Onde eu fui parar?
Minha intensidade sempre gritou
e teve uma época em que eu não tinha escolha
a não ser ouvir
Vivia cada dia como se fosse o último
Aspirava o ar das calçadas lotadas de gente vazia
E aquilo preenchia momentos
Costumava sorver até a última gota
de vida, de álcool, de suor
e tudo que se liquefizesse
Num desespero de sentir sempre mais
Entre bares, pessoas, lugares
E uma infinidade de sentimentos
Eu me achava
E me perdia
Perdia a hora, a cabeça, a razão
Perdia a noção
Perdia a chance, a vergonha, a certeza
Perdia a mão
Quando decidi que não mais me permitiria
A vida entrou nos trilhos
Mas alguma coisa em mim descarrilhou
Pra sobreviver, inventei uma outra versão de mim
Uma que não dá defeito
Só satisfação
Não troca a noite pelo dia
Não perde a hora, a cabeça, a razão
Não perde a noção
Não perde a chance, a vergonha, a certeza
Não perde a mão
Mas o excesso de lucidez me levou pra onde
eu não mais me encontro
Vivo em algum lugar
entre o que fui e o que gostaria de ser
E sinto que essa ainda não é a versão final
Alice ainda não encontrou a porta
e o coelho ainda corre sem saber pra onde ir
Existe uma beleza estranha no inacabado, no imperfeito
Talvez eu tenha passado tempo demais
tentando me tornar alguém que não desse trabalho
e tenha esquecido
como era ser alguém que sentia.
Então procuro.
Reabro portas.
Desenterro versões.
Recolho pedaços.
Quero trazer de volta à vida
aquilo que adormeci em mim.
Não para voltar a ser quem eu era.
Mas para descobrir
quem sou
quando não preciso mais escolher
entre o excesso e o controle.
Onde eu fui parar?

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