30 de ago. de 2026

Esta ainda não é a versão final


Minha intensidade sempre gritou 

e teve uma época em que eu não tinha escolha 

a não ser ouvir

Vivia cada dia como se fosse o último

Aspirava o ar das calçadas lotadas de gente vazia

E de algum modo aquilo me preenchia


Costumava sorver até a última gota

de vida, de álcool, de suor

e tudo que se liquefizesse

Num desespero de sentir sempre mais


Entre bares, pessoas, lugares

E uma infinidade de sentimentos

Eu me achava

E me perdia

Perdia a hora, a cabeça, a razão

Perdia a noção

Perdia a chance, a vergonha, a certeza

Perdia a mão


Quando decidi que não mais me permitiria

A vida entrou nos trilhos

Mas alguma coisa em mim descarrilhou

Pra sobreviver, inventei uma outra versão de mim

Uma que não dá defeito

Só satisfação

Não troca a noite pelo dia

Não perde a hora, a cabeça, a razão 

Não perde a noção

Não perde a chance, a vergonha, a certeza

Não perde a mão


Mas o excesso de lucidez me levou pra onde

eu não mais me encontro

Vivo em algum lugar

entre o que fui e o que gostaria de ser

E sinto que essa ainda não é a versão final 

Alice, ainda não achei a porta!

e o coelho ainda corre sem saber pra onde ir...


Existe uma beleza estranha no inacabado, no imperfeito

Talvez eu tenha passado tempo demais

tentando me tornar alguém que não desse trabalho

e tenha esquecido

como era ser alguém que... sentia!

Então procuro meu eu

Reabro portas

Recolho pedaços

Quero acordar o que adormeceu

Quero juntar as peças do meu quebra-cabeça

Não pra voltar à versão anterior

Mas para que esta nova cresça

"Sistema atualizado com sucesso"


Afinal, quem eu sou?

Quando não preciso mais escolher

Entre o excesso e o controle

Entre o que quero

E o que esperam de mim?


Onde eu fui parar?

3 de jul. de 2026

Mãos para o alto, isso é uma memória!


Hoje eu fui completamente tomada pelo que eu chamaria de "memória assaltante". Funciona mais ou menos assim: você está compenetrado em alguma atividade de trabalho ou, sei lá, fazendo qualquer outra coisa aleatória como ler um livro ou aguardar o semáforo abrir. Daí, simplesmente do nada, você é sugado para dentro de alguma realidade distante e recupera imagens, sons e até cheiros! Lembranças de tempos longínquos que já nem sabia que existiam. É como se alguém abrisse a tampa de alguma caixinha de sua memória, sabe?

Comecei a ter esse tipo de experiência (pelo menos, a notar que tenho) há mais ou menos uns 2 anos, depois que iniciei meu processo de análise. Da primeira vez, recordei, do nada, que já havia pilotado uma moto. Ponto final na frase, que antes tinha uma vírgula por motivos de demonstrar que só essa informação pra mim já é demais. Só que não parou por aí: eu não usei capacete e - pior ainda - nunca tive habilitação.

Salvo engano, fiz aquilo mais de uma vez. Sempre em período de férias, com uma ex aventureira e um grupo de amigas em comum que nos acompanhavam em quase todas as nossas loucuras. Mas não me julgue tão fácil. Se na capital (Belém) já é comum ver motociclistas sem capacete, imagina numa cidade do interior do Pará! 

Fico chocada quando penso em tudo que já tive coragem de fazer. Logo eu que hoje nem atravesso a rua fora da faixa de pedestres 😅. Parece que foi em outra encarnação...rs

Hoje, agora pouco na verdade, simplesmente me vi de novo descendo de um ônibus na frente da Praça do Relógio, em Belém, com uma roupa naquela época ainda bem patricinha (eu era bem novinha e meu guarda-roupa se dividia entre peças pretas e cor de rosa). Saltava do transporte público sentindo o característico cheiro de peixe, caminhava até o Banco Sudameris, meu primeiro emprego, trabalhava até o meio-dia, almoçava comidas típicas no centro da cidade (normalmente, maniçoba ou vatapá...), depois trabalhava até às 16h ou 17h (agora não me recordo) e voltava pra casa.

Não sei como essas memórias ficam guardadas por tanto tempo e, de repente, um belo dia, saltam que nem pipocas estourando na panela. Me questiono que função essa lembrança teria na minha vida de hoje, eu com 41 anos, morando do outro lado do país há quase 10, sem visitar minha terra há 6.

Quem sabe a resposta não esteja no "porquê" de elas voltarem, mas... talvez... no fato de que, em algum lugar, aquela menina de Belém e essa mulher que hoje comanda a própria vida, se sustenta e "dá seus corres" nunca deixaram de ser a mesma pessoa.

A gente tende a achar que o tempo é uma linha reta, né? Como uma estrada que a gente percorre e deixa o acostamento para trás. Mas, na verdade, a gente funciona mais como um arquivo em camadas. Essas "memórias assaltantes" são apenas o subconsciente nos lembrando que nada do que vivemos é descartável.

A Flavinha, que batia ponto no Sudameris com o cheiro de peixe e a visualização de sua terra natal in natura, não morreu; ela só se tornou o alicerce invisível de é/sou agora.

No fundo, acho que essas lembranças chegam justamente quando a gente precisa de um lembrete de resiliência. Elas surgem sem pedir licença, como quem entra na sala sem bater, para nos mostrar que já sobrevivemos a muitas versões de nós mesmas.

Quem sabe, na correria de tentar dar conta das metas e dos editais, de buscar incessantemente um lugar ao sol, eu precise aceitar que não sou apenas a Flávia de 41 anos, proletária, concurseira, leitora (e sei lá quantas outras coisas) em Santa Catarina. Sou também a menina que pilotou aquela moto sem medo, a estagiária do banco, a jornalista que trabalhou numa TV pública, a viajante. 

Elas estão todas aqui, guardadas na mesma caixinha, esperando o momento certo de saltar como pipoca para me lembrar que, não importa o quanto o tempo passe ou que a distância aumente, a minha história é um tecido único. E, de vez em quando, é um alívio enorme descobrir que, por trás da seriedade da rotina, a gente ainda consegue ser surpreendida por versões de nós mesmas que ainda existem e estão mais vivas do que nunca.


11 de mai. de 2026

A Escritora Genial

Fui profundamente e irreversivelmente atravessada por uma leitura - não me resta, portanto, outra alternativa senão escrever sobre ela. É neste momento que você que me conhece começa a revirar os olhos. Sim, estou novamente falando da Elena Ferrante (🫣). Mais especificamente, da tetralogia napolitana iniciada com "A amiga genial". É que ela simplesmente dividiu meu mundo literário em antes e depois dela. 🤯🧠🖋📚💛

Li algumas resenhas no Skoob sobre a obra e me impressiona como alguns leitores conseguem reduzi-la a uma amizade tóxica entre duas amigas. Me parece injusto inclusive com elas. Tudo bem que o vínculo de Lila e Lenu é notadamente o eixo central da narrativa, mas vai muito além dele. Ferrante constrói, através da perspectiva da Lenu, um universo repleto de camadas emocionais, sociais, existenciais, políticas, filosóficas e psicanalíticas. Sinceramente: como ela consegue?

Não é papo de fã. Posso constatar a genialidade da autora com mais segurança agora, tendo terminado o terceiro volume e iniciando hoje o quarto e último (como vou sobreviver quando acabar?! 😫). Ler essa tetralogia é como habitar a mente de uma das protagonistas, desde a tenra infância até a vida adulta, acompanhando os acontecimentos mais marcantes e os mais cotidianos por uma perspectiva totalmente imersiva. Assistimos no camarote do córtex pré-frontal da Lenu as angústias, os prazeres, os sonhos, os devaneios, as frustrações e todas aquelas pequenas inquietações que normalmente permanecem ocultas dentro da gente.

O que mais me fascina é a forma como Ferrante transforma eventos aparentemente banais em algo profundamente humano. Adoro os micro pensamentos da Lenu, as inferências que ela faz sobre os outros personagens e, principalmente, a maneira como ela nos permite compreender sentimentos e intenções sem precisar explicá-las.

Mas, pra mim, a característica mais incrível (a que considero razão de minha maior identificação com a obra) é a 'habilidade reflexiva' da Lenu: um universo inteiro permeia a subjetividade dela (a nossa, mas são poucos os que se dão conta disso). Quantas vezes nos pegamos pensando em dizer mil coisas e, no fim, fazemos apenas um gesto qualquer, respondemos algo simples ou deixamos tudo preso dentro da cabeça? Quantas vezes sentimos tanto a ponto de não conseguir racionalizar a respeito mas narramos internamente os mínimos fatos, como se dialogassem duas (ou mais) de nós?

Me reconheço demais nisso. Sempre vivi mais dentro dos meus próprios pensamentos do que no mundo concreto e, na hora de me comunicar, sinto que exponho apenas fragmentos do que realmente existe aqui dentro. Antes dessa leitura, eu me perguntava se isso era algo só meu. A forma como o mundo me toca com tamanha intensidade que quase tudo dói, 'coça', incomoda, fere, encanta, assusta.

Também amo que a Elena não explica emoções. Isso, para mim, costuma empobrecer qualquer leitura. Ela revela o sentimento através da experiência, e cabe ao leitor senti-lo ou não. Talvez seja por isso que essa obra desperte fascínio absoluto em algumas pessoas e total indiferença em outras. E, para explicar isso melhor, volto à Clarice:

“Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato… Ou toca, ou não toca.”


P.S.: Não me zoem pela imagem que compõe este post. Sonho não se discute. 🫣

25 de mar. de 2026

Diversão – A etimologia e no que eles a transformaram

Hoje eu escutava um audiolivro (um de meus hiperfocos do momento) quando parei (simplesmente fiquei travada) numa informação: a etimologia da palavra “diversão” — do latim diversio, diversiones, que significa “mudança de direção” ou “afastamento”.

Achei, no mínimo, inusitada essa associação entre a palavra e seu significado primeiro, digamos. Então quer dizer que divertir-se carrega o sentido oculto (sim, hoje definitivamente oculto — e até suspeito que a culpa disso seja o famigerado capetalismo...) de virar para o outro lado ou desviar.

Vou mais longe: então todas as vezes que eu ou você mudamos de ideia, de rota, de profissão, de emprego, enfim, fugimos de qualquer caminho supostamente reto (ad infinitum), estamos nos divertindo? Curioso. Incrível. Acredito que tal entendimento tenha me atravessado por reconhecer que, ao longo de 41 anos, mudei e continuo mudando muito de ideia, de direção, até de cidade, estado, de planos, etc. 

Me incomodou um pouco, confesso, que a sociedade atual associe a palavra diversão a algo que remeta a experiências prazerosas (sim), de entretenimento (sim), de desconcentração e previsibilidade (aí está o ponto). Se digo a alguém “hoje vou me divertir”, o que essa pessoa entende:

(A) Vou sair, vou jogar, vou beber, vou cantar, vou ao videokê, vou ao shopping, vou a uma festa;

(B) Vou mudar de direção.

Não preciso responder o enunciado da questão, que se faz um tanto óbvia. Mas preciso entender em que momento passamos a considerar diversão como algo dispendioso, mais ao encontro de aproveitamento daquilo que já se possui (no caso, tempo e dinheiro) do que do sentido de alteração de rota, de ideia, de vida? 

Por que afastar a palavra de sua real tradução? “Ah, mas também damos importância à diversão enquanto entretenimento...” Ah, claro. “Estou trabalhando numa multinacional” certamente tem o mesmo peso que “estou indo à biblioteca” ou “aprendi a montar o cubo de Rubik”.

A verdade é que o capetalismo não quer a diversão como uma mudança de direção. Não é interessante para donos do capital que criemos asas e voemos. NÃO! Para eles, é melhor que continuemos considerando diversão como entretenimento.

Ir ao cinema, ver novela, ler um livro, jogar futebol, viajar, tudo isso requer o quê? Grana. Quem tem grana? Eles. Mas, querem nos enfiar goela abaixo que podemos ter todos esses prazeres (perceba que eu nem mencionei a palavra “comprar”...) se conquistarmos um pouco do dinheiro que eles detêm, através da nossa força de trabalho.

No fim, somos as calopsitas que, de asas cortadas, perambulam às vistas dos verdadeiros donos do mundo, ganhando ração, petiscos e algum carinho como forma de diversão. 

Enquanto não voltarmos ao hábito da reflexão e da mudança (aqui cabe bem o sentido de aprendizado), nunca alçaremos novos voos, jamais sairemos da gaiola. 

Ou seja, não saberemos nunca como:

DI ---> variação de DIS ---> ideia de separação, afastamento.

VERTERE ---> virar, girar, mudar de direção.

Pode ser verdadeiramente LI-BER-TA-DOR!!!

Esta ainda não é a versão final

Minha intensidade sempre gritou  e teve uma época em que eu não tinha escolha  a não ser ouvir Vivia cada dia como se fosse o último Aspirav...