Diversão – A etimologia e no que eles a transformaram
Hoje eu escutava um audiolivro (um de meus hiperfocos do momento) quando parei (simplesmente fiquei travada) numa informação: a etimologia da palavra “diversão” — do latim diversio, diversiones, que significa “mudança de direção” ou “afastamento”.
Achei, no mínimo, inusitada essa associação entre a palavra e seu significado primeiro, digamos. Então quer dizer que divertir-se carrega o sentido oculto (sim, hoje definitivamente oculto — e até suspeito que a culpa disso seja o famigerado capetalismo...) de virar para o outro lado ou desviar.
Vou mais longe: então todas as vezes que eu ou você mudamos de ideia, de rota, de profissão, de emprego, enfim, fugimos de qualquer caminho supostamente reto (ad infinitum), estamos nos divertindo? Curioso. Incrível. Acredito que tal entendimento tenha me atravessado por reconhecer que, ao longo de 41 anos, mudei e continuo mudando muito de ideia, de direção, até de cidade, estado, de planos, etc.
Me incomodou um pouco, confesso, que a sociedade atual associe a palavra diversão a algo que remeta a experiências prazerosas (sim), de entretenimento (sim), de desconcentração e previsibilidade (aí está o ponto). Se digo a alguém “hoje vou me divertir”, o que essa pessoa entende:
(A) Vou sair, vou jogar, vou beber, vou cantar, vou ao videokê, vou ao shopping, vou a uma festa;
(B) Vou mudar de direção.
Não preciso responder o enunciado da questão, que se faz um tanto óbvia. Mas preciso entender em que momento passamos a considerar diversão como algo dispendioso, mais ao encontro de aproveitamento daquilo que já se possui (no caso, tempo e dinheiro) do que do sentido de alteração de rota, de ideia, de vida?
Por que afastar a palavra de sua real tradução? “Ah, mas também damos importância à diversão enquanto entretenimento...” Ah, claro. “Estou trabalhando numa multinacional” certamente tem o mesmo peso que “estou indo à biblioteca” ou “aprendi a montar o cubo de Rubik”.
A verdade é que o capetalismo não quer a diversão como uma mudança de direção. Não é interessante para donos do capital que criemos asas e voemos. NÃO! Para eles, é melhor que continuemos considerando diversão como entretenimento.
Ir ao cinema, ver novela, ler um livro, jogar futebol, viajar, tudo isso requer o quê? Grana. Quem tem grana? Eles. Mas, querem nos enfiar goela abaixo que podemos ter todos esses prazeres (perceba que eu nem mencionei a palavra “comprar”...) se conquistarmos um pouco do dinheiro que eles detêm, através da nossa força de trabalho.
No fim, somos as calopsitas que, de asas cortadas, perambulam às vistas dos verdadeiros donos do mundo, ganhando ração, petiscos e algum carinho como forma de diversão.
Enquanto não voltarmos ao hábito da reflexão e da mudança (aqui cabe bem o sentido de aprendizado), nunca alçaremos novos voos, jamais sairemos da gaiola.
Ou seja, não saberemos nunca como:
DI ---> variação de DIS ---> ideia de separação, afastamento.
VERTERE ---> virar, girar, mudar de direção.
Pode ser verdadeiramente LI-BER-TA-DOR!!!

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