Mãos para o alto, isso é uma memória!


Hoje eu fui completamente tomada pelo que eu chamaria de "memória assaltante". Funciona mais ou menos assim: você está compenetrado em alguma atividade de trabalho ou, sei lá, fazendo qualquer outra coisa aleatória como ler um livro ou aguardar o semáforo abrir. Daí, simplesmente do nada, você é sugado para dentro de alguma realidade distante e você recupera imagens, sons e até cheiros! Lembranças de tempos longínquos que você já nem sabia que existiam. É como se alguém abrisse a tampa de alguma caixinha de sua memória, sabe?

Comecei a ter esse tipo de experiência (pelo menos, a notar que tenho) há mais ou menos uns 2 anos, depois que iniciei meu processo de análise. Da primeira vez, recordei, do nada, que já havia pilotado uma moto. Ponto final na frase, que antes tinha uma vírgula por motivos de demonstrar que só essa informação pra mim já é demais. Só que não parou por aí: eu não usei capacete e - pior ainda - nunca tive habilitação.

Salvo engano, fiz aquilo mais de uma vez. Sempre em período de férias, com uma ex aventureira e um grupo de amigas em comum que nos acompanhavam em quase todas as nossas loucuras. Mas não me julgue tão fácil. Se na capital (Belém) já é comum ver motociclistas sem capacete, imagina numa cidade do interior do Pará! 

Fico chocada quando penso em tudo que já tive coragem de fazer. Logo eu que hoje nem atravesso a rua fora da faixa de pedestres 😅. Parece que foi em outra encarnação...rs

Hoje, agora pouco na verdade, simplesmente me vi de novo descendo de um ônibus na frente da Praça do Relógio, em Belém, com uma roupa naquela época ainda bem patricinha (eu era bem novinha e meu guarda-roupa se dividia entre peças pretas e cor de rosa). Saltava do transporte público sentindo o característico cheiro de peixe, caminhava até o Banco Sudameris, meu primeiro emprego, trabalhava até o meio-dia, almoçava comidas típicas no centro da cidade (normalmente, maniçoba ou vatapá...), depois trabalhava até às 16h ou 17h (agora não me recordo) e voltava pra casa.

Não sei como essas memórias ficam guardadas por tanto tempo e, de repente, um belo dia, saltam que nem pipocas estourando na panela. Me questiono que função essa lembrança teria na minha vida de hoje, eu com 41 anos, morando do outro lado do país há quase 10, sem visitar minha terra há 6.

Quem sabe a resposta não esteja no "porquê" de elas voltarem, mas... talvez... no fato de que, em algum lugar, aquela menina de Belém e essa mulher que hoje comanda a própria vida, se sustenta e "dá seus corres" nunca deixaram de ser a mesma pessoa.

A gente tende a achar que o tempo é uma linha reta, né? Como uma estrada que a gente percorre e deixa o acostamento para trás. Mas, na verdade, a gente funciona mais como um arquivo em camadas. Essas "memórias assaltantes" são apenas o subconsciente nos lembrando que nada do que vivemos é descartável.

A Flavinha, que batia ponto no Sudameris com o cheiro de peixe e a visualização de sua terra natal in natura, não morreu; ela só se tornou o alicerce invisível de é/sou agora.

No fundo, acho que essas lembranças chegam justamente quando a gente precisa de um lembrete de resiliência. Elas surgem sem pedir licença, como quem entra na sala sem bater, para nos mostrar que já sobrevivemos a muitas versões de nós mesmas.

Na correria de tentar dar conta das metas e dos editais, de buscar incessantemente um lugar ao sol, eu precise aceitar que não sou apenas a Flávia de 41 anos, estudante em Santa Catarina. Sou também a menina que pilotou aquela moto sem medo, a estagiária do banco, a jornalista que trabalhou numa TV pública, a viajante. 

Elas estão todas aqui, guardadas na mesma caixinha, esperando o momento certo de saltar como pipoca para me lembrar que, não importa o quanto o tempo passe ou que a distância aumente, a minha história é um tecido único. E, de vez em quando, é um alívio enorme descobrir que, por trás da seriedade da rotina, a gente ainda consegue ser surpreendida por versões de nós mesmas que ainda existem e estão mais vivas do que nunca.


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