo dentro dela.

- Ficamos por aqui hoje.

Marcela achou tudo aquilo muito estranho. Parecia que a analista estava querendo jogar mais lenha a fogueira ao invés de tentar ajudar. Fora que encerrar assim, no momento de maior tensão. E foi assim que decidiu nunca mais pisar em uma sessão de análise.

18 de nov. de 2025

Poliamor Literário 🫀📚


- Você lê bastante, né?

- Você acha? Nem é tanto o quanto eu gostaria.

- Hum... O que costuma ler?

- Ah, de tudo um pouco. Desde bula de remédio, até ficção.

- Eita... Haha... Mas ficção só lê uma por vez, certo?

- Errado. Tenho o costume de ler várias ao mesmo tempo.

- Mas... você não se confunde os personagens?

- Você conversa com quantas pessoas durante o dia?

- Ué, com várias. Por quê?

- E você não confunde os assuntos?!

- ...

7 de nov. de 2025

Não leia "Vidas Secas"

Não leia "Vidas Secas" se for para abandonar Fabiano, Sinhá Vitória, seus dois meninos e a cachorra Baleia pelo meio da estrada, sendo que eles já foram primeiramente abandonados pelo mundo.

Não leia "Vidas Secas" se você for uma pessoa seca. Seca de empatia. Seca de sentimento. Seca de sensibilidade, porque já basta a secura do sertão nordestino, a secura da vida miserável. E cada lágrima derramada por esse livro é uma gota a mais de esperança no deserto da humanidade, onde habitam as boas almas.

Não leia "Vidas Secas" se não for para sonhar com uma cama de lastro de couro junto com Sinhá Vitória, ou desejar um mundo cheio de carinho e preás para a cachorra Baleia, ou se "enfezar mais" Fabiano com a cobrança absurda de impostos que ele não compreendia e nem sabia direito como perguntar, devido ao vocabulário parco e dificuldade de comunicação de homem matuto.

Não leia "Vidas Secas" se estiver esperando grandes acontecimentos ou um "Plot Twist" no final, pois a beleza dessa obra encontra-se diluída em toda a narrativa, na singularidade de cada personagem, na pureza do coração de cada um deles, na resiliência incansável, na simplicidade de seus sonhos, na alegria com tão pequenas conquistas – que pareceriam mais com um absurdo ou desgraça aos olhos de quem este clássico provavelmente consegue alcançar... como se alimentar de um pequeno rodeador ou beber da fonte de uma água insalubre.

Não leia "Vidas Secas" se você não entende que a morte da cachorra Baleia vai muito além de um acontecimento trágico ou do luto pela perda de um membro da família. Esse triste fato representa a morte da esperança, da inocência e da ternura, em um mundo íntimo marcado pela desumanização. Também demonstra claramente a ignorância de Fabiano, que a sacrificou por achar que ela estava com "moléstia" (raiva), quando na verdade só apresentava sinais de desidratação e desnutrição.

Por fim, não leia "Vidas Secas" se não tiver a capacidade de se colocar no lugar do outro. Sobretudo se esse outro viver uma realidade tão distante da sua.

Se não for para ser profundamente tocado, se não for para ficar indignado com o fato de tantos viverem com tão pouco, se não for para sonhar com eles, alimentá-los, vesti-los e amá-los em pensamento... 

... por favor! NÃO LEIA "Vidas Secas", de Graciliano Ramos.

20 de out. de 2025

Sobre o meu vazio



Hoje eu preciso escrever. Não é como se eu quisesse produzir um texto engomadinho. Nem como se eu tivesse finalmente colocando no papel (no caso, no teclado) uma ideia que já nasceu pronta dentro de mim. Aliás, normalmente é como geralmente acontece: engravido de algum projeto (quase sempre uma crônica ou - minha mais recente aventura - um conto), vou gestando-o enquanto a vida acontece até que, finalmente, vou lá e escrevo.

Mas desta vez, não. Desta vez, existe uma dor profunda e eu quero muito (MUITO!) conseguir transformá-la em palavras. Quem sabe assim diminua um pouco. O problema é que eu não sei falar de minhas dores emocionais. Me dê qualquer tema que consigo desenrolar, mas aquele com o qual convivo diariamente desde que nasci, eu ainda pareço desconhecer.

Eu não sei me ler e então, busco leituras que de alguma forma falem sobre mim. Inclusive, me identifiquei tanto com o último que quase poderia tê-lo escrito: "Não pise no meu vazio". Com um pequeno grande detalhe: a psicanalista e autora Ana Suy parece saber lidar melhor com o seu próprio vazio do que eu. Ou, ao menos, protegê-lo melhor que eu. Sim, porque eu sempre tentei preenchê-lo a todo custo. Ainda hoje, taquei vinho nele. Costumo tacar tudo que posso nele... livros, novelas, filmes, mãe, namoro, trabalho, música, amigos.

Só que hoje não. Só para variar um pouco, decidi ao menos tentar encará-lo. E antes que eu mesma argumente que essa poderia ser mais uma tentativa de tapá-lo, já me adianto e me defendo informando que estou refletindo sobre isso neste momento e acredito que não. Não se tapa um vazio falando sobre ele. Ou se tapa? Bem, caso a resposta seja afirmativa, ao menos estou tentando - ao contrário de todas as outras vezes nas quais eu simplesmente ignorava a existência dele.

A propósito, obrigada Ana Suy, por me inspirar a olhar para o meu vazio. Só não dedico mais espaço em meu texto para elogiar seu incrível trabalho porque, isso sim, seria uma fuga bastante criativa. Mas que ele jogou luz nesse buraco negro, ele jogou. Eu só não sei o que fazer com isso. Talvez não tenha o que ser feito. Quem sabe eu nem deva fazer nada e seja exatamente sobre isso... deixar ele existir, entrar em comunhão com ele após uma vida negando sua existência, tapando-o com tudo que via pela frente. 

Hoje eu decidi encarar o meu vazio e ignorar uma regra de infância muito importante, a de não falar com estranhos. Entretanto, me convenci que, na verdade, ele não é tão estranho assim. Não pode ser, uma vez que sempre esteve tão perto. Sempre. Quando minha prima ia embora depois de passar uma semana toda brincando comigo, ele aparecia e eu chorava copiosamente. Então ia desenhar, escrever ou assistir um desenho animado na TV. Quando um relacionamento esfriava. Quando terminava. Quando a festa acabava. Entre um hiperfoco e outro. Nos dias de domingo... sobretudo à noite, como agora.

Como posso não ter a menor intimidade com algo ou alguém com quem convivo a vida inteira? Talvez porque eu realmente não acreditasse em sua existência. "Como assim um vazio se eu tenho tudo? Tenho família, tenho amor, tenho amigos, um emprego que me proporciona bens materiais..." e assim seguia me enganando, virando as costas para o meu vazio que, ignorado, se escondia para não incomodar ou assustar.

Mas hoje ele está aqui. Neste momento, encontra-se bem na minha frente. E sabe o que é pior? Eu ainda não sei o que lhe dizer. Na verdade, penso haver tanta coisa a ser dita que nem sei por onde começar. Ou se conseguirei.

Ao menos, finalmente o aceitei por inteiro. Não quero mais mudá-lo ou preenchê-lo. O aceitei como parte de mim, provavelmente uma bem importante. Ainda que permaneçamos calados, me esforçarei para que não seja um silêncio constrangedor. Pretendo acolhê-lo com respeito e amor a partir de hoje. 

E talvez ... o vazio nunca tenha sido uma falta, mas sim o único espaço nesse universo onde eu poderia caber por inteiro.



• Referências:





3 de out. de 2025


No analista

Naquela tarde, Rafael chegou à sessão de análise sobressaltado. Entrou esbaforido, com aparente confusão mental, cumprimentou o analista com olhar vago, sentou-se no divã e respirou profundamente, numa tentativa quase desesperada de se recompor.

- Alex, eu simplesmente estou ficando paranóico. É isso, cara, eu acho que adoeci. Faço análise há anos, tomo remédio controlado pra ansiedade e mesmo assim minha mente conseguiu me boicotar.

- Como assim, Rafael? Aconteceu algo da semana passada pra cá?

- Esse que é o problema. Eu apenas sinto que tem algo errado acontecendo. Não queria dar espaço pro meu arquétipo de "esquedo-macho-místico", mas, quando minha intuição fala...

- E quando ela falha?

- Hã?

- Deixa pra lá, prossiga.

- Pode parecer estranho o que eu vou te dizer, mas... eu tenho tido a sensação de que a Bruninha está comigo o tempo inteiro, sabe? Quando vou trabalhar, quando estou jogado no sofá sozinho em casa. Até mesmo quando jogo bola com os caras. Eu sinto a presença dela. Se ela não estivesse viva, pensaria até em obsessão.

Nesse momento, o analista fez uma expressão ligeiramente impressionada.

- Continue...

- É como se ela tivesse um super poder, como se lesse minha mente às vezes, sei lá.

- Interessante.

- Esses dias, Alex, eu simplesmente sonhei que ela invadia minha sessão de análise.

- Bem, talvez você esteja mesmo paranóico, Rafael. Ainda não foi inventado um dispositivo capaz de ler mentes. Não que eu saiba, pelo menos.

- Eu sei que parece loucura. Mas há umas duas semanas, comentei com um colega de trabalho que minha namorada nunca tinha feito um strip-tease pra mim. É um camarada totalmente aleatório, nem conhece a Bruna. Zero chances disso chegar aos ouvidos dela e anteontem adivinha só??? Ela simplesmente me surpreendeu com um strip!!!!! Eu deveria ter ficado eufórico, aproveitado ao máximo cada momento. Mas o que eu fiz? Brochei. Tudo que eu conseguia pensar era no cara do meu trabalho.

(...)

Rafael então narrou mais algumas possíveis "coincidências" ao analista, todas envolvendo de alguma maneira a namorada. Saiu mais leve da sessão, ainda que os monstros estivessem ainda bem vivos dentro de si.


No carro

Na saída do consultório, Rafael caminhou lentamente até o carro. O corpo presente mas a cabeça rodopiando. Sentou-se no banco do motorista, respirou fundo e puxou o celular do bolso da calça. Uma ligação piscava na tela: era Ana, uma amiga de Bruna.

- Oi Rafa, tudo bem? Não sei se deveria comentar, mas… a Bruna anda estranha. Você já reparou?"

- Estranha como? — disse, franzindo a testa.

- Ah, sei lá… sempre que estamos juntas, ela fica muito no celular, às vezes parece que está esperando a resposta de alguém, monitorando algo, sei lá. Vai ver que é coisa da minha cabeça.

Rafael sentiu um frio percorrer a espinha. Guardou novamente o celular no bolso e deu partida no carro. Enquanto dirigia, um pensamento insistente tiquetaqueava na cabeça: e se não fosse apenas paranoia?


Em casa

Eram quase duas da manhã quando Bruna se levantou da cama. O quarto estava mergulhado num silêncio sepulcral, entrecortado somente pelo som descompassado e irrequieto da respiração de Rafael - que sofria desde a infância com adenoide e, ainda, com espasmos do sono devido à ansiedade generalizada.

Ela olhou para o celular dele, jogado sobre o travesseiro. Por alguns segundos, ficou parada, como se travasse uma luta interna. A tentação queimava. O aparelho estava desbloqueado — Rafael tinha o hábito de dormir olhando o celular e frequentemente pegava no sono com ele ligado.

Com mãos trêmulas, Bruna o pegou. O brilho da tela iluminou seu rosto, denunciando a mistura de ansiedade e culpa. Abriu o aplicativo e foi na lista das últimas ligações. A mais recente havia sido a de... Ana (?!). O coração disparou. Sobre o quê eles poderiam ter se falado? Ana era sua amiga e não dele. Ficou tentando imaginar algum assunto que poderiam ter em comum quando, de repente, uma sombra se moveu por trás dela.

— O que você tá fazendo com meu celular, Bruna? — a voz veio rouca, mas firme.

Ela congelou, o aparelho ainda em mãos. Não conseguiu responder. O silêncio que se seguiu foi mais devastador que qualquer acusação.

Rafael estendeu a mão, pegou de volta o telefone e o desligou. Olhou para ela sem raiva, porém extremamente decepcionado.

— Você não confiou em mim nem o suficiente pra perguntar, né?


Algumas semanas depois, no analista

Naquela tarde, Rafael entrou no consultório com um brilho diferente no olhar. Não havia pressa nos passos nem sombras no rosto. Deitou-se no divã como quem repousa depois de uma longa jornada.

— Alex… acho que finalmente estou em paz. A Bruna era paranoica, talvez por isso eu estivesse me sentindo vigiado. Eu não quis enxergar, mas hoje percebo: o que tínhamos já estava desgastado, era muita desconfiança sem motivo.

O analista manteve-se em silêncio, apenas o incentivando com o olhar para que continuasse a falar.

— Com a Ana é diferente. Ela me entende de um jeito natural, me acolhe. Parece que sempre esteve ali, esperando. Não tem cobranças, não tem perguntas invasivas. É leve. — Ele suspirou, sorrindo. — Pela primeira vez em muito tempo, não sinto que alguém está observando cada passo meu.

O relógio na parede marcou os minutos seguintes, enquanto Rafael descrevia pequenos gestos de Ana, todos envoltos em ternura. Quando saiu, a sensação era de alívio absoluto. Como se, enfim, tivesse se livrado dos fantasmas.


Naquela mesma tarde, em uma cafeteria qualquer da cidade

Ana estava sozinha em uma mesa. A penumbra cortada apenas pela luz do notebook. Uma xícara de café esquecida ao lado, o celular conectado a um fone de ouvido bluetooth.

Na tela do note, múltiplas janelas: um painel de geolocalização, registros de chamadas, notificações espelhadas de aplicativos. Pequenos ícones piscavam, como faróis em miniatura, indicando cada movimento de Rafael durante o dia. Naquele exato instante, ele acabara de sair do analista.

Ana recostou-se na cadeira, satisfeita. Passou os dedos lentamente sobre o trackpad, ampliou o mapa até fixar o ponto vermelho que pulsava imóvel na tela: a localização do consultório.

Um sorriso breve atravessou seu rosto.

No celular, uma nova mensagem ainda não enviada permanecia digitada: “Oi amor! Pelo horário, você deve estar na análise... Me liga quando sair? Quem sabe não combinamos alguma coisa pra mais tarde.”

Ana apertou o botão de enviar. O notebook continuava aberto. A tela refletindo no vidro da janela, projetando no escuro: não o rosto de uma namorada atenciosa, mas a silhueta de alguém que jamais deixou de vigiar.

15 de set. de 2025

O hábito secreto

Rubinho adentrou a pequena porta com certa naturalidade, como se assim o fizesse sempre. Percorreu o pequeno corredor de paredes úmidas, emboloradas, com rachaduras e rastros do que um dia havia sido uma pintura - e, ao final dele, avistou outro homem, que subitamente o olhara de relance. "Ufa! Não era nenhum conhecido!", pensou, soltando uma respiração forte, de alívio.

Foi se aproximando aos poucos, sentindo um misto de timidez e curiosidade, perguntando-se qual falaria mais alto. Não fazia aquilo desde os tempos da escola que, aliás, não lhe serviu para muito além de concluir o ginásio e conhecer a primeira namorada (com quem casou-se e teve cinco filhos - três moleques fortes e duas belas e prendadas meninas).

Mas nunca esqueceu da sensação, que guardara apenas para si. Afinal, se a rapaziada do clube ao menos imaginasse uma coisa dessas, ele jamais voltaria a ter paz. "Maricas" seria um elogio perto do que lhe chamariam.

O outro continuou o que estava fazendo, com tanta calma que Rubinho imaginou que ele talvez estivesse sempre por ali e aquilo fosse até mesmo costumeiro. "Será que também era casado? Tinha amigos? Um emprego? Pertencia a algum time de futebol?", perguntou-se.

Suas vivências não lhe permitiam nem mesmo imaginar um universo diferente do seu. Do que havia sido o de seu pai, de seu avô e do que provavelmente viria a ser o de seus três filhos. Mas às vezes gostava de sonhar. Por esse motivo estava ali.

Uma vez no lugar escolhido, bem ao lado do companheiro silencioso, posicionou-se e pôs para fora, bem devagarinho, um belo (ainda que meio sujo) exemplar. O outro pareceu curioso, virou-se discretamente para analisar o material. Cerrou os olhos, meneou a cabeça tocando levemente o próprio queixo e então virou-se outra vez. Rubinho corou. Mas sentiu-se lisonjeado. E no direito de também o observar.

Após essa troca silenciosa e, agora com orgulho do que carregava consigo, Rubinho abriu o surrado livro de poesias que tinha acabado de pegar emprestado e deleitou-se em mais uma secreta tarde de leituras na velha biblioteca da cidade.

6 de set. de 2025

Diagnóstico | "Dar nome às coisas"



Desde o princípio, antes mesmo da palavra, nosso corpo já falava. Um gesto podia ser um alerta. Um olhar, um abrigo. Um grito poderia representar a fronteira contra um perigo iminente. Mas hoje, enquanto arrancava a pele dos meus dedos até sangrar (uma mania antiga), descobri que essa dor tinha um nome: dermatotilexomania. E o que era apenas hábito obsessivo e dolorido, tornou-se coisa nomeada. E ao ganhar nome, ganhou também peso, contorno, presença. Foi aí que me perguntei: em que instante da história o ser humano decidiu batizar as coisas? Quando se deu conta de que nomear não apenas organizava a vida, mas também, de certa forma, a criava?

Há quem diga que só existe aquilo que podemos nomear. O "nome" é como um sopro que arranca algo do invisível e o firma na terra. Sem ele, tudo é sombra, sem rosto ou distinção. A filosofia e a psicanálise sabem bem disso: nomear é separar sujeito de objeto, traçar fronteiras entre mim e o outro, sustentar a diferença que nos permite existir.

Lembrei então do filme "A Invenção da Mentira": uma sociedade distópica que desconhecia a palavra "mentira" — e, por isso, só falava a verdade. Até que um dia, um homem qualquer, sem querer, inaugurou o indizível. E quando o fez, um novo mundo se descortinou diante dele: ficção, livros, possibilidades antes improváveis. Tudo isso enquanto os outros habitantes da cidade, atônitos, tentavam explicar o até então desconhecido: “É algo que... É algo que... não é…”.

Talvez seja exatamente isso: o poder de nomear é também o de inaugurar realidades. Dar nome às dores, às manias, às emoções. Pois quando algo recebe um nome, passa a fazer sentido. "Nomeio, logo, existe". E isso não é apenas sobre linguagem, mas representa um gesto de reconhecimento. Para si e para o outro.

Quando uma dor, um hábito ou um sofrimento recebe um diagnóstico, ele deixa de ser um segredo solitário e passa a ter lugar no mundo. Não é mais “algo que não é”, mas sim uma realidade que pode ser compreendida, cuidada, acolhida. O diagnóstico é, nesse sentido, um batismo: ele não nos define por completo, mas nos dá uma chave para abrir portas antes trancadas. Nos ajuda a olhar para dentro sem nos perdermos. A contar nossa própria história com mais precisão, a reivindicar a escuta e a compreensão. O que tem nome pode (e deve) ser tema de livros, palestras, revistas, programas de TV. O que pode ser falado, pode ser reconhecido e, possivelmente, transformado.

Há cerca de 3 anos, decidi olhar pra mim com mais auto cuidado. Iniciei uma análise, enfrentei minhas sombras (pelo menos parte delas) e, após alguns eventos um tanto quanto assustadores - no trabalho e na vida pessoal - assumi, finalmente, que talvez eu tivesse mesmo TDAH - Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade. Mas não foi (e ainda não tem sido) um processo simples.

Ao mesmo tempo em que eu vivia episódios cada vez mais frequentes de "esquecimentos" e falta de atenção e minhas dores de cabeça só aumentavam, enquanto eu me entupia de analgésicos diariamente, procurei um neurologista. Fui unicamente para falar sobre os meus quadros de enxaqueca e ele me perguntou se costumo apresentar episódios frequentes de esquecimento. 

"Oi?"

"É que seu exame de eletrocefalograma detectou um padrão muito comum em pessoas com TDAH".

Me fez, então, mais algumas perguntas sobre como havia sido minha infância, pediu relatos desses apagões de memória e vouilà: para ele, não restavam dúvidas. Ele me receitou um remédio para TDAH e eu quase dei de ombros mais uma vez. Mais uma vez? Como assim, não é algo novo, recente? Bem... A verdade é que, pelo meu histórico, sempre tive medo de um dia desenvolver alzheimer. Então, há muitos anos, lá em Belém, também procurei um neurologista - tanto pelas dores de cabeça quanto pelos "esquecimentos" frequentes. Adivinhem: foi exatamente igual. Os mesmos exames (além do eletro, fizeram muitos outros, passei a tarde na clínica em ambas as vezes) e o mesmo diagnóstico. Acontece que naquela época nem se falava em TDAH, então, eu não fazia ideia do que ele estava falando. Saí do consultório feliz, pois não havia nenhum aneurisma prestes a explodir, nenhum rastro de alzheimer ou qualquer comorbidade com a qual na época eu pudesse me preocupar.

Mas desta última vez, algo vibrou diferente dentro de mim. Eu estava vindo de um longo caminho de auto conhecimento e sabia, lá no fundo, o quanto tudo aquilo fazia sentido. Eu já não  podia mais aceitar que era simplesmente "muito  esquecida", "lesa". Foram muitos anos lidando com a crítica dos outros e as minhas próprias, com minha autoestima destruída me achando insuficiente, muitas vezes burra, incapaz. Estava cansada de não ter nenhuma perspectiva de mudança pois, afinal, "eu era assim mesmo". 

Bom, tudo ainda é muito novo e sigo aprendendo sobre esse universo da neurodivergência. Devorei um livro da psicóloga Ana Beatriz, "Mentes inquietas", tenho ouvido podcasts, pesquisado bastante na internet e lido relatos de pessoas que são como eu. Portanto, posso afirmar com segurança: muita coisa sobre mim agora fez sentido. Agora tem um nome para características que sempre foram tão minhas (e não falo apenas das negativas - TDAHs costumam ser extremamente criativos, por exemplo). Sinto que nunca antes havia conhecido e entendido tanto sobre mim. E ainda que critiquem, diminuam ou invalidem meu diagnóstico, estou feliz.

Ao contrário do que eu achava e propagava (infelizmente!), diagnósticos são libertadores e não limitantes. Libertador = "Libertar a dor". "Dar nome às coisas" não é prisão, é chave. Isso não encerra quem eu sou, muito pelo contrário: abre portas para que eu caminhe mais leve, consciente e finalmente inteira.

Se antes eu sangrava os dedos em silêncio ou me perdia nos esquecimentos, hoje sei: nada disso é apenas sombra. Tem nome, tem história, tem lugar. Uma vez tendo lugar, pode ser cuidado. E se pode ser cuidado, pode ser de alguma forma transformado.

Talvez seja exatamente o que a gente busque desde o princípio: não apenas sobreviver, mas aprender a nomear nossa própria existência para, enfim, habitá-la de verdade.


24 de ago. de 2025

A arte salva


Quantas vezes a arte já te salvou? A mim, incontáveis. Ela me salva desde a infância, na verdade. Como quando era pequena e não tinha amigos, mas tinha uma TV onde assistia Chaves e Chapolin todas as tardes com a minha avó, ao chegar do colégio. Nessa época, também desenhava e escrevia. Aliás, por que será que deixamos pra trás esses hábitos de desenhar, colorir, colar, criar? Pensando bem, a sociedade não incentiva isso nos adultos porque seríamos menos produtivos para a grande roda do capitalismo.

A arte me salvou aos 15, quando me descobri lésbica. Eu então passei a escutar bem alto, no meu quarto (bem estilo adolescente de filme americano, sabe?), algumas músicas que mais adiante eu entenderia como hinos da comunidade. Artistas que, assim como eu, em algum momento também precisaram escoar toda a dor do preconceito, da incompreensão, da ausência de representatividade ou mesmo da intensidade ou da confusão característica dessa fase da adolescência.

Se fechar meus olhos, consigo me ver ruiva, bem magrinha, cabelos longos até a cintura, dançando "Try it on my own" da Whitney Houston numa "boate" (hoje chamam de "balada") bem no meio so salão. Por mais difícil de acreditar, eu sempre fui tímida mas, sinceramente, depois de algumas cervejas eu costumo esquecer disso. Gostava da sensação de liberdade que esse hit da época me trazia. Eu não precisava de ninguém pra me acompanhar. Rodopiava, sorria, enquanto as luzes coloridas giravam na pista, iluminando partes dos rostos, dos corpos de pessoas como eu - que buscavam ali refúgio, num lugar onde podíamos ser nós mesmos sem qualquer julgamento. 

Também posso dizer que a arte me salvou inúmeras vezes quando, pela minha falta de eloquência, não era capaz de expressar-me verbalmente da maneira que gostaria e então escrevia uma carta. Amores, amizades, todos que identificava como importantes costumavam receber esse agrado de mim. E, modéstia à parte, normalmente compreendiam o que eu estava tentando expressar.

A propósito, como  disse anteriormente, escrevo desde a infância. Gostaria de ainda ter um caderninho minúsculo onde escrevia poesias (curiosamente, muitas de cunho social: sobre crianças de rua e outras mazelas da sociedade). Também inventava ficção. Cheguei a escrever um livro de umas 300 ou mais páginas. É realmente uma pena que não o tenha mais! 

O fato é que a arte me salvou em todos esses momentos. Eu não conseguia fazer amizades na escola, mas me sentia preenchida através daquelas vidas sobre as quais eu escrevia. Quando eu lia para a minha prima (uma que cresceu sendo uma irmã pra mim), ela, emocionada, me pedia para eu continuar escrevendo. Alguns adultos quando, porventura, liam meus textos, ficavam espantados e também me estimulavam a continuar (jamais se deve subjugar a força que as palavras de um adulto têm sobre a mente de uma criança - o que lhe for dito, pode ter certeza, ela vai acreditar. E isso vai acompanhá-la até mesmo depois de adulta, ainda que inconscientemente). Felizmente, fui bastante estimulada nesse sentido.

A arte também me ajudou a conseguir um emprego, o melhor que já tive em minha vida, a TV Cultura. Ao passar por mim no meio do pátio da faculdade, um professor que na época era diretor da TV, me convidou - assim, sem entrevista nem nada - para trabalhar lá. Eu praticamente achei um bilhete premiado na rua (rs). Ele disse que meu texto era muito bom, que tinha uma vaga de produtora e tal e eu aceitei, óbvio. Estava terminando o período do estágio de 2 anos numa assessoria de comunicação e dessa forma não fiquei sem salário nenhum mês. 

E foi assim pude continuar sendo salva pela arte por mais... 7 anos. O tempo que trabalhei lá. Eu vivia no meio de artistas. Músicos de todos os gêneros mas, principalmente, os regionais. Os mestres do carimbó, os poetas amazônidas, os violonistas, baixistas, cantores, dançarinos, artistas plásticos, escritores e muitos outros que levavam e levam até hoje nossa cultura adiante. 

Mesmo após deixar esse emprego,  que me proporcionou experiências inimagináveis, de valor inestimável (inclusive em viagens pelos interiores do Pará, conhecendo de perto outras realidades além da minha - urbana), ainda continuei (e sigo sendo) sendo salva pela arte. Quando leio um livro (e, ainda bem, o faço com bastante frequência), me deparo com sensações e pensamentos que compartilho com o(a) autor(a). 

Sempre que descubro uma música, um cantor, cantora ou banda que me toca, entro em estado de hiperfoco. Então, me transporto para outro universo, que não é nem o dele(a), nem o de ninguém. Aliás, não se engane: NINGUÉM é detentor da arte. Nem mesmo o próprio autor. Ele pode ser detentor dos direitos autorais, mas jamais da subjetividade daquela obra. A partir do momento em que ela é lida, vista ou ouvida por outro alguém, a complexidade daquele indivíduo filtra o que foi transmitido e então é criada uma espécie de "subobra". Afinal, somos seres únicos e carregados de história pessoal.

Dessa forma, a partir do momento em que a arte ganha o mundo, ela passa a ser minha, sua, do vizinho, da mãe, do pai, do irmão e ao mesmo tempo, não é de ninguém. Joãozinho vai dizer que a música é muito deprimente, enquanto Mariazinha vai jurar que é a canção mais linda que já escutou e que isso lhe traz profunda alegria. Por mais que o autor tenha tentado transmitir uma ideia ou um sentimento, ele não pode ter a prepotência ou mesmo a ilusão de fechá-lo em um único entendimento.

Talvez por isso seja bem complicado julgar uma obra como boa ou ruim. Antes de fazê-lo, sempre me pergunto "mas qual é exatamente a proposta dela?". Porque assistir Chaves batendo no Sr. Barriga certamente não tem o mesmo intuito de Laranja Mecânica. "La La Land" não carrega a mesma ideia de "Forest Gump". As novelas da Globo não podem substituir e nem serem substituídas pelas séries americanas. Aliás, nem mesmo por novelas mexicanas, ainda que carreguem propostas parecidas - o fato de pertencerem a culturas diferentes já as diferenciam entre si.

Então, não sou dona do Belchior. Você não é dono do Raul Seixas. Belchior não é dono de "Como nossos pais". Raul não é dono de "Maluco Beleza". Tampouco "Moinho" pode ser somente Cartola ou "Andar com fé" somente Gil. Quando um artista nasce, obras nascem a partir dele. Mas quando uma obra nasce, ela é do mundo... e várias pessoas renascem junto com elas. Todos os dias.

Só eu já renasci várias vezes, inclusive agora, escrevendo esse texto após um dia terrivelmente difícil e melancólico e sei que ele não me pertence mais, pois qualquer um pode apropriar-se dele no sentido de tomar para si  seu significado. Vai atravessar quem o ler de forma bem diferente da qual o exprimi, por melhor que seja sua sensibilidade ou capacidade de interpretação de texto.

Mas, confesso, é uma sensação única quando você é capaz de tocar o outro a partir daquilo que você cria. Já tive a felicidade de fazer algumas pessoas chorarem com textos meus.  Frequentemente me arrepio e me emociono ao ser capaz de sentir a dor ou a alegria transmitidas por uma música ou um filme. No fim, isso é o que importa. Não se sua interpretação é igual a minha ou qual delas se aproxima do que o autor tentou passar. Mas sim a forma como ela nos toca. Se nos faz sorrir ou chorar, ou se é capaz de nos salvar de nós mesmos e desse mundo que, sem a arte, nada seria.


P.S.: Vi nas redes sociais que hoje, 24 de Agosto, é Dia do Artista. Quis, portanto, homenagear cada um desses seres que, encantados pelo poder da criatividade, conseguem melhorar nossas vidas. E você, me diz, quantas vezes a arte já lhe salvou?

Esta ainda não é a versão final

Minha intensidade sempre gritou  e teve uma época em que eu não tinha escolha  a não ser ouvir Vivia cada dia como se fosse o último Aspirav...