A Escritora Genial

Fui profundamente e irreversivelmente atravessada por uma leitura - não me resta, portanto, outra alternativa senão escrever sobre ela. É neste momento que você que me conhece começa a revirar os olhos. Sim, estou novamente falando da Elena Ferrante (🫣). Mais especificamente, da tetralogia napolitana iniciada com "A amiga genial". É que ela simplesmente dividiu meu mundo literário em antes e depois dela. 🤯🧠🖋📚💛

Li algumas resenhas no Skoob sobre a obra e me impressiona como alguns leitores conseguem reduzi-la a uma amizade tóxica entre duas amigas. Me parece injusto inclusive com elas. Tudo bem que o vínculo de Lila e Lenu é notadamente o eixo central da narrativa, mas vai muito além dele. Ferrante constrói, através da perspectiva da Lenu, um universo repleto de camadas emocionais, sociais, existenciais, políticas, filosóficas e psicanalíticas. Sinceramente: como ela consegue?

Não é papo de fã. Posso constatar a genialidade da autora com mais segurança agora, tendo terminado o terceiro volume e iniciando hoje o quarto e último (como vou sobreviver quando acabar?! 😫). Ler essa tetralogia é como habitar a mente de uma das protagonistas, desde a tenra infância até a vida adulta, acompanhando os acontecimentos mais marcantes e os mais cotidianos por uma perspectiva totalmente imersiva. Assistimos no camarote do córtex pré-frontal da Lenu as angústias, os prazeres, os sonhos, os devaneios, as frustrações e todas aquelas pequenas inquietações que normalmente permanecem ocultas dentro da gente.

O que mais me fascina é a forma como Ferrante transforma eventos aparentemente banais em algo profundamente humano. Adoro os micro pensamentos da Lenu, as inferências que ela faz sobre os outros personagens e, principalmente, a maneira como ela nos permite compreender sentimentos e intenções sem precisar explicá-las.

Mas, pra mim, a característica mais incrível (a que considero razão de minha maior identificação com a obra) é a 'habilidade reflexiva' da Lenu: um universo inteiro permeia a subjetividade dela (a nossa, mas são poucos os que são dão conta disso). Quantas vezes nos pegamos pensando em dizer mil coisas e, no fim, fazemos apenas um gesto qualquer, respondemos algo simples ou deixamos tudo preso dentro da cabeça? Quantas vezes sentimos tanto a ponto de não conseguir racionalizar a respeito mas narramos internamente os mínimos fatos, como se dialogássemos internamente?

Me reconheço demais nisso. Sempre vivi mais dentro dos meus próprios pensamentos do que no mundo concreto e, na hora de me comunicar, sinto que exponho apenas fragmentos do que realmente existe aqui dentro. Antes dessa leitura, eu me perguntava se isso era algo só meu. A forma como o mundo me toca com tamanha intensidade que quase tudo dói, 'coça', incomoda, fere, encanta, assusta.

Também amo que a Elena não explica emoções. Isso, para mim, costuma empobrecer qualquer leitura. Ela revela o sentimento através da experiência, e cabe ao leitor senti-lo ou não. Talvez seja por isso que essa obra desperte fascínio absoluto em algumas pessoas e total indiferença em outras. E, para explicar isso melhor, volto à Clarice:

“Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato… Ou toca, ou não toca.”


P.S.: Não me zoem pela imagem que compõe este post. Sonho não se discute. 🫣

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